Evergrande: Um pesadelo que Pequim tem de resolver para evitar crise mundial

A crise com este colapso iminente tem potencial para criar uma crise mundial. Pequim tem tudo para o evitar, enquanto altera o modelo de crescimento económico da China.



Há dois anos, a Evergrande era a empresa de imobiliário mais valiosa em todo o mundo e, no ano passado, a capitalização bolsista superou os 40 mil milhões de dólares. Agora, é a líder num indicador bem desfavorável: companhia do sector com o maior volume de dívida. Na bolsa, o seu valor caiu a pique, para menos de 4 mil milhões de dólares.

Explicar a queda vertiginosa deste gigante chinês é bem mais fácil do que antecipar quais serão as consequências da sua potencial falência. Sobretudo porque o desfecho desta crise está ainda rodeado de uma grande incerteza.

Há, contudo, várias conclusões que já se podem tirar com um grau de certeza elevado. O colapso da Evergrande não terá efeitos globais semelhantes ao que aconteceu em 2008 na falência do Lehman Brothers; Pequim não vai salvar a Evergrande, mas tudo fará para conter os danos e contágios do seu colapso; a queda da empresa será um marco na alteração do modelo económico chinês, até aqui muito dependente do imobiliário/construção.

Os impactos desta crise podem ser divididos em três áreas: mercados, banca e economia (estando os dois primeiros muito ligados entre si). A Evergrande saltou para o topo das preocupações nos mercados financeiros nos últimos dias, depois da empresa ter reconhecido que não estava em condições de pagar a todos os credores. Como em todas as crises, foi nos mercados que o impacto se sentiu primeiro e de forma mais intensa, contribuindo para agravar a desvalorização dos mercados accionistas (que já viviam um Setembro negativo). Na passada segunda-feira soaram os alarmes e as bolsas sofreram fortes perdas em todo o mundo. Mas recuperaram desde então, sobretudo porque cresceu a convicção de que este não será o “momento Lehman” da China e que Pequim, apesar do silêncio, terá a situação controlada.

Os momentos de stress nos mercados com a Evergrande deverão repetir-se, até porque a empresa tem agendado para esta quinta-feira o pagamento de juros de uma obrigação em dólares. Não o fez até agora, mas só entrará em default se o atraso superar os 30 dias. Em caso de incumprimento, o impacto da crise chegará à banca mundial, que terá de reconhecer nas contas as perdas com os créditos concedidos à empresa. Os efeitos na economia demorarão mais tempo a chegar, mas serão os mais relevantes e duradouros, sobretudo no modelo de desenvolvimento da segunda maior economia do mundo.

Como se chegou até aqui

Vítima do seu sucesso, a Evergrande cavalgou a urbanização acelerada da China nos últimos anos. Se no final do século passado apenas um terço da população do país vivia em cidades, o peso é agora de dois terços, o que se traduz no fluxo para as cidades de 480 milhões de pessoas em 20 anos. O “boom” no imobiliário foi incontornável, mas atingiu proporções inimagináveis. Um estudo, citado pelo Financial Times, dá conta que existem 90 milhões de habitações vazias na China, o que seria suficiente para albergar a população inteira de países como a Alemanha, França, ou Reino Unido.

Já todos vimos imagens de cidades inteiras construídas de raiz na China sem um único morador. A Evergrande construiu dezenas de cidades desertas, milhares de prédios que estão vazios e tem 1,5 mil milhões de proprietários à espera que a empresa termine a construção das suas habitações.

O crescimento descontrolado da Evergrande foi feito à custa de endividamento, que já supera os 300 mil milhões de dólares. Se o passivo é astronómico, do lado do ativo estão 202 mil milhões de dólares de projetos imobiliários ainda por terminar.

A Evergrande já está a falhar os compromissos financeiros com fornecedores e trabalhadores e mesmo que consiga cumprir os próximos pagamentos de juros aos credores internacionais, salta à vista que é uma empresa sem futuro. Acresce que diversificou para áreas tão diversas como automóveis elétricos e venda de produtos financeiros. Aliciados por juros elevados e brindes como malas da Gucci, cerca de 80 mil chineses compraram produtos financeiros à Evergrande e desesperam agora por ver o dinheiro devolvido. O chairman e fundador da empresa, que nasceu pobre e já chegou a ser o segundo homem mais rico da China, tentou passar uma mensagem de tranquilidade esta quarta-feira. Anunciou que deu ordens para que as habitações sejam concluídas e entregues aos clientes que as compraram e que sejam honrados os compromissos financeiros com os clientes de retalho.

A gestão da Evergrande tem culpa por estar à beira do colapso financeiro, mas Pequim tem também uma elevada responsabilidade nesta crise. Foi o Partido Comunista Chinês que instou a criação de mega-cidades no país e deu ordens para inundar o mercado de crédito barato de modo que a que os chineses conseguissem comprar a sua própria habitação. O sobreaquecimento foi detetado há vários anos – no final de 2016 Xi Jinping disse a célebre frase: “As casas são para viver, não para especular” – mas Pequim pouco fez para travar o crescimento do setor e o agravamento dos preços das casas. Atualmente, cerca de 40% da riqueza dos chineses está concentrada no setor imobiliário, pelo que um colapso da Evergrande terá consequências inevitáveis na economia doméstica.

Um problema (sobretudo) chinês

O crescimento acentuado da economia chinesa - mais de 10% ao ano na primeira década do século e acima de 7% na última década - tem estado muito assente no imobiliário e na construção, setores que têm já um peso de 29% no PIB daquela que é a segunda maior economia do mundo. Esta crise da Evergrande, qualquer que seja o seu desfecho, é uma evidência para Pequim que tem de alterar o modelo económico do país, até aqui muito assente na construção e na indústria pesada e tradicional.

Se o abalo mais forte será sentido na China, a economia mundial não ficará imune a esta turbulência. Desde logo porque o país tem sido o grande motor da economia mundial nos últimos anos (responsável por 28% no crescimento do PIB mundial entre 2013 e 2018). Além do impacto que pode ser sentido via mercados e banca, é cada vez maior o número de empresas mundiais fortemente dependentes do mercado interno chinês (sobretudo europeias e norte-americanas). Uma travagem forte da economia chinesa terá sempre consequências na atividade económica global, embora os analistas estejam a desvalorizar a dimensão deste potencial abalo.

O grau de contágio à economia mundial vai depender muito da forma como Pequim vai lidar com o pesadelo Evergrande. Um resgate parece posto de parte, mas Xi Jinping tem o setor privado nas mãos e, por isso, muitas ferramentas disponíveis para viabilizar uma implosão controlada da Evergrande. Preocupado com o elevado endividamento de famílias e empresas, nos últimos meses o presidente chinês têm apertado o cerco regulatório a várias empresas chinesas, com destaque para a Alibaba de Jack Ma e outras gigantes tecnológicas do país.

Apesar do default provável da Evergrande, o cenário central perspetivado pelos analistas aponta para uma reestruturação financeira que passe pelo alargamento dos prazos de pagamento aos bancos, pela entrega de habitações a outros credores em vez de dinheiro e pelo corte da dívida pelos detentores de obrigações. Um desfecho que não criaria stress nos mercados e na banca e que iria permitir a Pequim deixar a economia reduzir a dependência do imobiliário de forma ordeira. Dando mais tempo para a urgência de alterar o modelo de crescimento económico do país.

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