Sílvia Saiote: “Os Jogos Olímpicos foram um sonho”

Sílvia Saiote, 34 anos, despediu-se da ginástica e, em especial, dos trampolins com a maior discrição possível. Nas suas palavras, deixou “de voar” e passou “a fazer outros voos”. Acumulou títulos europeus e mundiais enquanto estudava para preparar o pós-carreira. Com uma licenciatura em Economia e um mestrado em Gestão, esta filha de músicos, após ter estruturado de raiz o Gabinete Olímpico do Sporting, num convite que surgiu da forma mais surpreendente possível, dedica-se agora ao Desporto para Todos no IPDJ e ainda colabora com o Comité Olímpico para proporcionar o melhor aos atletas que vão estar, em 2024, em Paris.



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Sílvia Matuszewska Saiote. Poucos sabem, mas tem ascendência polaca...

Quem pode explicar isto bem é o meu pai. Ele conheceu a minha mãe na Polónia, quando estava a tirar o curso de música. O meu pai é clarinetista e maestro, a minha mãe tocava flauta. Na Polónia, o meu pai viu uma mulher muito bonita [risos] que também ia para o mesmo curso. Depois começaram a falar e a minha mãe veio para Portugal.

Mas considera-se portuguesa?

Sim.

Como é que a filha de uma flautista e de um clarinetista e maestro decide ser ginasta?

Sentia uma paixão muito grande pelo desporto. O meu avô e a minha mãe faziam ginástica em casa e também sempre fui um pouco torcida... Os meus pais tocavam clarinete e flauta ao sábado e ao domingo e, nas manhãs e ao final do dia, eu queria sair de casa e encontrar-me com pessoas num sítio onde me sentisse bem. Fiz clarinete no Conservatório de Música do Porto, também estudei piano na Academia de Música de Espinho, mas queria muito seguir a ginástica e sentia que era uma forma de me desenvolver e em que me sentia em casa. Desde os oito anos que estive na Associação Académica de Espinho (AAE) e saí de lá quando terminei o curso superior e vim para Lisboa trabalhar.

Como reagiram os seus pais, ambos músicos, quando lhes disse que queria ser ginasta?

Os meus pais sempre confiaram muito em mim e a única coisa que me pediram foi que me focasse a 100% naquilo que escolhesse. A partir do momento em que escolhi, perante eles, que queria fazer ginástica de alta competição, o que eles me disseram foi “então vai e dá tudo”. Expliquei que não conseguia dar a melhor versão de mim mesma se tivesse clarinete, ginástica e escola.

Ainda hoje toca algum instrumento?

Sim, o meu pai ofereceu-me recentemente um clarinete. Principalmente no confinamento, fui tocando.

Costuma dar algum concerto privado no seu círculo mais restrito?

Às vezes, quando me pedem, mas é mais um divertimento.

Vamos voltar um pouco atrás. Disse há pouco que via o seu avô e a sua mãe fazerem ginástica de manhã. Foi esse o clique para a ginástica?

Não, eu sempre adorei praticar desporto, jogar futebol com os rapazes e andar a correr. Quando estava na escola primária fui fazer captações de ginástica rítmica na AAE e vi os miúdos a voar, porque na altura, com os trampolins, havia uma barreira de madeira em que não se via o trampolim. Como a ginástica rítmica não era a minha praia, pedi à minha mãe para experimentar trampolins. Eu e a minha irmã fomos as duas, mas eu fiquei e a minha irmã virou-se para o voleibol, que é o desporto-rei em Espinho.

Então foi esse o momento em que se apercebeu de que o futuro passava pela ginástica?

Nunca pensei virada para o futuro, pensei que naquele momento me sentia superfeliz e as horas voavam sempre que estava no ginásio a tentar fazer saltos novos e a experienciar aquela sensação de voar. Vim de uma família de músicos em que os meus fins-de-semana eram passados a ver concertos de música clássica, com miúdos sentados e calmos. Estar ali, poder correr, poder saltar, desenvolver a minha personalidade foi muito especial para mim.

