Tóquio 2020, os Jogos da saúde mental, dos direitos LGBTQI+ e da maternidade

Simone Biles, Tom Daley ou Valerie Adams foram protagonistas dos Jogos Olímpicos, a decorrer no Japão, não apenas pelas conquistas desportivas. Como nunca antes, direitos humanos, problemas psicológicos e amamentação foram debatidos graças ao desporto. Há medalhas que vão além dos três lugares mais altos do pódio.

Simone Biles subiu ao pódio para receber a sua sétima medalha olímpica: a ginasta norte-americana, para muitos a melhor de sempre na modalidade, conquistou o bronze na prova de trave nos Jogos Olímpicos de Tóquio com um exercício mais conservador do que é habitual no seu programa. O brilho nos olhos e o sorriso, porém, não enganavam e demonstravam que esta medalha vale tanto como os quatro ouros conquistados ao longo do seu percurso olímpico (que conta também com uma prata e agora dois terceiros lugares). A prova de terça-feira foi o encerrar de uma participação dos JO que foi além dos praticáveis . Tal como em muitos exercícios que apresenta, Biles foi disruptiva e, em pleno pavilhão durante a prova por equipas, assumiu que não se encontrava em condições psicológicas para competir. Tudo depois de um comunicado norte-americano pouco explícito sobre os motivos que tinham levado a atleta a ser substituída - a federação anunciou que a ginasta abandonara a prova por “questões médicas” após ter falhado o exercício no cavalo.

A verdade surgiu em declarações da própria. “Estou apenas a lidar interiormente com coisas que serão resolvidas nos próximos dias. Sempre que estás numa situação de stresse elevado, de certa forma ‘passas-te’. Tenho de me concentrar na minha saúde mental e não pôr em risco o meu bem-estar. Temos de proteger o nosso corpo e a nossa mente. É uma merda quando se luta contra a própria cabeça”, explicou Biles, logo após a prova por equipas, em declarações aos jornalistas. Com esta atitude, colocou a saúde mental dos atletas como um dos temas mais falados desta edição dos Jogos. A super ginasta das 31 medalhas entre torneios olímpicos e campeonatos do mundo e com uma história de vida difícil - o pai nunca foi figura presente, a mãe teve problemas com álcool e Simone e os irmãos chegaram a passar fome e foi uma das mais de 500 ginastas abusadas pelo médico Larry Nassar - agigantava-se ainda mais ao defender o bem-estar das cerca de 11 mil pessoas que entram na maior competição desportiva do mundo debaixo de grande pressão.

Biles não é caso único, apesar do seu mediatismo ter dado uma exposição global à decisão que tomou. Em Janeiro deste ano, o ciclista Tom Dumoulin anunciou uma pausa na carreira, assumindo que a pressão pública e os os meios de comunicação se tornavam “mais difíceis de gerir” do que esperava. “Quem sabe onde isso vai me levar? De qualquer forma vou conversar muito com as pessoas, pensar, passear com meu cão e descobrir o que eu quero como pessoa, na bicicleta, e o que quero fazer da minha vida”, confessou então. Em Maio, a equipa Jumbo-Vista anunciou o regresso do holandês à competição. Os Jogos eram um objectivo e acabaram com o ciclista no pódio: Dumoulin conquistou a medalha de bronze no contra-relógio individual de ciclismo de estrada.

Jenny Rissveds foi 14.ª classificada na prova de ciclismo cross country em Tóquio, depois de se ter sagrado campeã olímpica no Rio2016. O ciclo até aos Jogos de 2021 foi marcado por uma depressão, resultado da morte de dois familiares. A prova no Japão tornou-se, então, uma libertação. “Estou extremamente feliz que isto tenha acabado. Não a prova, mas todos estes anos, não ter que carregar o título. Tenho um nome e espero voltar a ser a Jenny e não a campeã olímpica, porque é um fardo muito pesado.”

A decisão de se retirar de Simone Biles foi apoiada por alguns dos maiores nomes do desporto mundial, como o recordista de medalhas de ouro em JO (23 num total de 28), Michael Phelps, que já assumiu ter tido pensamentos suicidas na sequência de uma depressão depois de Londres 2012. “Fiquei de coração partido”, confessou ao falar sobre Biles.

O orgulho LGBTQI+ e o exemplo de quem não tem voz

Equilibrar a saúde mental com a gestão de uma carreira desportiva de sucesso tem sido um dos desafios de Raven Saunders, lançadora de peso norte-americana, medalha de bronze nos Jogos a decorrer em Tóquio. Tornou-se uma estrela norte-americana após os Jogos do Rio, há cinco anos, apesar de não ter sido medalhada. A atitude extravagante, as danças ou as conversas desafiadoras com as câmaras podem esconder a luta constante da jovem de 25 anos para não se deixar cair. Também ela, num episódio depressivo, chegou a pensar em suicídio.

