Mauro Xavier: “Se o Benfica precisar da minha ajuda estarei disponível”

“Se o Benfica algum dia precisar da minha ajuda, estarei disponível para ajudar”, garante Mauro Xavier, director-geral de parceiros na Microsoft Europa Ocidental e destacado adepto dos encarnados. Ainda assim, afasta para já a intenção de se candidatar à presidência do clube e acredita que Rui Costa poderá fazer um bom trabalho, ganhando no resto do mandato três títulos de campeão nacional de futebol. Para o comentador da CMTV, que se afastou da política, apesar de continuar militante do PSD, Pinto da Costa transmite o ADN do FC Porto através de “frases carregadas de ódio”.



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É conhecido pela sua militância benfiquista em vários órgãos de comunicação social, mas pouca gente sabe que é director-geral de parceiros na Microsoft Europa Ocidental. Conte-nos um pouco do seu percurso.

Tenho a felicidade de a vida profissional me ter corrido bastante bem. Sou de uma família humilde. Consegui ter a sorte de em Portugal, onde nem sempre é fácil de ascender no elevador social, passar de uma família humilde para poder ter rendimento e, isso, tenho muito a agradecer à minha instituição e entidade patronal e também a todos aqueles que contribuíram para a minha educação. Tenho o privilégio de gerir 14 países e o ecossistema de 75 mil parceiros da Microsoft numa área de negócio de 20 biliões. Só para se ter uma ideia, a maior empresa portuguesa não faz um bilião. Sinto-me muito realizado profissionalmente, consegui atingir aquilo que nunca sonhei.

Está muito acima daquilo que projectou?

Tive a felicidade de poder reformar-me no dia em que fiz 40 anos. Hoje tenho 44, mas decidi não me reformar porque a minha mulher disse-me que era um mau exemplo para os meus filhos, e acho que esse foi um grande argumento. Ao fim e ao cabo, temos de ser um exemplo para todos; por isso, temos de trabalhar todos os dias para mostrar que podemos ser melhores. Do ponto de vista financeiro, atingi a minha autonomia. Neste momento não trabalho por dinheiro e há muito poucos portugueses que podem dizer que não trabalham por dinheiro. Sou um privilegiado desse ponto de vista e, por isso, decidi participar um bocado mais na vida do Benfica. Como posso participar na vida do Benfica sem interesse, quero contribuir com tudo aquilo que aprendi para poder ajudar o Benfica.

Já vamos ao Benfica. Frequentou a Universidade do Minho, é um benfiquista do Norte?

Não, sou natural de Abrantes, na zona centro. Se traçar duas diagonais no país vai estar muito perto de Vila de Rei, que é o centro geodésico do país. Não há nada mais central no país. Sou proveniente de uma família média, alguém que decide que pode mudar o mundo num determinado momento e que opta por estudar Relações Internacionais para tentar influenciar o mundo. Faço um percurso de tentar influenciar o mundo e o país para passar a tentar influenciar o meu clube. Há uma mudança muito grande na visão do mundo e é essa a minha perspectiva.

Esteve nos Estados Unidos, em Harvard...

Estudei numa pós-graduação de 15 dias, num curso da JKF, para poder melhorar. Sempre quis estar entre os melhores para tentar perceber se conseguia estar nesse nível. Quis sempre aprender mais. Quando percebemos que estamos ao mesmo nível de qualquer pessoa do mundo, isso dá-nos confiança para querer ajudar o nosso país.

Teve passagem pela política: militante do PSD, director de campanha de Passos Coelho em 2010 e presidente da concelhia de Lisboa em 2012. É uma página definitivamente virada?

Totalmente. Como disse, fui para a Universidade do Minho com vontade de mudar o mundo e estudar Relações Internacionais. Houve uma fase da minha vida em que quis mudar o país, contribuindo para garantir que Portugal podia ser uma economia que crescesse mais que a União Europeia. Investi todo o meu conhecimento e o meu saber, mas a vida política ensinou-me que nem sempre os melhores podem ser bem-sucedidos. Considerei que Passos Coelho tinha todas as condições para transformar o país, mas o futuro mostrou-me que não era assim.