Teve uma infância feliz?

Muito feliz.

Em Espinho?

Sim, em Espinho. Ainda fiz uns meses de canoagem, aos 13 anos, porque aos 12/13 anos começamos a passar para os múltiplos, os dois mortais no ar, e eu tinha uma limitação psicológica quando tinha de me atirar. Não é natural para o comum das pessoas rodar dois mortais no ar. Eu tinha muito receio, disse ao meu treinador, ao meu pai e à minha mãe que não queria pôr-me em xeque. Por isso, fui para a canoagem. Foram incríveis esses meses mas, depois, até nas aulas comecei a imaginar que era só fazer o movimento e, quando voltei, num mês já estava a fazer vários saltos com mortais e piruetas e meia, todos os saltos que eu nem imaginava que podia fazer.

Perdeu muita da sua adolescência pelo amor à ginástica?

Não acho que seja perder. Na vida, não conseguimos fazer tudo o que queremos e, então, temos escolhas, que nos dão umas coisas e tiram outras. Vejo as minhas escolhas pela positiva e pelo que me deram. Não vejo o que perdi, mas tudo o que ganhei. Tive a oportunidade de viajar pelo mundo, de conhecer pessoas incríveis, de várias culturas, de várias nacionalidades. Ainda há pouco tempo surgiu-me nas memórias das redes sociais uma fotografia com atletas russas, bielorrussas e mais atletas da Europa, todos juntos... Estive num estágio no Centro Olímpico de Moscovo, num estágio na China, tive a sorte de viajar pelo mundo e conhecer várias culturas e de estar em paz, amizade, excelência e respeito.

Teve mundo, como disse. Sente-se, de alguma forma, uma privilegiada?

Não sei se privilegiada é a palavra mais certa. Sinto que trabalhei muito para ter essa sorte. Quando me falou há pouco do que perdi, sacrifiquei muitas horas de finais de tarde e de manhãs em que ainda fazia exercícios em casa.

Também sacrificou saídas à noite?

Depois da prova dava para fazer uma saída, mas sacrifiquei muito para ter o privilégio de viajar pelo mundo. Lembro-me de quando a minha família ia de férias e eu, aos 14/15 anos, já não queria ir de férias porque queria fazer o estágio de Carnaval ou o estágio da Páscoa. Sacrifiquei muitas férias com a família, com os amigos, a saída do final de secundário... Não vejo as coisas de uma forma má nem de demasiado privilégio, simplesmente trabalhei para ter essa sorte.

Em quantos países representou Portugal?

Alguns, vários. Não vivo de medalhas nem de contagens, só vivo de experiências e sinto-me muito preenchida e feliz por ter tido essa oportunidade.

Quando percebeu que seria uma atleta acima da média? Foi em Eindhoven, em 2005, quando se sagrou campeã mundial em minitrampolim individual e colectivamente?

Acho que foi quando voltei da canoagem, aos 13 anos, e vi que tinha superado a barreira psicológica que tinha nos saltos duplos e piruetas. Percebi que se desbloqueasse a cabeça, me focasse a 200% e conseguisse ultrapassar as minhas próprias barreiras internas, era capaz de abrir portas que nunca tinha imaginado. Então, a partir daí foi muito natural entrar na selecção nacional júnior, depois, ser chamada ao primeiro ano de sénior e, nesse Mundial, as pessoas perguntaram-me: “Mas era o teu primeiro ano de sénior, como foste campeã mundial?” Não tinha nenhuma pressão, as regras mudaram nesse ano e pus toda a minha capacidade sem tentar fazer séries seguras, apenas quis fazer o melhor de mim e, realmente, foi o único ano em que não havia passagem de aquecimento. Nos trampolins, as molas são diferentes. Então passámos de aquecimento para a zona de competição sem aquecer, sem haver um toque no duplo-mini, e, quando elas começam a não conseguir fazer tão bem, eu pensei: “Não interessa as outras, faz só o teu melhor, continua a manter-te focada.” Até me estou a arrepiar. Para mim, foi sempre uma superação interna. Não era ganhar às outras, foi sempre ganhar a mim mesma.

