Jorge Sampaio: fazer das fraquezas forças do princípio ao fim



Na tarde de quarta-feira houve unanimidade na Assembleia da República: por uma vez, as bandeiras partidárias estiveram em convergência. Quando todos os grupos parlamentares expressaram um voto de pesar pelo falecimento de Jorge Fernando Branco de Sampaio, falecido faz hoje oito dias, com 82 anos incompletos. Esta posição em nenhum momento pareceu mero registo formal: percebeu-se que era um gesto sentido de um extremo ao outro do hemiciclo.

Eis, talvez, o maior dos legados do antigo Presidente da República: demonstrar aos compatriotas que é possível pertencer de corpo inteiro a uma facção política sem jamais encarar as restantes como inimigas, sem rebaixar um adversário, sem deixar de atender aos argumentos opostos.

Jorge Sampaio, Presidente da República entre 1996 e 2006, era por temperamento e formação um gentleman, educado na matriz anglo-saxónica. No início da década de 50, quando residia com os pais em Londres, a mãe levou-o a assistir a uma sessão na Câmara dos Comuns protagonizada pelo conservador Winston Churchill e o trabalhista Clement Attlee. Ver e escutar aqueles dois estadistas que haviam integrado o governo de coligação britânico durante a Segunda Guerra Mundial foi mais que uma aula prática de política: foi uma lição de vida.

Se todos os jovens aspirantes ao exercício de funções públicas tivessem este privilégio nos anos decisivos em que se molda um carácter, o debate entre nós seria muito menos crispado, cultivaria o argumento persuasivo, deixaria de roçar o insulto. Metas cada vez mais utópicas nesta era das “redes sociais”, transformadas numa espiral de gritaria em sessões contínuas.

Sampaio aproveitou bem o que aprendeu naquele dia. E soube aplicar esta lição ao longo do seu percurso, iniciado no temerário activismo universitário durante a ditadura e culminado na década em que exerceu funções presidenciais, sob o mote “Não há portugueses dispensáveis”. Mesmo quando traçou linhas divisórias com clareza. Em 1974, ao abandonar o Movimento de Esquerda Socialista, em defesa do reformismo contra a febre revolucionária. Em 1985, quando não hesitou em apoiar a candidatura presidencial de Mário Soares, moderada e europeísta, contra os radicais de esquerda congregados em torno de Salgado Zenha. Em 2004, ao considerar esgotado um governo que empossara com extrema relutância, devolvendo a palavra aos eleitores, naquela que foi a mais controversa decisão do seu mandato em Belém.

Deixa-nos um exemplo de “elevação na discordância”, como sublinhou um dos intervenientes na sessão parlamentar em que foi homenageado a título póstumo. E também uma permanente atenção ao que ocorria no mundo. Como ficou evidente quando, já muito frágil, na véspera do seu internamento hospitalar, alertava em artigo no “Público” para o drama afegão. Proclamando, em tom imperativo: “A solidariedade não é facultativa: é um dever.” Singular modo de fazer das fraquezas forças quase até ao último sopro dos seus dias.

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