José Luís Carneiro: centrista que está a correr por fora depara-se com o primeiro teste de fogo

No sábado passado, ainda antes de Portugal voltar a ser um rectângulo de ignições, o ministro da Administração Interna lançou o alerta para o que disse poder ser “a pior conjugação de factores desde Pedrógão Grande”.



O impacto do Verão escaldante de 2022 está a ser assumido pelo primeiro-ministro, ao ponto de António Costa ter cancelado uma visita a Moçambique face à previsão (confirmada) de altas temperaturas ao longo da semana e daquilo que costuma estar-lhes associado nas florestas nacionais. Mas, junto de si, tem alguém que sabe estar perante o maior desafio que se coloca a um ministro da Administração Interna.

Nomeado para a pasta que foi de Eduardo Cabrita desde a catástrofe dos incêndios florestais do Verão de 2017 até quase ao final da anterior legislatura, José Luís Pereira Carneiro, de 50 anos, tornou-se ministro da Administração Interna após quase três anos enquanto secretário-geral adjunto do PS e eminência do grupo parlamentar socialista. A proximidade com o líder foi cimentada nos últimos anos, mas esteve desde o primeiro dia no executivo da geringonça, enquanto secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.

No sábado passado, ainda antes de Portugal voltar a ser um rectângulo de ignições, lançou o alerta para o que disse poder ser “a pior conjugação de factores desde Pedrógão Grande”. A referência ao mais traumático momento da governação de António Costa, com 66 vítimas mortais e devastação sem precedentes em Junho de 2017, terá sido para elevar a fasquia de responsabilidade de quem viu Constança Urbano de Sousa deixar de ser ministra após os incêndios de Outubro desse ano causarem mais 50 mortes.

No momento de “reforçar a mensagem de que as condições são muito exigentes e exigirão muito de todos nós para conseguirmos evitar o pior nos próximos dias”, o ministro da Administração Interna surgiu aos jornalistas tão sereno como é seu timbre. Apesar de estar na base aérea de Figo Maduro, após ter sobrevoado alguns dos maiores incêndios, que já então estavam em curso. E de, mesmo sublinhando a evolução nos meios humanos e tecnológicos conseguida nos últimos anos, ter realçado que tais meios “são sempre finitos” e dependem da “ajuda que os portugueses poderiam dar aos bombeiros” ao ter comportamentos seguros e evitar deflagrações.

Superar a prova de fogo dos incêndios florestais é o desafio de um socialista de tendência centrista, ao ponto de ter sido chefiado por Paulo Portas quando este era director d’O Independente, um dos títulos da imprensa com que o antigo professor universitário de Relações Internacionais colaborou antes de presidir a Câmara de Baião, entre 2005 e 2015. Dele começa a dizer-se, como foi referido por José Miguel Júdice na edição anterior do NOVO, que poderá vir a ser um outsider na corrida à sucessão de António Costa. Resta saber se está interessado e terá condições para ultrapassar os suspeitos do costume.

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