Ficou desiludido?

Não é uma questão de ilusão ou desilusão. Achei que Portugal só tem uma solução, que é conseguir trazer pessoas. Portugal necessita de ter 13 milhões de habitantes e tem 10 milhões. Todas as políticas que não signifiquem ou mais natalidade ou mais imigração são contra o desenvolvimento do país. Ninguém em Portugal quer fazer esta discussão, por isso decidi retirar-me desse ponto. Depois de ter tentado ajudar o meu país, tentei ajudar Lisboa, a minha cidade, e fui cinco anos presidente da concelhia do PSD. Não consegui, com Pedro Passos Coelho, encontrar a melhor forma de encontrar uma solução. Há uma célebre frase, “que se lixem as eleições autárquicas”, e o importante era o país, e para mim, na altura, o importante era a cidade de Lisboa. Os lisboetas responderam que Teresa Leal Coelho não era a solução. Foi a pior votação de sempre do PSD em qualquer eleição em Lisboa, mostrou que a decisão de Pedro Passos Coelho estava errada e, para mim, terminou um ciclo.

Para si, terminou a política de vez?

Totalmente.

Mas, como militante do PSD, acredita que Luís Montenegro pode ser primeiro-ministro?

Não tenho opiniões políticas rigorosamente nenhumas. A política, para mim, acabou de vez. Mantenho-me militante porque continuo a achar que o PSD é o partido que encontra melhores soluções para a sociedade portuguesa, mas não faço política activa, deixei de participar na política. Por isso, não faço comentários políticos.

A sua ligação ao futebol começa quando lidera o programa de voluntariado do Euro 2004.

Em 2004 estou como vice-presidente do Instituto Português da Juventude e havia uma necessidade de juntar juventude, área que eu tutelava, ao maior evento do país durante muito tempo. Foi criado um programa de voluntariado em Portugal na lógica de dar oportunidade a todos os jovens, do norte ao sul e do interior ao litoral, de estarem nesse evento. Consegui lançar isso com o apoio do secretário de Estado Hermínio Loureiro. Estiveram envolvidos mais de 30 mil jovens.

Em 2011 concorreu na lista de Carlos Marta à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) contra Fernando Gomes. O que acha da actual direcção da FPF?

A minha lista perdeu essas eleições por seis votos. E há um trabalho que tenho de reconhecer, de Fernando Gomes, de Tiago Craveiro e outros, que acho que foi melhor do que aquele que a lista de Carlos Marta podia ter feito. O primeiro mandato é, definitivamente, brilhante. Hoje, 11 anos passados, tenho dúvidas se estamos num momento de excelência novamente. Estava na altura de haver uma auditoria ao VAR, de percebermos como as arbitragens são escolhidas... A FPF melhorou e inovou em muita coisa, mas estamos a entrar num ciclo descendente. Estamos a entrar numa época em que Fernando Gomes é mais Fernando Gomes ex-administrador do FC Porto do que Fernando Gomes presidente da FPF. Vejo com bons olhos o fim deste mandato. Ele está num momento em que não se pode recandidatar devido ao limite de mandatos – espero que isso não seja alterado por lei porque, às vezes, vejo alguns movimentos para tentar alterar a limitação de mandatos. Sou um fervoroso fã da limitação de mandatos porque entendo que todos nós só podemos fazer missões.

Quem gostava que fosse presidente da FPF ou, por outro lado, quem seria melhor para o Benfica?

A FPF é Portugal e é mais do que o Benfica. Quem eu não acho que seja, de certeza, candidato que se deva apoiar é Pedro Proença que, dizem todos os indicadores, quer ser candidato à presidência da FPF. Acho que Pedro Proença não tem condições para ser candidato à FPF. É uma reflexão profunda que Benfica, FC Porto, Sporting e todos os outros agentes têm de fazer, que é encontrar um bom candidato à FPF, que seja isento, que queira pensar o desporto, que queira valorizar o jogador português, que queira mobilizar as tecnologias. Pedro Proença não cumpre nenhum destes requisitos.

