José Sócrates: o elefante plantado no meio da sala



Numa campanha marcada pelo contínuo desfile de animais, talvez devido à acção pedagógica do PAN, aquele que mais deu nas vistas acabou por ser um elefante. Plantado num local nada cómodo para António Costa: a sala de visitas do PS. Roubando espaço de manobra ao líder socialista e lembrando-lhe um passado que ele queria varrer para debaixo da alcatifa.

José Sócrates ressurgiu faz hoje oito dias, em longa entrevista nocturna à CNN Portugal. Quando Costa ainda batia no peito a pedir maioria absoluta. O conselheiro que o persuadiu a adoptar tal estratégia não podia estar mais equivocado.

Exibindo aquele ar de quem anda sempre de mal com o mundo e sente um desprezo sem fim por quantos não lhe alimentam o ego, o autoproclamado “animal feroz” deu um ralhete público ao seu antigo ministro da Administração Interna, que com ele trabalhou entre 2005 e 2007.

“O único conselho que eu daria a quem quer uma maioria absoluta: talvez devesse começar por não desmerecer a única que o PS teve na sua história, aquela que eu tive em 2005.” Eis Sócrates igual a si próprio: não esquece um agravo, considera-se traído por Costa e consegue usar o pronome “eu” duas vezes na mesma frase.

Como se não bastasse, insistiu: “Talvez fosse melhor começar por não pôr em causa a história do PS, que teve um momento muito importante em 2005.”

José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, 64 anos, conseguiu irritar o secretário-geral socialista ao romper o silêncio em plena campanha eleitoral. Na manhã seguinte, confrontado pelos jornalistas que lhe pediam uma reacção à entrevista, Costa não escondia o desagrado. “Não tive oportunidade de ver”, reagiu secamente. E seguiu adiante. Tinha o dia estragado. Nada lhe podia agradar menos, nesta romagem às urnas em que disputa cada voto, do que surgir associado à era socrática.

Felizmente para ele, Sócrates deixou claro não ter hoje “nenhuma relação com a direcção do PS” e lembrou que já devolveu o cartão de militante: “Decidi abandonar o partido para preservar a minha dignidade.” Mas revelou que ainda se sente integrado na família socialista, mantém muita gente amiga nas listas eleitorais e continuará fiel ao emblema quando assinalar a cruz no boletim de voto. E rematou, com um esgar de desdém: “O PS não é António Costa.”

A aparição de Sócrates na campanha, entrando como fantasma hamletiano pela porta das traseiras, não podia ter ocorrido em pior momento para alguém que promete confiança e credibilidade aos portugueses. Costa, político com instinto apurado, percebeu de imediato que devia abandonar a reivindicação da maioria absoluta - associada pelos eleitores àqueles anos em que ele se sentava no Conselho de Ministros presidido pelo mais mediático arguido da Operação Marquês. Assim fez: não voltou a aludir ao tema.

A partir daí, apenas Pedro Nuno Santos, integrado na caravana socialista em Espinho, insistiu na tecla reivindicando “a maior maioria absoluta que pudermos”. Parecia falar com entoação irónica, mas só ele poderá esclarecer.

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