André Martins: a guerra na Ucrânia provoca estilhaços



O Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), fundado há 40 anos para ser muleta eleitoral do PCP, anda em maré de azar. No plano nacional e no plano autárquico. Primeiro foi riscado do mapa parlamentar, nas legislativas de 30 de Janeiro. Agora que tinha finalmente um presidente de câmara, eleito em Setembro na lista da CDU para liderar Setúbal, esta cidade torna-se notícia por maus motivos.

Em plena guerra provocada pela Rússia na Ucrânia, o autarca setubalense, André Martins, foi acusado de ter ao serviço do município, para acolher refugiados oriundos do país invadido, duas pessoas relacionadas com a potência invasora. A recepção de 160 ucranianos na cidade do Sado esteve a cargo de um casal suspeito de manter vínculos com o Kremlin: o russo Igor Khashin, antigo presidente da Casa da Rússia e do Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos em Portugal, e Yulia Khashin, funcionária da câmara setubalense e presidente da Associação dos Emigrantes de Leste (Edinstvo). Facto que legitimou protestos de organizações ucranianas, indignou a oposição camarária e logo transbordou para as notícias.

André Valente Martins, 68 anos, viu-se forçado a tomar três decisões simultâneas para conter maiores danos reputacionais. Retirou o casal russo do polémico processo de acolhimento aos ucranianos, revogou o protocolo de cooperação que a Câmara de Setúbal mantinha desde 2005 com a Edinstvo, à qual terá pago quase 90 mil euros nos últimos três anos, e nomeou, enfim, um encarregado de protecção de dados no município. Cumprindo - só quatro anos depois - a legislação existente desde Maio de 2018.

Questionado repetidas vezes pelos jornalistas, o autarca “verde” pouco ou nada esclareceu. Esta quarta-feira manteve o mutismo na reunião pública do executivo municipal, alegando que só esclarecerá tudo no âmbito da sindicância promovida pela Inspecção-Geral de Finanças, a pedido do Governo, e do inquérito em curso na Comissão Nacional de Protecção de Dados.

Ser-lhe-á difícil alegar desconhecimento, dada a sua ligação com mais de 20 anos ao município. Entre 2001 e 2017 foi vereador com vários pelouros (Ambiente, Turismo, Actividades Económicas, Urbanismo, Mobilidade Urbana). De 2007 a 2017 assumiu a vice-presidência, como braço-direito de Maria das Dores Meira, e nos quatro anos seguintes presidiu à Assembleia Municipal de Setúbal. Até substituir a comunista - eleito por 34% dos votos, sem maioria absoluta - nas últimas autárquicas.

“Juntos vamos continuar a fazer Mais Cidade e a construir Mais Setúbal. Agradeço o apoio e a amizade de Igor Khashin”, escreveu André Martins numa rede social a 12 de Maio de 2021, confirmando a forte ligação ao russo que imprevistamente projectou este licenciado em Sociologia, natural de Castelo Branco, para as manchetes de âmbito nacional. Eram bem mais tranquilos os tempos em que ia preenchendo a quota d’“Os Verdes” como deputado na Assembleia da República (1989-95), deputado municipal em Lisboa (1989-97) e deputado municipal na Guarda (1997-2001). Sempre à boleia do PCP.

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