Vamos ao Benfica. Rui Costa está a ser aquilo que esperava?

Sobre Rui Costa tenho tido uma opinião positiva e negativa. Acho que Rui Costa representa tudo aquilo que os benfiquistas querem que o presidente do Benfica seja. É alguém que ama profundamente o clube, é alguém que está envolvido profundamente na vida do clube, é alguém que sempre foi benfiquista e que vive e representa todos os benfiquistas. Teve um primeiro momento que foi a transição, e uma transição de que ninguém está à espera – ele, os benfiquistas e o país. Com um evento que ninguém esperava, a detenção de Luís Filipe Vieira. Ele tem um primeiro momento muito bom, consegue fazer o empréstimo obrigacionista num momento difícil da vida do Benfica, consegue fazer a transição, consegue entrar na Champions, mas não consegue resolver bem um dossiê chamado Jorge Jesus. Não conseguiu tomar uma decisão: se Jorge Jesus seria o treinador dele ou se deveria terminar no final do contrato de Jorge Jesus. E essa indecisão faz o Benfica perder este último campeonato, faz o Benfica não ter o rumo certo. Hoje, ele está a construir um novo projecto, que eu espero que seja bem-sucedido; acredito piamente que aquilo que ele está a construir é bem-sucedido, tem tomado um conjunto de boas decisões - por exemplo, a abertura dos pavilhões a todos os sócios. Acredito que Rui Costa será um bom presidente e aquilo que lhe desejo é o que desejo a qualquer presidente do Benfica: que ganhe pelo menos 50% dos campeonatos. Tem mais três neste mandato para ganhar e eu espero que ele vença os três.

Se não o conseguir em 2022/23, o Benfica irá para o quarto ano consecutivo sem ser campeão. A suceder isso, acha que Rui Costa terá condições para se manter?

Acho. Os mandatos devem ser sempre cumpridos. Aquilo que Rui Costa tem de atingir é ganhar dois campeonatos no seu mandato.

Gosta de Roger Schmidt?

Acho que era uma das boas alternativas que estavam no mercado. Agora cabe a Roger Schmidt decidir duas coisas: ele tem uma boa escola e eu quero ver se ele consegue potenciar o talento da nossa formação, potenciar o talento português e pôr a equipa a jogar bem, o que não sucedeu nos últimos dois ou três anos. Desse ponto de vista, acho que é uma escolha certa antes de abrirmos o melão. Acho que é uma boa decisão. Agora é preciso abrir o melão e espero que todos os benfiquistas consigam ver um melão de Verão bem saboroso.

Nas eleições de Outubro de 2020 tomou partido por Luís Filipe Vieira, tendo feito até um artigo muito crítico para com João Noronha Lopes. Está arrependido?

Nada. Naquele momento, João Noronha Lopes não mostrou ser a alternativa certa e essa foi a resposta da maioria dos benfiquistas. Se tivéssemos uma bola de cristal gostávamos de ter sabido o que ia acontecer há um ano para discutirmos outros projectos. Continuo a acreditar que a justiça trabalha a justiça... Luís Filipe Vieira tinha ganho dois campeonatos em quatro no seu mandato anterior. Esse é o meu critério: o Benfica tem de ser dominador em Portugal e um presidente que ganhe dois campeonatos em quatro terá o meu apoio. Foi a primeira vez que apoiei Luís Filipe Vieira numas eleições. Ele tinha vindo de um tetra inédito na história do Benfica. Hoje há um conjunto de questões em aberto, mas não acredito que João Noronha Lopes fosse a solução em várias matérias para a liderança do Benfica.

Mas se soubesse o que sabe hoje, se tivesse a tal bola de cristal, não teria apoiado Luís Filipe Vieira independentemente de não apoiar João Noronha Lopes...

