“Já vivemos num mundo de robôs, as pessoas é que não se apercebem”

Que tipo de trabalho ficará reservado ao ser humano quando tudo estiver automatizado? Haverá perda de autoridade humana? Em entrevista ao NOVO, Rui Aguiar, professor catedrático na Universidade de Aveiro e investigador no Instituto de Telecomunicações, desvenda o que nos pode esperar no futuro.



A transição digital trouxe para o centro do debate conceitos como inteligência artificial, aprendizagem de máquina e 5G. Mas estas mudanças deixam uma questão: que tipo de trabalho ficará reservado ao ser humano quando quase tudo for automatizado? Em entrevista ao NOVO, publicada originalmente na edição que chegou às bancas esta sexta-feira, Rui Aguiar, professor catedrático na Universidade de Aveiro e investigador no Instituto de Telecomunicações, desvenda o que nos pode esperar no futuro.

O 5G é muito mais do que uma internet rápida. Como o definiria?
É a próxima geração de comunicações móveis. Podemos dizer que é possível olhar para ele como sendo uma internet muito mais rápida, mas é muito mais do que isso. O 5G não foi pensado para a população, foi pensado para as empresas. Deverá suportar serviços críticos e a internet das coisas de uma forma disseminada, deverá vulgarizar a internet das coisas. Isso não vai acontecer agora, é um processo que irá acontecendo entre os próximos cinco a oito anos.5G, inteligência artificial (IA) e aprendizagem de máquina são coisas que acabam por estar - em alguns aspectos - próximas, mas que são muito diferentes.

De que forma está ligado à inteligência artificial?
O 5G em si não tem a ver com a IA. O que acontece é que tudo isto de que estamos a falar se prende com a transição digital, que está ancorada num conjunto de técnicas, e essas técnicas reforçam-se. Eu não preciso de 5G para ter inteligência artificial, já tenho em muita coisa, hoje em dia. A IA é composta por sistemas que têm um comportamento que pode ser modificado com o tempo, são sistemas que agem de tal forma que nós diríamos que são inteligentes.

Quando se fala do crescimento da inteligência artificial há tendência para imaginar um mundo comandado por robôs. É disso que se trata?
Nós já vivemos num mundo de robôs, as pessoas é que não se apercebem porque eles não são humanóides. Bimby, Tesla, tudo isso são robôs, não têm é o formato humano. Compra no Ikea? De certeza que tem um prato em casa que foi feito sem intervenção humana. Portanto, já vivemos nesse mundo, os robôs já fazem imensas coisas. Os robôs humanos é que são muito mais complicados, por uma razão simples: a alimentação. O equilíbrio em duas patas é extraordinariamente difícil, mas já se faz. Agora, durante quanto tempo? Gasta muita energia.

Se não fosse uma questão de energia...
... isso já existia tudo.

O que podemos esperar daqui a cinco, dez, 20 anos?
Neste momento, muitas pessoas nem sequer se apercebem, mas podemos esperar que muitas das discussões de inteligência artificial sejam absolutamente triviais. Por exemplo, as transacções electrónicas no cartão de crédito já passam por um sistema de inteligência artificial para determinar se são transacções válidas. O que vai acontecer é que esses algoritmos vão tornar-se cada vez mais presentes na nossa vida. Por exemplo, uma coisa muito simples: compra coisas na Amazon? Diria que, nos Estados Unidos, as entregas da Amazon passarão a ser automatizadas. Nos próximos quatro, cinco anos, o que vai ter é um carrinho que faz entregas em casa.

Sem qualquer intervenção humana?
Sim. Isto é um exemplo concreto, simples e que é altamente visível. Nos Estados Unidos, porque depois há um conjunto de questões que se prendem com questões legais, autorizações, e isso é muito mais problemático. Todas estas questões vão levar a alterações em termos do que são as profissões e do que é empregável ou não.

O papel humano como factor mais importante da produção está destinado a reduzir-se?
Não necessariamente. Se tiver uma linha automatizada deixo de precisar de operários de linha, mas preciso de manutenção de equipamento, especialistas para instalar a fábrica, especialistas para manter a fábrica, especialistas que são capazes de olhar para o que a fábrica está a fazer e extrair mais lucro com aquele equipamento. Embora haja uma tendência para esta noção de que há menos necessidade de pessoas, o que claramente digo é que há uma necessidade de pessoas com outro tipo de competências - o que é diferente de dizer que haverá necessidade de menos pessoas. Porque, se tiver pessoas com essas competências, se calhar, em vez de uma fábrica tenho duas, porque tenho mais especialistas capazes de colocar as fábricas a funcionar. A necessidade de novas profissões é extraordinária.

