João Oliveira: ordem para saltar do banco e substituir o titular



A vida é feita de surpresas. E a política, inseparável da vida, não constitui excepção. Ninguém pensaria, no início desta semana, ver João Oliveira defrontar Rui Rio em representação do PCP num debate a dois integrado na campanha eleitoral para as legislativas. Como se o partido da foice e do martelo já tivesse solucionado um problema que há muito sobressalta os seus opacos centros de decisão interna: o problema da sucessão de Jerónimo de Sousa, decano dos dirigentes partidários nacionais - eleito secretário-geral dos comunistas em Novembro de 2004, quando o Presidente da República era Jorge Sampaio e o primeiro-ministro se chamava Pedro Santana Lopes.

Jerónimo, que andava visivelmente debilitado desde o fim da geringonça, foi internado de urgência no hospital Egas Moniz para uma delicada intervenção cirúrgica, forçando o restrito núcleo dirigente do partido a tomar uma decisão mais cedo do que desejaria. Por enquanto só com carácter transitório. Mas poucos duvidam que um novo ciclo teve início na mais antiga e conservadora força partidária existente em Portugal.

Este é o momento para João Guilherme Ramos Rosa de Oliveira, 42 anos, aparecer com estatuto reforçado: nos debates compete-lhe substituir o titular, como se diz na gíria do futebol. Tem experiência de palco desde 2013, quando ascendeu a presidente da bancada comunista na Assembleia da República, rendendo Bernardino Soares, outrora um jovem aspirante à liderança que não passou disso. Exibe um potencial empático superior ao de João Ferreira e pratica um discurso menos dogmático do que o antigo eurodeputado, ex-candidato presidencial e actual vereador na câmara de Lisboa. Faltam-lhe talvez credenciais de rigidez ideológica, critério supremo para atingir o topo num partido que ainda se diz representante da classe operária em pleno capitalismo digital.

A verdade é que foi ele a enfrentar Rio no duelo televisivo de quarta-feira, desenrolado em tom cordato mas assertivo, superando a prova. Visibilidade ao mais alto nível para este alentejano adepto do Sporting que se formou em Direito em Coimbra e é cabeça-de-lista às legislativas por Évora, além de ter assento na Comissão Política do Comité Central. Mas não será ele a substituir Jerónimo à frente da caravana comunista que andará de terra em terra até ao próximo dia 28. Essa missão fica agora confiada a João Ferreira. Dois homens candidatos à sucessão num partido que nunca teve uma mulher no posto máximo.

Oliveira, o mais afável, é também o que tem menos hipóteses de lá chegar. E não apenas por algum défice de dogmatismo, aspecto nunca irrelevante no PCP. É que ele foi um dos principais negociadores da geringonça e um dos maiores defensores desta solução política sepultada com o inédito chumbo do Orçamento do Estado para 2022. Para isso contou sempre com total apoio de Jerónimo de Sousa. Mas até em partidos caracterizados pelo imobilismo chega sempre um momento em que se torna imperioso virar a página.

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