Não, acho que se devia ter reconstruído uma outra solução.

Qual?

O universo benfiquista, tendo mais de 200 mil sócios, é rico o suficiente para encontrar soluções para o ambiente que se vive. Se os sócios do Benfica têm sabido hoje o que aconteceu há um ano tinham encontrado uma solução diferente. João Noronha Lopes foi um projecto que mobilizou o Benfica, conseguiu trazer debate, mas não conseguiu identificar o que seria o futuro do Benfica. E uma candidatura que seja simplesmente contra alguém não consegue mobilizar 50% do eleitorado. João Noronha Lopes decidiu não se recandidatar mais, assumiu que era uma vez única, deu um contributo tremendo para a vida democrática do Benfica, mas teve o resultado que teve.

Rui Costa manteve muitos dos dirigentes e quadros que faziam parte da estrutura de Luís Filipe Vieira. Fez bem?

Não, fez mal. Devia ter visto mais cedo e, hoje, Rui Costa viu. Tivemos uma assembleia-geral há bem pouco tempo em que os sócios foram claros em dizer que queriam um corte com o passado. Rui Costa, há um ano, não teve essa leitura. Tentou fazer uma continuidade e esse foi um erro. Ao ter mantido 14 dos 20 dirigentes dos órgãos sociais anteriores, não deu um sinal de corte com o passado. Acho que, hoje, Rui Costa não tomaria essa decisão e isso faz parte de uma normal aprendizagem.

Rui Costa esteve com Luís Filipe Vieira durante 13 anos. Não foi tempo suficiente para o actual presidente ter uma palavra mais interventiva na vida do clube?

Rui Costa deu sempre um grande sinal de benfiquismo, sempre escolheu o Benfica em detrimento dele próprio. Luís Filipe Vieira foi sempre um presidente com opiniões muito próprias e que não deu muito espaço a Rui Costa e a outros dirigentes. Não vejo que isso seja um demérito de Rui Costa. Todas as conquistas atingidas nos últimos 12 ou 13 anos têm o mérito de Rui Costa.

É mais ou menos público que estamos a falar de duas personalidades sem uma grande convergência de ideias. Por aquilo que disse atrás, dos requisitos que Rui Costa preenche quase na plenitude para ser presidente do Benfica, não acha que, se Rui Costa tem ido contra Luís Filipe Vieira, podia ter ganhado as eleições?

Podia. Luís Filipe Vieira, que viu sempre à frente do seu tempo, percebeu muito cedo que se alguém podia ganhar-lhe as eleições era Rui Costa. Mas o Rui Costa, se calhar, não se sentiu preparado para esse desafio, quis aprender o que era a vida e a gestão do clube. Rui Costa cumpriu um serviço muito importante ao conseguir unir a massa benfiquista e conquistar títulos importantes.

Luís Filipe Vieira é uma sombra para Rui Costa?

Acho que não. Luís Filipe Vieira escolheu uma estratégia errada e penso que até é um sol para Rui Costa. Se Luís Filipe Vieira tem dado uma entrevista a dizer “Rui, obrigado por teres seguido a nossa estratégia e o nosso caminho”, tinha dado o abraço de urso a Rui Costa. Este confronto é uma má estratégia de Luís Filipe Vieira. Fiquei espantado com isso, porque ele sempre foi muito inteligente, muito rápido em perceber a realidade, e não percebeu que a realidade tinha mudado do ponto de vista dele. Ele foi a uma Supertaça em que foi assobiado e acho que ele não percebeu que os adeptos do Benfica não gostaram do que se passou há um ano. Têm dúvidas e gostavam de ser esclarecidos, e a única coisa que pedem a Rui Costa é que haja o resultado daquela auditoria. Nós gostávamos de ter percebido se o Benfica foi ou não prejudicado e, hoje, eu não sei isso.

Considera ser de todo improvável a possibilidade de Luís Filipe Vieira voltar a ser presidente do Benfica?

