Inflação pode chegar aos 9,6%

Pior cenário pode suceder se a guerra na Ucrânia não terminar e o BCE não tomar as rédeas da política monetária. Apesar da incerteza, os economistas ouvidos pelo NOVO concordam que sem aumento dos salários haverá perda de poder de compra.



A metáfora da bola de cristal é usada para dizer que alguns conseguem prever o futuro ou até antever acontecimentos. No mundo das projecções económicas há várias instituições que estimam como crescerá a economia do país, qual a taxa de desemprego, como vão ser as importações e as exportações, e inclusive a taxa de inflação. Estes indicadores são calculados entre 2022 e 2027 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), pelo Banco de Portugal e pelo Banco Central Europeu (BCE), todas entidades credíveis, nacionais e internacionais, que costumam dar tiros certeiros nos indicadores e projecções que divulgam, mas os novos acontecimentos — guerra na Ucrânia, incerteza na China, com um novo surto de covid, aumento do custo dos cereais e da energia, escalada da inflação e dúvida sobre o que fará o BCE, entre outros — tornam a mira menos precisa.

Um dos indicadores em escalada acelerada é a inflação, com a subida generalizada e sustentada dos preços dos bens e serviços consumidos pelas famílias. Não é um aumento pontual, mas sim um acréscimo continuado ao longo do tempo. A inflação afecta a vida do consumidor porque, com o aumento dos preços, é preciso mais dinheiro para comprar os mesmos produtos e serviços. No cenário actual, a taxa de inflação é revista em alta de 4% para 5,9% em 2022. No entanto, este é um panorama que vai ter muitas oscilações, e o próprio Banco de Portugal admitiu, no Boletim de Junho, que a taxa de inflação terá de ser revista em alta, aumentando a projecção em cinco décimas, pelo que passaria a 6,4%, tendo em consideração as informações disponíveis a 17 de Maio. Porém, o índice de preços no consumidor (IPC) em Portugal chegou em Maio a 8%, mais oito décimas do que em Abril, sendo o mais elevado registado desde Fevereiro de 1993, segundo dados provisórios do Instituto Nacional de Estatística (INE). E o IPC de produtos energéticos ficou em 27,2% (mais cinco décimas do que em Abril), o “mais elevado desde Fevereiro de 1985”.

Será esta percentagem um presságio? Até onde pode escalar a inflação? João Duque, economista e professor do ISEG, pegou nos dados publicados pelo INE para a subida dos preços em Maio de 2022 e fez contas. A 3 de Junho partilhou no Facebook uma tabela, assumindo dois cenários extremos — um de descida de preços de 1% ao mês face ao mês anterior e outro de subida de 1% ao mês face ao mês anterior — e os valores que obteve são assustadores. “De momento, o cenário que se me afigura mais provável chuta a inflação para 7% ao ano”, escreveu. No cenário mais pessimista, Duque estima que a inflação poderá chegar aos 9,6% em Dezembro de 2022.

O professor do ISEG garante que ou acaba a guerra na Ucrânia ou haverá problemas, nomeadamente devido ao preço da energia, que contamina toda a economia. Na sua opinião, a Europa não tem fornecimento suficiente e vai colocar pressão nos preços. “As alterações são aprovadas pelos países vendedores — a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) —, que aumentaram a produção para 658 mil barris/dia, quando o consumo ronda os 80 milhões/dia. Por isso, 658 mil não é nada. Eles próprios estão interessados em preços altos”, diz.

Ricardo Arroja, economista e professor universitário, não tem dúvidas de que os preços vão continuar a subir. “A inflação será mais permanente do que temporária porque o BCE atrasou-se no seu controlo e não tem condições políticas para subir muito as taxas de juro nem para reduzir a compra de activos financeiros.” Na sua opinião, encontra-se numa armadilha de endividamento. Ao fim de dez anos, subiu as taxas directoras, após uma reunião extraordinária na sua sede, em Frankfurt. Os governadores decidiram aumentar as principais taxas de juro em 25 pontos-base, uma subida que acontecerá a partir de 21 de Julho. Depois, aumentará novamente em Setembro, em 50 pontos-base, caso a inflação continue a acelerar. A taxa indica o valor a que o BCE empresta dinheiro aos bancos, e esta notícia contaminou de imediato as Euribor — taxas a que os bancos emprestam dinheiro reciprocamente, utilizadas no crédito à habitação —, que subiram de imediato, após seis anos abaixo de zero.

