Ana Abrunhosa: apoio demasiado familiar para a mais discreta ministra do Governo

Enfrentando apelos do Chega e da IL para que o seu agregado familiar escolhesse entre a devolução dos fundos e a saída do Governo, Abrunhosa contou com o respaldo de António Costa.



O embaraçado pedido de desculpas do vice-presidente do grupo parlamentar do PS, Pedro Delgado Alves, pela “forma infeliz” como a deputada Isabel Guerreiro solicitou que fosse apagada a gravação da interpelação de Carlos Guimarães Pinto a Ana Abrunhosa, durante a audição da governante na Comissão Parlamentar de Ordenamento do Território, não fez desaparecer mais um na sucessão de casos que envolvem o executivo socialista resultante da maioria absoluta obtida nas legislativas de 30 de Janeiro.

Claramente uma das mais discretas participantes nas reuniões do Conselho de Ministros, a titular da pasta da Coesão Territorial passou para as primeiras páginas e aberturas de telejornais por aquilo que o deputado da Iniciativa Liberal descreveu como “elefante na sala”. E que garantiu fama inadvertida e indesejável a Ana Abrunhosa desde que o Observador revelou que a Thermavelt, empresa detida a 40% pelo seu marido e criada duas semanas antes de candidatar a verbas numa área tutelada pela ministra, obteve fundos comunitários num montante de quase 200 mil euros.

Enfrentando apelos do Chega e da Iniciativa Liberal para que o seu agregado familiar escolhesse entre a devolução dos fundos e a saída do Governo, Abrunhosa contou com o respaldo de António Costa, tendo o primeiro-ministro garantido, no debate parlamentar de quinta-feira, que não há a registar “incumprimentos dos deveres de conduta por parte da ministra da Coesão Social”. A mesma que, segundo revelou aos deputados, o contactou há um ano, colocando o problema de um potencial conflito de interesses.

Com um parecer da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros - também muito presente no ciclo noticioso, ao ser alvo de buscas - e um segundo parecer do conselho consultivo da Procuradoria-Geral da República, a posição de Ana Abrunhosa ficou mais defendida. Mas não demasiado. Não só por o documento da PGR referir a “obscuridade da lei”, mas também porque, na véspera, durante a visita oficial à Califórnia, Marcelo Rebelo de Sousa contrariou a sua própria ressalva de que não gosta de comentar casos particulares, “muito menos aqui no estrangeiro”. E o Presidente da República disse que “primeiro há que apurar quem tomou decisões, como é que tomou decisões, e se há alguém com responsabilidades que beneficiou alguém próximo por parentesco ou outro tipo de ligação”.

Por seu lado, a economista de 52 anos, presidente da Comissão de Coordenação Regional do Centro até chegar ao Governo, em Outubro de 2019, não escondeu o quanto a situação a fragilizou. Comoveu-se durante os trabalhos da comissão parlamentar, após dizer que “é com a nossa almofada que fazemos contas”.

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