As pessoas que não têm capacidade de prosseguir estudos - a quem os cargos referidos são geralmente atribuídos - serão as mais afectadas pela transição digital?
Depende. Falamos muito de engenheiros, mas existe uma necessidade muito grande de técnicos. Agora, que serão competências técnicas, isso é claro, que há áreas que vão sofrer muito... O jornalismo, por exemplo: neste momento há órgãos de comunicação nos quais 90% das notícias são reproduzidas quase automaticamente. Ou seja, o topo da hierarquia manteve-se, os estagiários é que começam a desaparecer, são automatizados.

Profissões como designers de moda, médicos e enfermeiros, por exemplo, podem ser substituídas por máquinas num espaço de cinco, dez anos?
Para cinco anos, a resposta é não a todas elas. Em dez anos... a resposta é complicada. Nenhuma dessas profissões é criativa. Compor como o Bach? Já há máquinas a fazer isso. O que é ser criativo? O que faz de uma pessoa uma pessoa? Está em coma, mantida artificialmente por máquinas: continua a ser uma pessoa ou está morta? Está em coma porque a coloquei artificialmente em coma: a resposta é a mesma? A partir de que momento é uma pessoa? Ou que acha que é uma pessoa inteligente ou capaz de realizar tarefas criativas?

Que tipo de trabalho ficará reservado ao ser humano quando tudo estiver automatizado?
Ficarão reservados ao ser humano os trabalhos que o ser humano quiser que fiquem. É tão simples quanto isto. Todos os trabalhos em que seja mais barato ter uma pessoa do que desenvolver um sistema para os mesmos vão continuar a existir. Há muitas profissões que dependem da recepção da sociedade humana, e a recepção da sociedade humana não é uma máquina, tem muitas peças, é influenciada por muita coisa: pelos fazedores de opinião, por a imprensa gostar ou não gostar, pela fotografia tirada no momento certo, pela falta de timing para o aparecimento de uma novidade... tudo isso vai estar sempre associado às pessoas.

Qual o sector português que está mais desenvolvido neste aspecto?
Todas as grandes empresas que são competitivas internacionalmente têm de estar a par dos seus equivalentes lá fora para poderem manter-se no mercado. Portugal, em muitos casos, já não está a competir pelo preço mais baixo, está a competir pela melhor relação preço-qualidade, e isso consegue-se usando as técnicas mais avançadas. Portugal não é um líder em termos de inovação, é um seguidor. Não é o país no qual aparece aquele conceito inovador, mas é o país no qual, a partir do momento em que alguém pensa no conceito de elevador, há empresas que pegam nesse conceito e o tornam um produto com impacto no mercado. De uma forma geral, as áreas em que somos razoavelmente competitivos são, provavelmente, as que estão mais avançadas.

Um cenário ao estilo do filme “Her”, em que ele se apaixona pela máquina, é possível?
Sim, tranquilamente. O primeiro uso dos humanóides vai ser para sexo. Já há uma indústria. Toda a componente mecânica ou de aparecimento mecânico já existe. Agora, o que é que eles fazem? Quase nada. Um robô que fica em casa e está normalmente carregado, tem uma inteligência artificial, porque vê os meus hábitos, sabe o que dizer ou adaptar-se em termos de conversa e que, além do mais, fornece outro tipo de serviços? É possível.

É algo possível daqui a dez anos?
Depende do nível de inteligência de que estivermos a falar. Em dez anos, acho economicamente difícil; em 20, em termos de evolução da tecnologia, sim.

Acha possível haver uma máquina que aja como se eu fosse a pessoa mais importante para ela?
Acho, e até é fácil. Este tipo de regra é do mais fácil de fazer. É muito mais fácil dizer “aconteça o que acontecer, não posso ser magoado” do que dizer “não vais matar [a pessoa] se ela te aborrecer” - isto falando de robôs humanóides, que não existem. Daqui a 20 anos, espero que um robô seja capaz de simular que é minha namorada. A questão da bateria é outra.

Chegados a esse ponto, haverá perda de autoridade humana?
A partir do momento em que até posso encomendar a minha namorada, diria que o ser humano até tem mais autoridade. Arriscamo-nos é a caminhar para uma sociedade com maior individualismo, na qual o que acontece é que todos impomos o nosso mundo.

*Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas esta sexta-feira, a 27 de Agosto de 2021

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