Carlos Moedas: nunca entrar em campo a jogar para o empate



Os políticos deviam aprender muito com as figuras mais emblemáticas do futebol. Sobretudo os que costumam jogar para o empate. Em política, como no desporto, um empate é uma semiderrota. Os grandes do mundo da bola iniciam cada desafio só com o pensamento na vitória. E celebram cada golo como se fosse o primeiro. Repare-se em Cristiano Ronaldo: esta semana marcou pelo Manchester United, na Liga dos Campeões, e parecia um miúdo a festejar numa peladinha de rua. Aos 36 anos, depois de tantos imbecis já lhe terem antecipado um epitáfio que tarda a consumar-se.

“Não há nada mais perigoso do que não correr riscos”, ensina Pep Guardiola, um dos melhores treinadores de futebol de todos os tempos. Esta frase - ou um pensamento muito semelhante - certamente pairou na mente de um certo ex-comissário europeu quando há sete meses trocou o conforto do Conselho da Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pelo mais incerto dos combates autárquicos: o que se jogaria em Lisboa.

Houve vozes sensatas que lhe recomendaram prudência. Nunca faltam vozes sensatas num país que enaltece o Velho do Restelo. Mas Carlos Manuel Félix Moedas, 51 anos, rumou em sentido contrário: o instinto segredou-lhe que era tempo de desafiar o poderoso aparelho autárquico socialista, instalado há 14 anos em Lisboa. Um aparelho cada vez mais arrogante, mais tentacular, mais indiferente ao ruído da rua.

Contra os ventos dominantes, contra os bonzos do comentário político, impôs-se a Fernando Medina. Que não era apenas presidente da Câmara Municipal de Lisboa: era também delfim político de António Costa. Duas proezas numa só.

Esta foi a derrota que mais doeu ao primeiro-ministro: Costa cometeu o erro de transformar o escrutínio autárquico num plebiscito ao seu mandato, nacionalizando-o como nunca.

Foram também derrotados aqueles que, no próprio PSD, recomendaram ao ex-comissário europeu que não se envolvesse na poeira da campanha e deixasse o destino bater-lhe à porta. Um verdadeiro campeão do desporto dir-lhe-ia o contrário: na política, como no futebol, faz a diferença quem assume o risco de talhar o seu destino.

Moedas sai do clássico disputado na capital como vencedor incontestado: as sumidades que lhe anteciparam o epitáfio deviam estar hoje no desemprego.

Tem pela frente um pesado caderno de encargos, numa autarquia que passou anos a gerir a capital como se fosse um parque temático para usufruto turístico. Uma Lisboa envelhecida e empobrecida, semeada de canteiros e ciclovias na frente ribeirinha enquanto se degradava nos bairros votados à indiferença pela beautiful people do Instagram. Uma cidade em que quatro freguesias do centro histórico perderam mais de oito mil residentes na última década.

Terá de ultrapassar inércias, bloqueios de todo o género, novas vozes a recomendar-lhe prudência. Fará bem em seguir a máxima de Guardiola: o maior risco é não arriscar. Nunca entrar em campo a jogar para o empate.

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