“É essencial que o debate sobre riscos climáticos seja uma prioridade” apesar da preocupação com a inflação e o custo de vida

Na sequência de um estudo sobre as maiores preocupações dos líderes empresariais do G20, o chief risk officer da Zurich Portugal disse ao NOVO que “as metas climáticas têm de estar na ordem do dia” e que a crise energética “é um desafio”, mas também pode representar “um sinal de esperança” para a transição energética.



Os dados revelados no Executive Opinion Survey deste ano, recentemente divulgado, demonstraram que as principais preocupações dos líderes empresariais do G20 são o impacto da inflação, as crises de dívida e o aumento do custo de vida, sendo encarados como as maiores ameaças à realização de negócios nos próximos dois anos. Em sentido oposto, os riscos ambientais e cibernéticos são menos valorizados.

O NOVO falou com Edgar Lopes, chief risk officer da Zurich Portugal, que analisou as conclusões deste estudo elaborado pelo Centro do Fórum Económico Mundial para a Nova Economia e Sociedade, do qual a seguradora é parceira. O responsável teve em conta o impacto que a menor valorização dos riscos ambientais por parte dos líderes empresariais pode ter na concretização das metas climáticas.

“Temos de reconhecer que é um desafio adicional. As metas climáticas têm de estar na ordem do dia porque, quando falamos de sustentabilidade, estamos acima de tudo a falar do presente e do futuro das pessoas, das famílias, das organizações, dos governos e, obviamente, das gerações futuras. Mas também é importante sermos um pouco compreensivos, já que 2022 nos trouxe mudanças muito concretas do actual contexto geopolítico e económico, e com impacto muito directo na vida das pessoas e das famílias no seu dia. É natural que os aumentos do custo de vida, das despesas energéticas e da inflação em geral assumam um grau maior de preocupação imediata para os empresários”, considerou Edgar Lopes, defendendo, contudo, a importância que as questões climáticas têm. “É essencial que o debate em torno dos riscos climáticos seja uma prioridade, com vista a trabalhar em soluções que tenham um impacto real no nosso futuro, que se quer próspero.”

Se é verdade que, actualmente, o mundo, principalmente a Europa, também enfrenta o desafio da crise energética, também é igualmente verdade que esse desafio pode ser visto como uma oportunidade no âmbito da transição para as energias verdes.

“Esse é um dos paradoxos que o actual momento suscita. Por um lado, os indicadores sugerem que, no curto prazo, muitos países estão a dar menos prioridade aos seus planos de transição energética, o que pode impactar os objectivos definidos de limitar o aquecimento global a menos de 1,5 °C até 2050. Com o impacto da invasão da Rússia na Ucrânia, percebemos que os combustíveis fósseis que estavam em desuso, como o carvão, tiveram de ganhar novo relevo. Isto é um desafio mas, por outro lado, o actual momento pode dar também um sinal de esperança, ainda que ténue, a médio e longo prazo”, argumentou o chief risk officer da Zurich Portugal.

“Ao repensar a transição energética, os países podem colocar em cima da balança a importância da independência energética e o papel que as energias renováveis podem ter na descarbonização”, acrescentou.

Questionado sobre a menor valorização atribuída pelos líderes empresariais do G20 relativamente aos riscos cibernéticos, Edgar Lopes salientou que estes também deveriam ser uma preocupação mais premente. “O actual contexto geopolítico comprova o quanto a cibersegurança deve estar na ordem do dia. Num mundo em que os negócios e mesmo o nosso dia-a-dia dependem cada vez mais do mundo digital, temos de ter bem presente a noção de que os riscos cibernéticos são já parte da nossa realidade, e que a tendência futura é que se acentuem e se tornem cada vez mais complexos”.

Os riscos em Portugal

Como indica o Executive Opinion Survey, os empresários portugueses apontaram como top-5 dos riscos de fazer negócios nos próximos dois anos a inflação rápida e ou sustentada, a crise do custo de vida, as crises da dívida, os choques graves ou a volatilidade dos preços dos produtos e matérias-primas (ex: energia, alimentos, metais), e a estagnação económica prolongada, por esta ordem.

“São riscos que impactam fortemente as empresas e as famílias já que se reflectem no aumento generalizado dos produtos do nosso dia-a-dia”, frisou Edgar Lopes ao analisar os principais riscos assinalados pelos empresários portugueses.

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