O Genial que nunca foi pequeno

Fernando Chalana deixou-nos na quarta-feira, 10 de Agosto. Pertence ao Olimpo do futebol português e do Benfica, clube onde destilou talento e ganhou seguidores.



Fernando Chalana morreu e com ele uma parte do futebol português. Figura maior da selecção nacional no Europeu de 1984, prova em que pediu meças a um tal de Michel Platini. Essa foi a primeira grande competição em que Portugal marcou presença após o mítico Mundial de 1966. Se em Inglaterra Eusébio deixou a sua impressão digital, em terras francesas foi Chalana o enorme destaque, principalmente pela extraordinária exibição realizada na meia-final de Marselha. Duas assistências, uma de pé direito, outra de pé esquerdo, permitiram a Rui Jordão assustar a favorita França, que acabaria por confirmar o título na final diante da Espanha.

Já na qualificação a sociedade Fernando&Rui tinha sido fundamental com Chalana a ganhar o polémico penálti diante da União Soviética que Jordão acabaria por converter no passaporte para a primeira fase final de Portugal desde 1966. Esse jogo disputado na Luz, claro está, tem a particularidade de Chalana ter descido quase à defesa, pois achava que ninguém lhe passava a bola, isto em plena balcanização do futebol português cimentada pelos blocos Norte (FC Porto) e Sul (Benfica e Sporting).

A Chalana faltou ambição e também um mundo diferente daquele que vivemos hoje. Não havia internet, redes sociais, televisões privadas, ou seja, não havia nada que dimensionasse o talento desmedido de Chalana ao mundo do futebol - e não só.

Descoberto por Mário Coluna, Fernando Chalana acabaria por se estrear, com pouco mais de 17 anos, na equipa principal do Benfica a 7 de Março de 1976, substituindo ao intervalo Toni, numa goleada sobre o Farense. Antes disso, já o sucessor de Mário Wilson, o então jugoslavo Milorad Pavic, pedia o ingresso do precoce Fernando que o tinha deliciado num Oriental-Barreirense, com Chalana a defender as cores do clube da sua terra, o Barreiro.

E Chalana só não se estreou antes pelo Benfica porque era muito novo e a Federação Portuguesa de Futebol não o permitiu, no entanto, durante anos foi o mais jovem de sempre a jogar uma partida do campeonato, de tal modo que na época da sua estreia acabaria por se sagrar campeão nacional sénior... e júnior.

Numa altura em que a organização não era a da actualidade, longe disso, Chalana e outros jogadores, como Bento, Damas, Humberto Coelho, Eurico, Jaime Pacheco, Diamantino, Manuel Fernandes ou Jordão, entre outros, foram impedidos de brilhar. Chalana, contudo, teve o seu momento de magia em França, mas esse seria o seu apogeu e o carimbo para uma queda que se foi acentuando paulatinamente. Transferiu-se para o Bordéus, após o Europeu de 1984, a troco de 300 mil contos na moeda antiga - verba que permitiu ao Benfica fechar o 3.º Anel - , mas não se adaptou. Dezasseis jogos realizados em três épocas eram o sinal contundente da falta de espírito de emigrante, de um casamento complicado e das muitas lesões que coarctavam o talento dos predestinados. Regressaria ao Benfica, mas já sem aquela chama de outrora. Fez três discretas épocas na Luz antes de experimentar o Belenenses e o Estrela da Amadora. O fim de carreira deu-se aos 31 anos.

Para a história teremos sempre um jogador que enganou meio mundo. Com os seus fantásticos dribles, com o seu incontornável jogo de ancas e, finalmente, com aquele truque de ser destro mas, afinal, parecer da cabeça aos pés um esquerdino com muita coisa de Maradona. Um enganador do melhor que o futebol viu e que gostava de ter bola.

Chalana foi, sem dúvida, nenhuma o primeiro grande embaixador do futebol português além-fronteiras. E teve o condão de ser o ídolo de jogadores que acabaram por ter mais sucesso (e sorte), como Paulo Futre e Luís Figo.

Depois de terminada a carreira como jogador esteve muito tempo afastado do Benfica tendo referido que nessa altura ficou sem dinheiro e sem amigos. Voltaria à Luz em 1999. Seria ainda duas vezes treinador interino e na primeira delas foi o responsável pela colocação de Miguel a defesa-direito, posição em que o internacional português singraria no futebol internacional. Na segunda ocasião substituiu Camacho, tendo-se tornado o último treinador da carreira de Rui Costa. Pelo meio deu alento a Bernardo Silva, muitas vezes preterido nos escalões de formação devido ao delicado físico, e estimulou a sua paixão pelos pombos incutida pelo também malogrado José Torres.

Figura unânime no panorama desportivo nacional, de Fernando Chalana foi-se sabendo pouco nos últimos anos de vida. A doença (degenerativa) retirou-lhe a memória dos feitos muito antes da falência física.

Homenageado pelo seu clube de sempre, Chalana teve o reconhecimento dos grandes rivais, Sporting e FC Porto. E agora vai encontrar José Neves de Sousa, o jornalista que se enganou parcialmente na alcunha que lhe deu, porque Chalana foi genial (como poucos), mas nunca foi pequeno. Foi enorme!

$!O Genial que nunca foi pequeno
Ler mais
PUB