Fernando Santos: prometer o mais difícil após falhar o mais fácil



O futebol acaba por acompanhar as oscilações da política. E até lhes ilumina algum significado oculto. O nosso primeiro brilharete num campeonato europeu da modalidade, ao atingirmos as semifinais de 1984, ocorreu quando o país acelerava rumo à integração europeia, concretizada no ano seguinte. O segundo, em 2004, já foi proeza que soube a pouco: ascendemos a vice-campeões europeus, marca jamais antes atingida mas que soava a fracasso num torneio disputado em casa. Como simbólico prelúdio dos anos de estagnação que teríamos pela frente.

Em 2016, novo paralelo. Vencemos enfim o mais cobiçado troféu da Europa. Os focos do continente concentraram-se neste país que acabara de sacudir os anos de chumbo da troika e virar uma página política, estreando a primeira coligação de forças derrotadas da nossa história democrática - equivalente àquela que Mário Soares recusara em 1987. “PCP e Bloco de Esquerda já integram o arco da governação”, gabava-se um esfuziante António Costa. Sentia-se o político com mais sorte de Portugal. E parecia transmitir isso aos portugueses.

Aplicando a mesma lógica às circunstâncias actuais, dir-se-ia que a queda irrevogável da geringonça prenunciou a humilhante derrota da equipa das quinas, considerada a oitava melhor do mundo pela FIFA, frente à Sérvia, que ocupa um modesto 29.º lugar na mesma tabela classificativa. O Orçamento do Estado para 2022 foi chumbado a 28 de Outubro, o nosso quase-afastamento do Campeonato do Mundo do Catar, a decorrer no ano que vem, ocorreu a 14 de Novembro - com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa sentados na tribuna do estádio da Luz. Difícil acreditar em coincidências.

Apesar de tudo, o futebol é mais inclemente do que a política. Pelo menos meio país aguardava este desaire para cair em cima do seleccionador, descarregando nele todas as frustrações da pátria. Fernando Manuel Fernandes da Costa Santos, 67 anos, passou de bestial a besta à velocidade estonteante das redes sociais. Chamaram-lhe de tudo: incompetente, ultrapassado - até ganancioso, por ter um generoso salário pago pela Federação Portuguesa de Futebol que em nada onera os contribuintes. Já esquecidos que só com ele conquistámos os dois únicos títulos do chamado desporto-rei a nível de selecções: além do Euro-2016, também a Liga das Nações, em 2019.

Há que reconhecer, a crédito do treinador que em 2014 sucedeu a Paulo Bento ao leme do onze nacional: há cinco anos, mais do que ninguém, ele acreditou sempre. Num país em que o derrotismo é moeda corrente e onde nenhum profeta da desgraça está desempregado, o mais célebre engenheiro do futebol português ministrou injecções de optimismo nos adeptos, transmitindo-lhes toda a confiança do mundo.

Agora, numa bravata digna de fazer inveja a alguns políticos, promete fazer o mais difícil depois de falhar o mais fácil: “Portugal vai estar no Mundial.” Teremos de disputar dois jogos suplementares, no final de Março, e vencê-los. Já deverá haver novo governo por essa altura.

Ler mais