Bolsa de Lisboa é controlada por apenas 22 investidores

A estrutura accionista das empresas cotadas na Euronext Lisboa continua a ser concentrada em muito poucos investidores, criando um grupo restrito de duas dezenas de poderosos onde sobressaem as famílias Soares dos Santos, Amorim, Queiroz Pereira e o capital chinês.



Há 125 investidores com participações qualificadas nas 38 empresas cotadas na Euronext Lisboa, isto é, com pelo menos 2% dos direitos de voto nessas sociedades. Juntando-se aos milhares de pequenos investidores espalhados pelos quatro cantos do globo que aplicam as suas poupanças na bolsa portuguesa, seria o suficiente para o mercado funcionar de forma transparente e eficaz. Porém, o quadro é outro. Apenas 18% destes grandes investidores controla dois terços das sociedades com capital disperso em bolsa.

O grupo de poderosos da praça financeira nacional é feito de 22 individualidades que, directa ou indirectamente, controlam mais de 50% do capital de 24 empresas cotadas na Euronext Lisboa. É disso exemplo a Sonaecom, que tem 88% do seu capital nas mãos da família Azevedo, através de empresas do grupo Sonae, a Corticeira Amorim, que é detida em 71% pela família Amorim, por via de três holdings, e da Semapa, que tem 82% do seu capital sob a alçada da Sodim, a holding da família Queiroz Pereira.

Salvo raras excepções (como os CTT e a EDP), a estrutura accionista da maior parte das empresas é concentrada em muito poucos investidores com posições dominantes. A Navigator (ex-Portucel), que tem actualmente uma capitalização bolsista de 2,3 mil milhões de euros, que a torna a quinta maior empresa da bolsa portuguesa, conta com apenas um investidor qualificado (Semapa), que detém 69% do capital da papeleira.

O controlo das empresas cotadas na Euronext Lisboa por parte de poucos não é uma realidade nova na praça portuguesa. É assim desde há muito. Em 2007, por exemplo, numa altura em que Ricardo Salgado era o todo-poderoso da economia, tendo sob o seu domínio mais de 5,3 mil milhões de euros repartidos por participações em sete empresas (BES, Espírito Santo Financial Group, Portugal Telecom, EDP, PT Multimédia, Novabase e Semapa), menos de um quinto dos grandes investidores da praça nacional mandavam efectivamente em metade das empresas dispersas em bolsa. Nada se alterou nesta matéria nos últimos 14 anos. Porém, com excepção da contínua concentração do poder accionista nas empresas, praticamente tudo o resto mudou na bolsa portuguesa. A começar pela nacionalidade dos principais protagonistas.

Poder chinês em Portugal

No decorrer da última década, o investimento chinês em Portugal ganhou enorme expressão. O ponto de viragem deu-se em meados de 2011 com a aplicação do Programa de Assistência Económica e Financeira da troika, que incluía uma forte política de privatizações. Para os chineses, esta imposição das autoridades europeias (Banco Central Europeu e Comissão Europeia) e do Fundo Monetário Internacional funcionou como uma porta de entrada para o mercado nacional e uma janela aberta para a Europa.

A China Three Gorges (CTG) foi a primeira e, até agora, a maior lança de Pequim por terras lusas: a empresa que é propriedade da República Popular da China é, desde há dez anos, o maior investidor estrangeiro da praça portuguesa graças a um investimento milionário realizado em 2011 na EdP - Energias de Portugal.

A relação entre a CTG e a eléctrica nacional remonta a Dezembro de 2011 quando venceu a corrida do último processo de privatização da EdP. Na altura, ficaram para trás os brasileiros da Eletrobras e da Cemig, e a alemã E.On. O cheque passado ao Estado português ascendeu a 2,69 mil milhões de euros, incorporando um prémio de 53,6% em relação ao preço de mercado das acções da EDP a 21 de Dezembro (dia anterior ao comunicado do conselho de ministros com informação da escolha da CTG pelo Governo). Em troca, a CTG passou a controlar 21,35% do capital da eléctrica, então liderada por António Mexia, com a possibilidade de comprar os restantes 4% do capital então detido pelo Estado.

Desde então, muita água correu. O ponto mais alto do relacionamento entre as duas empresas remonta a 11 de Maio de 2018 com o lançamento de uma dupla Oferta Pública de Aquisição (OPA) da CTG sobre a EDP e sobre as acções da EDP Renováveis. As duas ofertas totalizavam mais de dez mil milhões de euros se todas as acções não detidas pelos chineses fossem adquiridas. Na altura, a CTG era dona de 25,15% do capital da EDP.

Apesar da demora na tomada de posição em relação à OPA por parte da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a operação acabou por não chegar a bom porto, com os accionistas da eléctrica a vetarem, a 24 Abril de 2019, em assembleia geral, a mudança de estatutos da empresa que permitiria aos maiores accionistas da EDP votar com mais de 25% dos votos - condição crucial para a realização da operação. Com o fim da OPA, a CTG não cortou a ligação com a EDP, mas tem vindo a reduzir a sua participação na eléctrica, apesar de se manter como principal investidor.