Acho. É zero, zero, zero. Não há probabilidade de isso acontecer. Ele tem 73 anos e daqui a três anos terá 76, e julgo que não há nenhumas condições de ser candidato.

E o que achará Luís Filipe Vieira?

Acho que Luís Filipe Vieira está magoado, acha que ganhou eleições, acha que não devia ter saído e que foi apanhado num momento baixo. Se me perguntar se eu acho que ele devia ter sido detido no processo há um ano, tenho dúvidas. Se há matéria para ele deixar de ser presidente, também tenho dúvidas, mas a realidade mostra que ele deixou e isso, tendo acontecido, terminou um ciclo.

E Luís Filipe Vieira pensará que ainda pode voltar a ser presidente do Benfica?

Ele julga que foi o melhor presidente do Benfica até à data e, por isso, acalenta essa expectativa.

Rui Costa parece estar a dedicar mais atenção às modalidades. Será esta uma estratégia para precaver resultados menos bons no futebol?

Nenhum benfiquista tem dúvidas do que é sucesso desportivo. Sucesso desportivo no Benfica é ser campeão nacional de futebol. Uma época em que isso não aconteça não será uma boa época desportiva. Somos um clube ecléctico, gostamos muito das nossas modalidades, de competir em pavilhão e fora de pavilhão, em masculinos e femininos...

O Benfica está muito forte em femininos?

O Benfica acredita que o feminino é o futuro, é o presente, e gostamos muito desses resultados. Agora, o sucesso desportivo de um clube como o Benfica é ganhar o campeonato nacional de futebol e termos sucesso internacionalmente. Quando isso falha, não se pode classificar uma época desportiva de positiva independentemente dos títulos no basquetebol e voleibol masculino, no hóquei feminino ou em todas as outras modalidades, inclusivamente no futebol feminino. Para os sócios do Benfica, há um critério: primeiro, o futebol masculino; e, depois, as modalidades. Nestas estamos a fazer um excelente trabalho, especialmente no feminino, e acho que estamos no caminho muito certo no masculino.

Mas não respondeu à pergunta. Esta será uma estratégia de Rui Costa para precaver algum resultado menos bom no futebol?

Não, não. Eu acho que não. Investir quatro milhões de euros adicionais nas modalidades é um sinal de que o Benfica quer ganhar.

É o clube que mais investe nas modalidades em Portugal.

E deverá ser, porque somos o maior clube português, porque devemos ter o maior investimento e porque queremos ser dominadores.

Em relação à auditoria, esta não poderá ser uma espécie de arma a usar quando os resultados do futebol forem menos bons?

A auditoria está a correr há um ano, é muito tempo. O que eu gostava de saber hoje é se os jogadores contratados por Luís Filipe Vieira tiveram a validação dos departamentos de scouting, médico e psicológico. O que quero saber é que processo interno o Benfica seguiu na contratação dos jogadores, quais eram os processos naquela data e quais são os processos hoje. Existe uma nuvem se Luís Filipe Vieira prejudicou o Benfica ou não.

Qual é a sua opinião?

Não sei. Gostava que a justiça me dissesse isso e que isso fosse explicado rapidamente aos benfiquistas, e daí o facto de esta auditoria ser tão essencial.

Ainda no que diz respeito à auditoria, o mal de Luís Filipe Vieira não será sempre o mal de Rui Costa, já que o actual presidente também se encontrava na estrutura?

O bom e o mau dos dois está sempre interligado porque foram coniventes, no passado, um com o outro. Até agora, do que sabemos do Ministério Público, estamos a falar da esfera pessoal de Luís Filipe Vieira, não da esfera do Benfica.

A pergunta que lhe fiz foi sobre a auditoria e, por isso, insisto: o mal de Luís Filipe Vieira não será sempre o mal de Rui Costa?

Mas o mal de Luís Filipe Vieira, de Rui Costa ou de qualquer dirigente do Benfica nunca é o mal do Benfica. Se alguém cometeu algum erro, o Benfica tem de garantir que está disponível para o futuro.