As taxas que fizeram disparar o alarme foram as do mercado secundário e levaram à reunião do BCE. Itália superou os 4% e Portugal rondou os 3%. A realidade é que o tema da subida das taxas de juro já deixou Portugal à beira de um ataque de nervos. Em 2011, o Governo anunciou que se as taxas atingissem os 7% precisaríamos de um resgate — e precisámos. Foram tempos de austeridade, de apertar o cinto e da troika. Susana Peralta realça a pressão política devido à fragmentação da zona euro. “Há taxas de juro diferentes para as dívidas públicas de cada país da zona euro. A Reserva Federal não tem esse problema”, compara, dizendo que deveriam existir na comunidade europeia mecanismos de orçamentos comuns, fundos próprios e dívida comum. “Se o BCE parar de comprar dívida, o euro fica em perigo”, alerta a economista. E tudo indica que isso acontecerá a partir de 1 de Julho.

O economista António Nogueira Leite também realça o facto de o controlo da subida da inflação estar nas mãos do BCE. “Tudo isto está muito dependente das políticas monetárias e da não fragmentação da zona euro, nomeadamente os países muito endividados do sul, para que possam passar por esta nova conjuntura de uma forma menos onerosa.” Na sua opinião, esta inflação é duradoura. “A que nível vai estacionar? Depende do BCE. Se tirarmos alimentação e energia, que continuam a subir, a inflação subjacente, a core inflation, está mais alta do que na última década e, se tal continuar, devemos esperar uma subida continuada dos preços”, explica, avisando que quem vive de rendimentos fixos vai tendo perda real na capacidade de comprar bens e serviços. Este efeito tenderá a prejudicar sobretudo as famílias com rendimentos mais baixos.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, garantiu num comunicado que a “inflação está indesejavelmente alta e deverá continuar acima da meta durante algum tempo, pelo que a instituição decidiu dar os primeiros passos na normalização da política monetária”, deixando uma promessa: “Garantimos que a inflação regressará à meta de 2% no médio prazo, estando preparados para ajustar todos os instrumentos no mandato, incorporando flexibilidade, se necessário.”

Quem mais sofre?

Segundo o relatório anual “Portugal, Balanço Social”, projecto da Iniciativa para a Equidade Social, que é uma parceria entre a Fundação La Caixa, o BPI e a Nova SBE, o peso das despesas essenciais no total da despesa é maior quanto mais pobre for a família. “Os produtos alimentares têm um peso de 19,2% na despesa das famílias mais pobres, e de 11% nas mais ricas.”

Os mais pobres têm despesa superior ao rendimento, pelo que não têm margem para acomodar a inflação. O mesmo estudo revela ainda que as famílias mais pobres gastam, em valor absoluto, menos do que as mais ricas em todas as categorias de despesa. Os números falam por si. O peso das despesas em pão, cereais e carne é 1,3 vezes superior nas famílias mais pobres. Estes bens representam mais de 5% do total da despesa das famílias de rendimento equivalente muito baixo, ou seja, abaixo de 5 mil euros anuais. A renda de casa na despesa das famílias mais pobres é 6,9 vezes superior ao peso que tem nas mais ricas. Nas famílias de muito baixo rendimento equivalente (abaixo dos 5 mil euros), os gastos com electricidade e gás representam entre 10% e 12% da despesa total, com um peso 1,6 vezes superior ao das famílias com maior rendimento.

“A transferência monetária que permite às famílias dos indivíduos que se contam entre os 20% mais pobres de Portugal manterem o seu nível de consumo médio em face de uma taxa de inflação de 6% em 2022 é de 474 euros por ano: 138 euros para alimentação, 253 euros para habitação (incluindo gás e electricidade) e 83 euros para transportes. A despesa total associada seria de 400 milhões de euros e permite compensar totalmente a inflação apenas entre 56% e 69% destas famílias”, diz o mesmo relatório, que conclui: “Este montante é conservador, porque não garante que as famílias satisfaçam as suas necessidades básicas.” A realidade é que se os salários nacionais não subirem, todos os portugueses vão perder poder de compra, apesar de uns sentirem mais na carteira do que outros.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está esta sexta-feira, dia 24 de Junho, nas bancas.

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