A CTG tem uma posição de 19,03% no capital da EDP, que está avaliada, a preços de mercado, em 3,6 mil milhões de euros. Mas o seu domínio na Euronext Lisboa não se fica por aqui. Cresce até aos 6,7 mil milhões de euros por via de uma posição de controlo de 75% da EDP na EDP Renováveis (actualmente a empresa mais valiosa da bolsa) e da titularidade de 2,09% do capital do BCP por parte da eléctrica.

Se no campo estratégico as coisas podem não ter corrido bem para os chineses da CTG, no plano financeiro não se podem queixar. Nos dez anos em que os chineses têm feito parte da estrutura accionista da EDP, as acções da eléctrica valorizaram 40% e geraram para os cofres da empresa controlada pelo Estado chinês 1,65 mil milhões de euros em dividendos e 827 milhões de euros em venda de acções. Significa que, só contando com dividendos e com a venda intercalar de acções, a CTG já recuperou 92% do investimento inicial realizado.

O interesse do capital chinês na bolsa nacional, em particular na EDP, é um namoro antigo. Além da CTG, a eléctrica chegou a ter na sua estrutura accionista os chineses da CNIC, através da participada Orise. Começaram a construir uma posição qualificada em 2017, que chegou aos 4,98% do capital em 2019. Mas a posição da CNIC foi-se diluindo, como resultado do falhanço do lançamento da OPA sobre a EDP por parte da CTG. Actualmente, a CNIC já não faz parte dos accionistas de referência da EDP.

No sector eléctrico, há ainda a destacar uma forte presença de capital chinês na Redes Energéticas Nacionais (REN), através de uma participação de 25% da State Grid of China e de 5,3% da Fosun. Ambas as posições foram construídas no seguimento de processos de privatização da empresa. A primeira, em 2012, quando o Estado vendeu 40% do capital da REN, tendo sido entregue 25% à State Grid of China por 387 milhões de euros (até à data, já recuperou 65% deste investimento, só com os dividendos que recebeu desde 2012). Dois anos depois, em 2014, como resultado da última fase de privatização da empresa, o Estado desfez-se de 11% do capital que ainda detinha na REN, entregando 3,9% dessa posição à seguradora Fidelidade, que é detida pela Fosun. Actualmente, a Fosun controla 5,3% do capital da REN e a State Grid of China mantém a posição de 25%.

O quinteto de investidores chineses na bolsa portuguesa é completado com a Finansol, uma sociedade controlada pelo empresário chinês Stanley Ho que detém uma posição de 57,8% na Estoril-Sol, e ainda com a China Communications Construction, a quarta maior construtora mundial, que em Maio comprou 23% da Mota-Engil à MGP - Mota Gestão e Participações, holding que agrega as posições da família Mota na Mota-Engil, por 169,4 milhões de euros. Hoje, a posição da CCCC ascende a 32,4% do capital da construtora de António Mota.

Os portugueses ainda mandam

A bolsa portuguesa tem investidores com posições qualificadas de 16 nacionalidades. A essas ainda se juntam os fundos de investimento e os pequenos investidores.

Os chineses são os principais investidores estrangeiros, seguidos dos norte-americanos e dos angolanos. Mas são os investidores portugueses que continuam a dominar, com destaque para as famílias Soares dos Santos, Amorim e Queiroz Pereira que, em conjunto, têm sob o seu domínio mais de 11 mil milhões de euros, o equivalente a 15,5% da capitalização bolsista do principal índice accionista da Euronext Lisboa (PSI 20). A família Soares dos Santos é, inclusive, o maior investidor da praça portuguesa, graças a uma posição de 56% no capital da Jerónimo Martins.

Os últimos relatórios e contas das 38 empresas cotadas na Euronext Lisboa mostram que o peso do capital nacional é duas vezes superior ao do capital estrangeiro. Mas isso não significa que os investidores estrangeiros estejam a retrair-se. Pelo contrário. A gestora de património norte-americana BlackRock tem-se mostrado bastante activa, detendo participações, directas e indirectas, em seis empresas, as quais lhe conferem um domínio empresarial de quase três mil milhões de euros na praça portuguesa. Com igual interesse está o fundo soberano da Noruega, o Norges Bank. Só no final do ano passado detinha investimentos accionistas em 17 empresas da Euronext Lisboa, no valor global de mil milhões de euros. Este ano, os seus investimentos por terras lusas cifram-se em 1,2 mil milhões de euros.

Os accionistas, grandes ou pequenos, têm uma coisa em comum: querem ganhar dinheiro, seja no presente ou no futuro. A bolsa nacional, sobretudo com as maiores empresas, tem o chamariz de pagar bons dividendos e isso tem atraído muitos investidores institucionais. Mas tem também servido como palco para estreitar relações diplomáticas e geoestratégicas. São disso exemplo as participações de empresas chinesas na EDP e na REN, os investimentos angolanos na Galp e na NOS, do Catar na EDP e do Estado de Omã na REN.

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