Mas quando foi para Eindhoven não esperava sagrar-se campeã mundial?

Não. Já havia vídeos, mas eu não sabia o que elas estavam a fazer. Sabia o que era capaz de fazer, até estava a colocar dificuldades a mais de séries que não dominava, mas sabia que queria pôr-me à prova. Foi assim a minha carreira toda.

Sei que tem mais de 100 medalhas, mas se tivesse de escolher um troféu, uma competição, uma medalha, uma classificação, qual escolheria?

Em 2014, o Campeonato da Europa em Guimarães. Foi um ano muito especial, porque a minha mãe e o meu avô tinham morrido no ano anterior e nós mudámos todos para Espinho. A minha família era um círculo pequeno; avós maternos, avós paternos, os meus irmãos e os meus pais. Éramos sete, de repente passámos a cinco. Tê-los perdido no ano anterior, todo o processo que foi, competir em Portugal numa grande competição, e eu ter posto o desafio de finalizar a minha carreira em duplo-mini, independentemente de como corresse... nesse campeonato da Europa fui a melhor portuguesa no trampolim e fui medalha de bronze no duplo-mini individual e campeã da Europa por equipas. Foi uma prova de superação, com grande carga emocional, com a minha família presente, e eu pedia sempre para eles não estarem nas provas. Queria estar sempre no meu mundo.

Os seus pais não assistiam às suas provas?

Eles queriam, mas eu dizia que queria estar fechada no meu mundo. Podiam ver... nos filmes. [risos]

Sente que lhe faltaram uns Jogos Olímpicos para poder dizer que teve uma carreira cheia?

Vejo sempre o copo meio cheio, e não meio vazio. Os Jogos Olímpicos são trampolim individual e a minha carreira foi muito focada em duplo-mini, que era não olímpico. Só passei a treinar trampolim a sério quando passei a viver em Lisboa, aos 21 anos. Fui um pouco tarde mas, mesmo assim, quis superar-me e um ano depois fui reserva olímpica para os Jogos de Londres, o que para mim foi uma surpresa. Para o Rio de Janeiro, julguei que seria capaz de estar na equipa. No campeonato do Mundo de apuramento fiz provas muito boas, estava nas 15 primeiras das taças do Mundo, mas só contava o campeonato do Mundo, e não o ranking, como acontece actualmente. Aleijei-me nessa prova, não correu nada bem, depois cheguei a ser operada, comecei a trabalhar no Sporting e, a partir daí, decidi focar-me em trabalhar em prol do desporto. Foi aí que fundei o Gabinete Olímpico do Sporting.

Os Jogos Olímpicos nunca foram uma obsessão?

Em criança, não. Quando agora penso nisso, olho para a minha carreira e penso para mim mesma: “Como é que podes ter desejado estar nuns Jogos Olímpicos se tu, a vida toda, o que querias era duplo-mini mesmo quando as pessoas diziam para treinares trampolim?” Até determinada altura, os Jogos Olímpicos foram um sonho, mas tinha de recuperar muitas carruagens do comboio que já tinha perdido.

Em 2016 foi convidada para coordenar o Gabinete Olímpico do Sporting? Esperava esse convite?

Fiz a minha tese de mestrado em que apliquei um sistema de gestão de performance às modalidades do Sporting. Quando terminei a tese fui apresentá-la ao dr. Carlos Vieira, responsável da área financeira, e durante essa reunião entra o presidente à época, Bruno de Carvalho, que pede desculpa por “roubar” o dr. Carlos Vieira porque precisava de se reunir com ele, e quando regressa diz: “A Sílvia vem trabalhar para o Sporting.” Eu estou sentada e respondo que tenho uma prova de apuramento olímpico dentro de uns meses - isto foi em 2015. E ele insiste: “Então, quando é que a Sílvia pode?” Respondi que a 1 de Janeiro de 2016 podia começar. E foi assim.

Essa é uma história incrível.