Há pouco disse que aos 40 anos podia ter-se reformado, que é autónomo financeiramente... ou seja, tem todas as condições para se candidatar às próximas eleições do Benfica.

O Benfica tem a sua presidência bem entregue hoje. Não faço uma declaração de que “nem que Cristo desça à terra”: no dia em que o Benfica precisar de mim, em qualquer momento estarei disponível para ajudar. Contribuo hoje para o sucesso do Benfica através da Fundação do Benfica, é um sítio onde me realizo brutalmente. Desse ponto de vista, o meu contributo é dar o melhor que sei e aprendi ao longo da minha vida, e não o contrário. Enquanto o Benfica estiver bem-sucedido, sinto-me muito bem fora do Benfica; se o Benfica algum dia precisar da minha ajuda, estarei disponível para ajudar.

Mas tendo em conta as suas condições pessoais, que não são condições de que muitos associados disponham, já alguma vez foi sondado ou desafiado a pensar nessa possibilidade?

Luís Filipe Vieira fez 20 anos de presidência, período em que ganhou eleições frequentemente. Rui Costa foi o sucessor natural. E, quando olho para o futuro, espero um sucesso muito grande do Rui Costa, e isso significa o sucesso do Benfica.

Consegue ir ao Porto tranquilamente?

Neste momento, desde que passei a estar na CMTV, deixei de ter condições para ir ao Porto. Espero conseguir ir em breve, mas sei que não sou um adepto do Benfica bem-visto no Porto à data de hoje e, pela primeira vez em muito tempo, não fui ao último clássico. Desse ponto de vista, gostaria de me sentir mais bem acolhido no Porto. O Porto é uma cidade tremenda, mas cabe-me a mim, enquanto adepto do Benfica, defender o meu clube, e acho que há muitas coisas que se passam no FC Porto que não são certas. Cabe-me a mim denunciar e, se o custo disso é não estar tantas vezes no Porto como gostaria, aceito isso perfeitamente.

Qual foi a última vez que esteve no Porto?

Foi há oito ou nove meses. Por questões pessoais.

Pinto da Costa, em entrevista recente ao Porto Canal, visou-o dizendo que mostra ódio em relação ao FC Porto.

Não fomento o ódio. Adoro a cidade do Porto, respeito o rival e tenho grandes amigos do Porto e do FC Porto pelo país. E sou Mauro, e não Mouro. É com este e outro tipo de frases sem piada e carregadas de ódio que Pinto da Costa transmite o ADN do FC Porto, onde todos acham normal jogadores e adeptos festejarem insultando o Benfica, onde é normal intimidar tudo e todos. Pode ser idolatrado pelos seus, mas nunca será respeitado por todos. Por uma questão de educação, nunca responderei da mesma forma, o que seria fácil demais. Recebi, através das redes sociais, largas dezenas de ameaças nas 48 horas seguintes a essa entrevista – estratégia conhecida que funciona como cruzada de Dom Quixote, em que pretendem encontrar um inimigo externo que não existe. Continuarei a denunciar e a combater tudo o que não promova a transparência ou a verdade desportiva.

Pinto da Costa diz não entender como a Microsoft permite que um quadro seu esteja num painel televisivo para “respirar e injectar ódio no FC Porto”.

Estando perpetuado no poder, é normal que tenha uma percepção diminuída da realidade empresarial e da liberdade de expressão. Afinal, pasme-se, um funcionário ou até mesmo um alto quadro pode manter a sua liberdade e ser adepto de futebol! Estou disponível para, quando quiser, debater olhos nos olhos. Foi com honra que recebi esta medalha. Por isso, sigo livre e continuarei a dizer o que penso. Seguirei na defesa do Benfica.

Sente mesmo que o último campeonato, ganho pelo FC Porto, foi, utilizando palavras suas, a “Liga da farsa”?

