Descobertos 260 milhões do BESA em 15 offshores de Álvaro Sobrinho

Numa altura em que Rui Pinto diz ter informações sobre os fundos alegadamente desviados do BES Angola, o NOVO acedeu a documentos bancários suíços e desvenda o paradeiro de milhões que voaram do banco angolano.



Onde pára o dinheiro do BES Angola (BESA)? Parte da resposta a esta pergunta está em documentos bancários guardados na Suíça e aos quais o NOVO teve acesso: mais de 260 milhões de euros com origem em duas contas do BESA terão saído directamente para 15 sociedades registadas no Luxemburgo e em paraísos fiscais como o Panamá, as Ilhas Seicheles e as Ilhas Virgens Britânicas. E o que têm todas estas sociedades em comum? O verdadeiro beneficiário destas empresas será Álvaro Sobrinho, ex-presidente daquele banco angolano.

Numa altura em que a ida de Rui Pinto à comissão de inquérito parlamentar do Novo Banco ainda gera discórdia e em que o autor do Football Leaks e fonte do Luanda Leaks insiste ter em sua posse informações importantes sobre o paradeiro do dinheiro alegadamente desviado do BESA - documentos sobre a “criação de empresas meramente instrumentais, depósitos fictícios e transferências bancárias para offshores como as Ilhas Virgens Britânicas e as Seicheles” -, o NOVO revela uma grande parte desse circuito financeiro, tendo por base extractos bancários, contratos de abertura de conta e registos de constituição de empresas.

Essas informações estão a ser analisadas no processo judicial em que Sobrinho é suspeito de burla, falsificação e branqueamento de capitais por alegadamente ter desviado dinheiro do BESA para o seu património e por ter “lavado” esse dinheiro na compra de barcos, apartamentos e até na aquisição da sua participação accionista na SAD do Sporting.

Sobrinho começou a ser investigado em Portugal em 2011, devido à compra de uns apartamentos no Estoril Sol Residence, um luxuoso condomínio situado na marginal que liga Lisboa a Cascais. Mas o processo só ganhou fôlego a partir de 2014, na sequência das investigações à queda do Banco Espírito Santo.

Os dados mais sumarentos foram enviados ao processo pelo Ministério Público de Lausanne, depois de as autoridades suíças terem levantado o sigilo bancário de Álvaro Sobrinho, que também está a ser investigado naquele país. De uma assentada só chegaram ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) dados sobre 36 sociedades e mais de 40 contas bancárias que estão a ser passados a pente fino pela procuradora Rita Madeira. Seguiram-se muitos outros.

Em 15 desses casos, o Ministério Público já terá conseguido confirmar que o beneficiário efectivo é o ex-presidente do BESA. De acordo com as informações a que o NOVO acedeu, a maior fatia destes 260 milhões de euros teve como destino duas contas da Grunberg Investments, uma na UBS e outra no Crédit Suisse. Entre 2007 e 2012, estas contas bancárias terão recebido 52,6 milhões de euros (divididos em 32 transferências) e 48,5 milhões de dólares com origem no BES Angola.

A Pineview Overseas, registada no Panamá, é a segunda maior beneficiária, com o equivalente a cerca de 43,4 milhões de euros. Seguem-se a Newbrook, com 17,7 milhões de euros e 8 milhões de dólares, e a Oralcom, registada nas Ilhas Seicheles, que entre 2009 e 2012 terá recebido 21,5 milhões de euros do BESA.

Mas a lista de entidades alegadamente ligadas a Sobrinho e que terão recebido dinheiro do banco do qual foi afastado em 2013 não fica completa sem sociedades ainda praticamente desconhecidas, como a Sherio, a Supino, a Jayhill, a Ulys ou a White Ceder, registadas nas Ilhas Virgens Britânicas; a luxemburguesa World Property; a Garrylake, fundada no Panamá; ou a Goya, a Zenal, a Rumbla e a Vamaserra, localizadas nas Seicheles. Esta última também terá como beneficiários efectivos os dois irmãos do empresário.

As (não) confissões

Álvaro Sobrinho - que não respondeu às tentativas de contacto do NOVO - está a ser investigado em Portugal em várias frentes. Foi alvo de buscas no processo Monte Branco por ser um dos clientes da Akoya, a sociedade suíça gestora de fortunas que está no centro de uma enorme rede de fuga ao fisco; é suspeito de branquear capitais alegadamente desviados do BESA; e é ainda um dos visados num novo inquérito que teve origem em provas obtidas por Rui Pinto durante os seus ataques informáticos.

O matemático que Ricardo Salgado escolheu para liderar o BESA está desde 2013 sob suspeita de ter desviado milhões do BES Angola. Em Outubro desse ano foi chamado a duas assembleias-gerais para ser confrontado sobre os créditos alegadamente atribuídos sem garantias e a beneficiários desconhecidos. Segundo Rui Guerra, que substituiu Álvaro Sobrinho na liderança do banco, havia à data 2 mil milhões de dólares de incumprimento na carteira de crédito do BESA.

Encostado à parede pelos accionistas, Sobrinho quase nada esclareceu. Até hoje, nunca admitiu ter beneficiado de verbas do banco.

Agora, os dados enviados da Suíça para Portugal trazem outra luz a esta história. A Govest, por exemplo, é uma das entidades que terão ordenado transferências para Sobrinho. O Ministério Público descobriu um documento em que o ex-líder do BESA assume a uma gestora de conta ter uma ligação directa com essa sociedade.

Rui Guerra, que foi ouvido duas vezes no DCIAP, contou que terá tentado abordar Sobrinho para obter informações sobre a carteira de crédito do BESA, mas o matemático terá dito que só o faria à frente dos accionistas.

Mais tarde, nessas reuniões, Sobrinho terá indicado cinco pessoas como beneficiárias das sociedades que receberam estes empréstimos. Gilberto Gonçalves, por exemplo, foi apresentado como sendo o beneficiário efectivo da Govest. A explicação, segundo Guerra, não terá convencido ninguém, já que os visados não tinham “qualquer histórico, relacionamento bancário, ou notoriedade pública que justificassem os fluxos de dinheiro emprestados pelo BESA em nome das mesmas”.

Além disso, contou, todos os nomes enumerados pelo ex-presidente do BESA terão sido contactados e terão negado serem os verdadeiros beneficiários. Gilberto Gonçalves contaria depois no Ministério Público que era amigo de Sobrinho e dos seus irmãos e que apenas era chamado a assinar documentos.

Questionado sobre o que sabia sobre os negócios da família de Sobrinho, Rui Guerra disse ter ouvido dizer que estavam ligados ao ramo imobiliário, alimentar e de “intermediação de venda” de barcos de luxo. Também Rui Pinto já usou o Twitter para associar Sobrinho a barcos. “Será que Álvaro Sobrinho já se cansou do brinquedo que adquiriu com fundos alegadamente desviados do BESA?”, perguntava num tweet que ligava a um exuberante iate.

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