Fiz a minha tese de mestrado sobre o Sporting, apresentei-a ao dr. Carlos Vieira e fui lá na óptica de “usem e naquilo que puder ajudar, contem comigo”. Não esperava o convite porque não estava à procura de emprego e queria treinar até aos Jogos do Rio. Tive o campeonato do Mundo em Tóquio no final de 2015, fiz duas semanas de férias e cheguei ao Sporting de rastos porque tinha acabado de falhar o apuramento olímpico, mas uma semana depois decidi fazer trampolins até aos Jogos de Tóquio. Conseguisse ou não... ao menos ia dar ao desporto o que o desporto me deu.

E como foi a experiência de coordenar o Gabinete Olímpico do Sporting?

Senti que dei de mim o que eu também gostava de ter recebido. Tive a oportunidade de fundar a estrutura do gabinete olímpico, de ter uma equipa de alta performance dedicada aos atletas das modalidades do Sporting. Na altura não havia esta coordenação, não havia um fisioterapeuta para as modalidades, e, de repente, ter uma equipa que englobava dois fisioterapeutas, médico, psicólogo, nutricionista, trabalhar com parcerias para as marcas darem suplementos aos atletas... Não foi graças a mim que lá chegaram, mas pude contribuir, nem que tenha sido com uma percentagem ínfima, para os atletas estarem no Rio de Janeiro. Penso que olhavam para o Sporting e sentiam que o clube estava com eles e a puxá-los para cima. Dei ao Sporting o que o Sporting me deu quando vim para Lisboa, que foi uma sensação de casa, e pude dar isso a esses atletas: sensação de casa, sensação de família, uma equipa olímpica. O Sporting, apesar de os clubes não estarem representados nos Jogos Olímpicos, tinha ali uma família e estava unido.

Saiu antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Foi uma frustração?

Assumi para mim mesma que o meu objectivo era começar o projecto e terminá-lo. No Sporting não fazia apenas a coordenação do gabinete olímpico, com toda a questão de uma equipa técnica envolvida em parcerias, patrocínios e organização, como também estava na área comercial para tudo o que era modalidades. E no Sporting há mais de 50 modalidades. Sentia que já era muito trabalho, mas um dos objectivos que tinha era terminar o meu projecto pelo menos até Tóquio. Infelizmente, não foi possível. Claro que, para mim, foi um pouco difícil gerir esse processo, mas também acho que quando se fecha uma porta abre-se outro ciclo e consegui fazer muito bem essa passagem. Consegui descansar e depois iniciei o meu trabalho no Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ).

A par da ginástica, em especial dos trampolins, foi sempre uma aluna de excelência. Tem uma licenciatura em Economia, um mestrado em Gestão e mais duas pós-graduações relacionadas com desporto. Como foi possível compatibilizar tanta actividade?

Com querer e com uma equipa incrível atrás. Nos trampolins tinha um treinador e colegas incríveis. Os meus treinadores saíam mais cedo dos empregos para me darem treino, ficavam até mais tarde quando eu chegava mais tarde do emprego. A minha família sempre me apoiou imenso.

E gostava de estudar?

Gostava.

Porquê economia e gestão? Eram paixões a par da ginástica ou via-as apenas como saídas profissionais?

Não, não foram apenas saídas. Queria dar o meu contributo não só na parte do treino, mas queria também perceber a vertente financeira e o porquê da tomada de algumas decisões. Perguntamo-nos muitas vezes porque não construímos um centro olímpico e quando estava a estudar consegui perceber decisões que têm muito estudo. A parte financeira conta muito e a forma como se escolhem os recursos para determinada actividade muda muito e a forma como se apresenta essa actividade e todo o processo, mas também a consequência que vem dessa actividade é fulcral para essa actividade ser escolhida ou não. Queria ter esta visão. Já tive a visão da música na minha vida, da ginástica, mas desejava ter outra forma de olhar a realidade actual.

A forma como compatibilizou os estudos com o desporto de alta competição mostra que é possível um atleta conciliar a prática desportiva com uma carreira académica. Considera que o seu exemplo pode influenciar outros atletas?

