OCDE vê economia portuguesa a crescer menos em 2023 e projecta inflação acima da esperada pelo Governo

A OCDE está menos optimista do que estava em Junho e que o Governo de António Costa quanto à evolução da economia portuguesa em 2023. E deixa um recado: é importante manter a consolidação orçamental, mas também reforçar a formação dos trabalhadores, a bem da produtividade e dos salários.



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A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) está menos optimista do que estava em Junho quanto à evolução da economia portuguesa no próximo ano. Na edição divulgada esta terça-feira do Economic Outlook, a organização liderada por Mathias Cormann revê em baixa a projecção para o crescimento do produto interno bruto (PIB) nacional em 2023 e adianta que a inflação deverá ficar acima do anteriormente previsto, por efeito, nomeadamente, da guerra em curso na Ucrânia.

“Estima-se que o crescimento do PIB [de Portugal] deverá cair de 6,7% em 2022 para 1% em 2023 e 1,2% em 2024, com a guerra na Ucrânia, as disrupções nas cadeias de abastecimento, os preços da energia e a subida dos juros a pesarem na actividade”, escreve a OCDE, esta manhã.

Em Junho, essa mesma organização via o PIB português a crescer 5,4% em 2022 e 1,7% em 2023, o que significa que, entretanto, ficou mais optimista quanto a este ano, mas mais pessimista quanto ao próximo.

Aliás, quanto a 2022, a OCDE está mesmo mais confiante do que o governo de António Costa no desempenho da economia nacional, na medida em que este projecta que o PIB deverá crescer 6,5%.

De notar que tanto o Conselho das Finanças Públicas (CFP) como o Banco de Portugal (BdP) também apontam para uma subida de 6,7%, estando, portanto, também menos pessimistas do que Fernando Medina.

Já quanto ao próximo ano, o Executivo aponta para um crescimento de 1,3%. Ora, esta previsão tem sido vista como demasiado optimista por vários especialistas. Por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma subida de 0,7% e, agora, a OCDE antevê um crescimento de 1%, menos 0,7 pontos percentuais do que tinha projectado no Verão.

Essa revisão em baixa é explicada também, nota o relatório agora divulgado, pela desaceleração da economia global e pelo esmorecimento da recuperação do turismo e do consumo pós-pandemia, além dos factores já referidos.

A organização liderada por Mathias Cormann frisa, por outro lado, que a inflação deverá ser mais elevada do que inicialmente previsto.

Em Junho, a OCDE apontava para taxas de 6,3% em 2022 e 4% em 2023, mas, agora, reviu em alta estas projecções. “Os preços elevados da energia e dos bens alimentares empurrarão a inflação para 8,3% em 2022, antes de se moderar para 6,6% em 2023 e 2,4% em 2024%”, é sublinhado.

Em contraste, o governo de António Costa vê a inflação em 7,4% este ano e 4% em 2023, de acordo com a proposta de Orçamento do Estado para 2023.

A OCDE avisa ainda que os salários continuarão a crescer, uma vez que a taxa de desemprego deverá manter-se baixa, mas tal não será suficiente para proteger o poder de compra. Convém explicar que vários economistas já alertaram que será inevitável alguma perda a esse nível, apelando, em contrapartida, a medidas mais musculadas para proteger os portugueses em situações mais vulneráveis.

A propósito, no Economic Outlook diz-se que a política orçamental deverá tornar-se mais restritiva, nos próximos tempos, à medida que os apoios e transferências forem sendo retirados, gradualmente, em 2023, a bem da consolidação da dívida pública.

“Ainda que a subida da dívida pública desde 2019 tenha sido moderada face a outros países da OCDE, o seu elevado nível e o envelhecimento da população tornam a consolidação orçamental uma prioridade”, salienta a entidade, em linha com o que tem sido defendido pelo ministro das Finanças.

Já quanto ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a OCDE considera que esta ferramenta irá estimular o investimento público, mas reconhece riscos na sua implementação, no que diz respeito a atrasos.

“Assegurar a implementação eficiente e oportuna do PRR estimularia as infra-estruturas verdes, a eficiência energética e a capacidade de gerar energia renovável, ajudando a compensar a desaceleração da economia em 2023”, observa, assim, a organização em causa.

Medidas de apoio devem ser temporárias

No relatório divulgado esta manhã, a OCDE aproveita para deixar um recado a Portugal: as medidas de apoio face à crise energética devem continuar a ser temporárias e devem ser dirigidas de forma cada vez mais específica aos agregados vulneráveis.

Por outro lado, a organização salienta que o foco do Governo na consolidação orçamental deverá ajudar a limitar as subidas dos custos de financiamento, à medida que a política monetária europeia se normaliza. “Uma estratégia orçamental, a médio prazo, clara e credível deve também apoiar a credibilidade externa”, é enfatizado.

Por fim, a OCDE deixa um apelo ao reforço da educação e formação ao longo da vida. Objectivo? Estimular os salários e a produtividade, dois indicadores em que, historicamente, Portugal compara mal com os demais países.

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