Na última época conseguiu-se jogar um campeonato em que a mesa não estava equilibrada. Havia um declivezinho. Nos momentos maus do Benfica inclinou-se a mesa ao contrário e nos momentos maus do FC Porto inclinou-se a mesa ao contrário. Dando-lhe dois ou três exemplos: o FC Porto sofre um golo do Famalicão por fora-de-jogo de um centímetro que ninguém, do ponto de vista tecnológico, consegue dizer que é fora-de-jogo. É a escolha de um frame, feita à 2.ª jornada, num momento em que o FC Porto não está bem, e esse lance dá-lhe a vitória. O FC Porto está a perder no Estoril e é anulado um golo ao Estoril cuja invalidade ninguém vê. O Benfica sofre um golo, ao contrário, nesse mesmo campo, e o golo é validado. Não vou discutir se foi ou não bem validado. O mesmo golo, no caso do FC Porto, foi invalidado; no caso do Benfica, foi validado. A decisão devia ter sido a mesma. Se não é a mesma e o FC Porto é beneficiado e o Benfica é prejudicado, estamos a falar de momentos em que há uma farsa. Se o Benfica tem seis ou sete penáltis em casa que não são marcados – e não estou a discutir se os do FC Porto são bem marcados, a maioria são bem marcados –, depois, golos fora-de-jogo de outras equipas, golos incorrectamente invalidados ao Benfica... acho que houve uma farsa no campeonato português. Não estou sequer a discutir se o Benfica seria o campeão nacional, mas o Sporting estava a ganhar no Dragão e houve um conjunto de forças que invalidaram o resultado do Sporting. E o que me espanta são os adeptos do Sporting – por isso é que digo que há uma coligação azul e verde –, que não refilaram por isso ter acontecido.

Acha que os adeptos do Sporting assistiram serenamente ao que se passou?

Estavam embriagados por terem sido campeões e, como tinha passado muito tempo desde o último título, estavam em euforia permanente e não quiseram olhar.

O presidente do Benfica, seja qual for, deve ter preferencialmente uma melhor relação com o FC Porto ou com o Sporting?

O Benfica, em campo, não pode ter alianças com ninguém. Em 95% dos temas, o Benfica não deve ter alianças nem com o FC Porto nem com o Sporting. Somos rivais e é por isso que queremos ganhar em campo. Há dois ou três temas que devem ser discutidos com todos, por exemplo, a fiscalidade a aplicar com jogadores portugueses. Se queremos reter talento devíamos ter um regime fiscal diferente para o jogador português internacional, para podermos manter o João Félix, o Henrique Araújo, o Rúben Dias. E hoje não é possível a nenhum clube português lutar por manter os seus talentos devido ao regime fiscal em Portugal. Todos devíamos estar unidos nisso. O mesmo deve passar-se com aquilo que o Governo decidiu acerca da centralização dos direitos televisivos. Há dois ou três momentos em que os presidentes devem estar juntos na defesa do futebol nacional. Tudo o resto, acho que não é momento nem de abraços nem de beijos.

Não acha que os presidentes devem dar o exemplo e sentar-se lado a lado na tribuna?

Não, acho que não. Representar cada um dos clubes é querer vencer em campo e as amizades pessoais não ficam bem. Termos Pinto da Costa no casamento do filho de António Salvador e, depois, termos o negócio do David Carmo quando não acontece com o Benfica, isto trata-se de uma opção pessoal ou de uma opção desportiva? Tenho dúvidas.

Mas os dois presidentes que nomeou, ou outros, não podem ter boas relações pessoais?

Não acho que devam ter. Acho que deve haver uma separação total. Qualquer presidente de clube não deveria ser o melhor amigo de outro. Algo é estranho quando temos seis ou sete clubes que vivem enquanto satélites do FC Porto.

Está a falar de que clubes?

