João Rendeiro: o abismo depois do êxito, esse velho impostor



A trágica morte de João Rendeiro ilustra melhor do que mil sermões como é ilusório o clarão dos holofotes, que iluminam por instantes e logo se apagam, deixando a vedeta da véspera submersa na penumbra. À glória fácil sucede-se a queda sem remissão. Aconteceu com o banqueiro que teve parte da classe dirigente e da constelação jornalística a seus pés quando ganhou fama de multiplicar os dividendos de ricos e poderosos. Triste ironia terminar os seus dias tão longe desse mundo de seda e cetim, num país distante, entre os escorraçados da sociedade.

Os mais cínicos dirão que o lisboeta João Manuel Oliveira Rendeiro, nascido há 69 anos em família de classe média oriunda de Aveiro e agora encontrado sem vida numa cela sul-africana, por aparente enforcamento, teve o que merecia. Mas num país que se orgulha de haver abolido o tratamento prisional desumano, práticas de tortura em estabelecimentos estatais e a pena de morte, é imoral alguém congratular-se com o desaparecimento seja de quem for, sobretudo em circunstâncias destas. Trate-se de um milionário caído em desgraça ou do mais humilde varredor de ruas.

É verdade que Rendeiro, fundador e antigo homem-forte do Banco Privado Português, promovido com a ajuda de muitas figuras mediáticas e habituado durante anos a gerir fortunas, criou um monstro financeiro que acabou por devorá-lo. Já era assim, em estrito rigor, quando as manchetes da imprensa mais complacente lhe colavam o rótulo de “banqueiro dos ricos”.

Cometeu, sem dúvida, vários pecados capitais - incluindo o de acreditar no seu próprio mito. E era um foragido à justiça: fora condenado, em última instância, num dos processos criminais que lhe haviam sido instaurados. Neste caso, a cinco anos e oito meses de prisão efectiva por falsidade informática e falsidade de documentos.

Escapou para a África do Sul, perante a chocante benevolência de um sistema judiciário que lhe concedia garantias sem lhe impor deveres, e só viria a ser localizado pelas autoridades policiais após a célebre entrevista que assinalou o início das emissões da CNN portuguesa. Expondo a nossa investigação criminal ao ridículo.

Como outras opções que foi tomando, numa vida que dava um filme sem final feliz, também esta se revelou desastrosa. Dizia agir “em legítima defesa”, recusando ser “bode expiatório do sistema financeiro nacional”, sem perceber que continuava a dar passos na direcção errada.

Poucas derrocadas pessoais terão sido tão abruptas. Dos supostos milhões que terá amealhado nas Ilhas Virgens Britânicas, enquanto gestor das ilusões alheias, à quase indigência que nem lhe permitia pagar os serviços jurídicos da advogada sul-africana. Também sem assistência consular, como se fosse apátrida.

De algum modo, teve o destino que escolheu. Até em sentido literal, enquanto reverso do êxito, esse velho e astuto impostor. Como escreveu o poeta espanhol Juan Bonilla, “todo suicidio es un crimen pasional./ El suicida se sacrifica siempre/ por un amor no correspondido

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