Sim. Em Portugal, infelizmente, ainda não existe uma carreira dual, como há noutros países, em que há a polícia e o exército, em que as pessoas fazem a carreira lá para financiar a sua carreira de atletas. Em Portugal, ainda não existe essa possibilidade em que o Estado se liga um pouco à carreira dos atletas. Tem de se ir ao privado e as pessoas têm mesmo de estudar, com excepção de alguns casos. Acho que sim, que posso ser um exemplo, e mesmo no Sporting, no treino, quase todos estão a tirar engenharias no Técnico. Se me perguntar se tinha sido melhor atleta se estivesse só focada no desporto... talvez, mas, para mim, quando só me foquei em tentar aquele apuramento olímpico, não tinha o meu escape. Gosto mesmo de ter outra actividade e de estar ligada a mais coisas.

Em 2022 finalizou a sua carreira. Deixou de voar, citando as suas palavras. E depois, veio o vazio?

Não deixei de voar, mudei de voos. [risos] Mudei a forma de voar, se calhar. Agora tenho oportunidade de dar treinos no Sporting. Estou a fazer o estágio de grau 2 e pretendo iniciar o grau 3, que é focado em alta competição e atletas de elite. Poder ajudar outras pessoas a fazerem os seus voos, principalmente na questão das meninas, ajudá-las a desenvolverem-se e a serem a melhor versão delas mesmas, fazer o meu trabalho aqui no IPDJ, ser membro da comissão consultiva de marketing e financiamento do Comité Olímpico de Portugal (COP), ter tempo para mim, para ler... tenho assim mais tempo para fazer outros voos.

Quando finalizou a última prova da sua carreira, o que sentiu?

Não foi uma decisão tomada de um dia para o outro. Foi um processo. Queria terminar numa prova internacional em Portugal. Nesse ano, em 2020, houve o adiamento devido à covid-19; no ano seguinte tive eu covid e, a partir daí, comecei a dizer ao meu treinador que não estava a fazer sentido para mim ir ao treino. Sempre tive uma paixão enorme pelo treino, mas sentia que queria fazer outra coisa, já estava a pensar demasiado no treino, já estava noutra etapa. E foi naquela última semana de Fevereiro deste ano que decidi informar o meu clube, a federação e todas as pessoas que me apoiam que iria terminar.

Foi um fim pacífico?

Foi natural, não foi um choque. Foi algo que já fazia sentido para mim há algum tempo.

Penso que posso dizer que está a ter um pós-carreira que é o sonho de qualquer atleta, pois está no IPDJ e ainda colabora com o COP. O que está a fazer em concreto?

No IPDJ estou na Divisão de Desporto para Todos, que trabalha tudo o que é financiamento. É um pouco uma novidade para mim porque sempre fui federada e ligada à competição e agora estou a promover a actividade desportiva junto da população portuguesa. Volto a olhar para a realidade sob outro ponto de vista.

Muito mais macro?

Muito mais macro e diferente. Temos agora a Semana Europeia do Desporto, de 23 a 30 de Setembro, e agora tenho oportunidade de a organizar. Estamos a chamar os atletas e também figuras de fora do desporto para se associarem como embaixadores. Este ano, por exemplo, temos a Vanessa Fernandes e o Miguel Maia connosco, pessoas por quem eu tenho um enorme apreço e que influenciaram a minha carreira. O Miguel Maia, já antes de eu estar na alta competição, influenciava-me como espinhense. Que sorte poder continuar a falar e a dar às pessoas o que elas me deram... O Miguel Maia deu-me esta inspiração e agora posso chamá-lo para ele continuar a inspirar mais pessoas. No COP é diferente, faço um pouco do que fazia no Sporting, que é trabalhar com parcerias e patrocínios, mas, desta vez, não para um clube desportivo mas para uma entidade tão importante como é o COP. E todas as parcerias são feitas numa óptica de quatro anos, mais de longo prazo e focada no bem-estar dos atletas.