Não lhe vou falar dos seis ou sete, mas vou falar-lhe do “Portomonense”, que eu gosto de chamar dessa maneira. O presidente do “Portomonense” é accionista do FC Porto, os jogadores do “Portomonense” rodam de um lado para o outro. Não acho normal o Paços de Ferreira emprestar o seu melhor jogador ao FC Porto a meio da época. Estas são as coisas que levantam o cheiro a inverdade desportiva. Nesta história do David Carmo, que é um excelente futebolista e é a maior aquisição de sempre do FC Porto, aceitar uma cláusula em que o SC Braga ganha mais dinheiro se o FC Porto for campeão nos próximos cinco anos será uma cláusula certa ou errada?

Mas o Moreirense não tinha uma cláusula idêntica quando vendeu Chiquinho ao Benfica?

Não, muito diferente. Uma coisa é o acesso à Liga dos Campeões, para a qual o Moreirense não compete directamente, outra é ser campeão. Os jogadores do SC Braga que forem defrontar o Benfica à 31.ª jornada, se não estiverem na luta pelo campeonato, vão ter uma coisa muito presente: 500 mil euros é o ordenado dos jogadores do SC Braga durante três meses.

Mas e se o Benfica estiver a lutar pelo acesso à Liga dos Campeões e, na última jornada, enfrentar o Moreirense?

Não é a mesma coisa. Se o Moreirense estivesse em zona de descida, eu poderia concordar com isso. E se me pergunta se essa cláusula devia ter sido posta, digo já que nunca colocaria essa cláusula e que essas cláusulas não deviam existir no futebol português. Devia ser proibida pela Liga e pela FPF a existência de cláusulas de sucesso desportivo de outro clube.

O último campeonato, apelidou-o de “Liga da farsa”. E o próximo?

Espero que haja o aumento da verdade desportiva. E para que isso aconteça é fundamental que haja uma auditoria ao VAR nos últimos dois ou três anos. Precisamos de perceber o que se passa, o que traça as linhas do VAR. A segunda coisa essencial é que nalguns clássicos sejam nomeados árbitros estrangeiros. Há uma pressão muito grande sobre os árbitros nacionais. Temos visto coisas sobre as quais nos interrogamos. Não tenho mais dados do que o comum dos portugueses, mas tenho dúvidas. E outra coisa que entendo também ser fundamental é existir uma carga muito forte da verdade desportiva na componente anti-doping, antes e depois dos jogos.

Para estar a dizer isso é porque entende que há doping em Portugal...

Não sei se há. Se tivesse alguma prova denunciaria às instâncias competentes.

Tem suspeitas?

Tenho dúvidas... Há equipas que correm o dobro de todas as outras. Todos querem correr o mesmo e, quando uma consegue ter uma performance muito superior a outra, pergunto sempre porquê. Como tenho muitos anos de ouvir falar de muitas coisas, e de escutas que são públicas e não foram consideradas, gostava de garantir que não aconteciam no futuro.

Vamos ser claros. Está a falar de equipas que correm mais que outras. Uma delas é o FC Porto?

Uma delas é o FC Porto.

E as outras? O Sporting também é uma delas?

Não, o Sporting entrou nos últimos dois anos, muito influenciado pelo Antero Henrique, numa quezília desnecessária. Entrou numa lógica de criar atritos e confusões.

Tem dois filhos. Como lida a família com o seu crescente mediatismo?

Nem sempre é fácil, porque esta coisa das rivalidades nas idades mais novas não é fácil. Tenho uma filha com 16 anos e um filho com oito, e ambos sabem que o pai defende sempre o Benfica. Isso é uma coisa que os ajuda porque eles são benfiquistas, influenciados por mim. Gosto muito de estar com eles no estádio e nas modalidades, mas vão sofrendo com as participações do pai e há sempre alguém a comentar na escola.

E a sua mulher?

Também é benfiquista. A primeira prenda que dei à minha mulher foi ser sócia do Benfica e o primeiro sítio onde saímos foi o Estádio da Luz.

A sua mulher e os seus filhos estão preparados para o verem como presidente do Benfica?

Isso, acho que ninguém está. Diria que a minha mulher e os meus filhos estão preparados para me verem defender o Benfica.

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