“Ser capaz de sair daqui com uma medalha e inspirar tantas pessoas da comunidade LGBTQI+, tantas pessoas que lindam com a saúde mental, pessoas da comunidade afro-americana... Eu pertenço a muitas comunidades”, afirmou, em tom de brincadeira, aos jornalistas, defendendo que o seu trabalho não acaba no tartan. “Há tantas pessoas que nos têm como referência. Há tantas pessoas que não têm uma plataforma ou uma voz que fale por elas. Temos de as representar.”

São pelo menos 179 os atletas LGBTQI+ que se apresentaram nos Jogos de Tóquio, segundo uma listagem apresentada pela Outsports, um número que significa mais do que o triplo daqueles que participaram no Rio2016. Tom Daley falhou no Brasil o ouro, que acabou por conquistar na capital do Japão. Após a subida ao lugar mais alto do pódio, juntamente com Matty Lee, com a conquista do ouro nos saltos sincronizados para a água na plataforma de 10 metros, não escondeu o que lhe ia na alma. “Sinto-me incrivelmente orgulhoso por dizer que sou um homem gay e também um campeão olímpico.”

Daley estreou-se nos Jogos com 14 anos em 2008. Cinco anos depois, assumiu a sua homossexualidade, num vídeo partilhado no Youtube. Mais tarde casou com o argumentista e realizador Dustine Lance Black, com quem teve um filho através de uma barriga de aluguer. “Quando era mais novo, achava que nunca poderia alcançar nada por ser quem era. Ser campeão olímpico mostra que podemos alcançar qualquer coisa. Assumi em 2013 e, quando era mais novo, senti sempre que estava sozinho, que era diferente, que não encaixava. Existia algo meu que nunca iria ser tão bom como a sociedade queria que fosse. Espero que qualquer jovem LGBTQI+ consiga ver que, independentemente do quão sozinhos se sentem agora, não estão sozinhos. Podem alcançar qualquer coisa”, declarou aos jornalistas após a vitória.

Não foi apenas o ouro que tornou Daley uma das figuras de destaque nos JO. O nadador foi visto, nas bancadas do pavilhão onde se desenrolaram as provas aquáticas, dedicado a uma das suas paixões: o tricot. Um hobby que ajudou o atleta a combater a ansiedade durante os períodos de confinamentos que “esticaram” o clico olímpico, com o adiamento para este ano da competição. “A única coisa que manteve a minha sanidade, ao longo de todo este processo, foi o meu amor ao tricot, ao crochet e à costura”, confessou. O dinheiro angariado com as peças vendidas reverte para um projecto social cujo objectivo é arrecadar fundos para pesquisas sobre tumores cerebrais, doença que vitimou o seu pai em 2011.

A luta das mães

Atrás de Raven Saunders na prova de lançamento do peso ficou uma das figuras mais conhecidas do desporto mundial: Valerie Adams, que juntou um bronze em Tóquio a duas medalhas de ouro (Pequim2008 e Londres2012) e a uma de prata (Rio2016). Embrulhada na bandeira na Nova Zelândia, chorava uma fotografia nas mãos. Depois, explicou tratarem-se dos filhos, Kepaleli (2 anos) e Kimoana (3), que a acompanharam, assim, em todo o percurso até chegar ao pódio. “São a minha maior inspiração. Como mãe aos 36 anos, é fantástico continuar a ser competitiva no meu desporto de eleição, estar aqui e conquistar uma medalha de bronze, não apenas por mim, mas pelo meu país e pelas minhas crianças.”

Um sacrifício que espera não seja em vão, muito além das pistas de tartan. “Espero continuar a inspirar as mulheres atletas de todo o mundo, demonstrando que é possível ter um filho, voltar e e estar no topo do mundo”, assumiu.

Ainda antes dos JO começarem, houve uma polémica relacionada com a maternidade. Por causa da pandemia de covid-19, a organização impedira os atletas de estarem com familiares, levando muitos a terem que optar entre os Jogos Olímpicos e os filhos. Mães atletas queixaram-se e a restrição foi flexibilizada (desde que estivessem a amamentar), mas nada que colhesse unanimidade devido às regras vistas como muito rígidas. A britânica Naomi Folkard considerou a mudança tardia e acabou por manter o plano inicial: a atleta de tiro com arco retirou leite para congelar cerca de 80 biberões de leite materno para alimentar Emily durante toda a competição.

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