Agora que lida com esta realidade mais macro, como estão os portugueses no que toca à actividade física?

Há um grande trabalho a ser desenvolvido e espero que o objectivo do Governo de colocar Portugal mais acima no top europeu da actividade física realmente possa ser cumprido e que as pessoas em Portugal continuem a trabalhar cada vez mais numa lógica de cooperação para que sejam atingidos esses objectivos do Governo.

Falta uma maior aposta que incentive a prática desportiva?

Basta olharmos para as declarações de pessoas ligadas ao desporto e percebemos quais são as queixas. Quando se ouve falar em mais apoios, isso por vezes é confundido com mais dinheiro. Mais apoio também pode passar pelo desbloqueio de algumas situações burocráticas, pode ser desbloquear financiamentos para serem entregues mais cedo - por exemplo, no início do ano em vez de no final do ano, de modo que as pessoas possam organizar as suas actividades.

Quando começou na ginástica não havia telemóveis, internet, tablets...

Incrível.

Como se conseguem desviar as crianças destas atracções para a actividade física?

Acho que o desporto tem de se reinventar. Nos Jogos Olímpicos de Paris, em vez de as pessoas terem de se deslocar a um estádio, o espectáculo desportivo vai estar mais acessível no outdoor. Por isso é que existe este crescimento dos desportos de outdoor. O desporto tem de se reinventar e não esperar que as pessoas comprem um bilhete para irem ver um espectáculo, mas sim deslocar-se à rua e aproximar-se das pessoas, tirar as pessoas de casa para verem desporto.

Mas há alguma estratégia mais direccionada às crianças? Antes, na sua infância, brincava na rua com os amigos...

Mas no nosso tempo tínhamos avós ou a mãe não trabalhava, e esta é a primeira geração em que, na maioria, pai e mãe estão a trabalhar das 9h00 às 18h00, os filhos saem às 16h00 e alguém tem de ir buscá-los. E, depois, os pais colocam-nos em casa para prepararem o jantar e o dia seguinte... O problema do desporto também é um problema social. Enquanto não tivermos tempo e condições para os pais deixarem os filhos no desporto... Tem de se pensar mais no desporto de uma forma integrada com a sociedade.

E como é que isto se resolve?

Não é preciso inventar a roda, basta ver os países nórdicos, que têm uma taxa de actividade física elevada porque as pessoas saem mais cedo dos empregos. A partir das 16h00 estão a sair. Entram mais cedo, saem mais cedo. Quem sou eu? Estou apenas a dizer para se olhar para bons exemplos. Há exemplos de pessoas saírem mais cedo, em que trabalham de forma mais eficaz e, depois, têm mais tempo para actividade física e desportiva e também para relaxarem e terem tempo de qualidade com os filhos.

Este é um caminho ainda longo em Portugal?

Fala-se muito em cultura desportiva, mas também em cultura social e a forma como olhamos para a nossa vida. Em Portugal, trabalhar das 8h00 às 23h00 é que é trabalhar muito, mesmo que a pessoa não tenha feito nada o dia todo. Lembro-me de sair às 18h00 e ser das primeiras pessoas a saírem. Às vezes saía às 18h25 para estar às 18h30 no treino e só tinha de descer o elevador do estádio. E chegava muitas vezes atrasada ao treino.

Pensa que a sua carreira ajudou a influenciar crianças a seguirem a ginástica e os trampolins?

Acho que não só a ginástica e os trampolins como também o desporto. Receber uma mensagem de uma mãe que diz que a filha pratica desporto, ou decidiu seguir uma carreira ou decidiu focar-se numa actividade fora da escola e que eu pude influenciar através de um exemplo...

Já recebeu esses feedbacks?

Já.

De que forma?

Através das redes sociais, as pessoas escrevem-me. Dou agora treino a uma rapariga que tirou uma fotografia comigo quando era pequenina e está a tentar entrar na selecção nacional. Receber este feedback... e ter a oportunidade de lhe estar a dar treino, para mim, é um orgulho, mas é uma sorte e um privilégio que faço por ter.

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