“Lutar, Lutar, Lutar”: Atlético Mineiro e a relação visceral com os adeptos

Documentário retrata a história do Galo, da cidade de Belo Horizonte, desde as origens do clube, que tem uma das maiores massas de adeptos do futebol brasileiro. O relato mistura também a ditadura militar, dois campeonatos injustamente perdidos e a doce vingança, décadas depois, contra o São Paulo e o Flamengo.



São quase duas horas bem gastas a ver de uma ponta à outra a história do Atlético Mineiro, um dos maiores clubes do Brasil. Os documentários sobre futebol entraram recentemente no mainstream, muito popularizados pelas plataformas de streaming (este, que acabou de se estrear no Curtas Vila do Conde, pode agora ser visto em online.curtas.pt a troco de 2,4€), e “Lutar, Lutar, Lutar” é mais um do género, mas que marca a diferença pela perspectiva da bancada e da emoção que os adeptos sentem, relatam e transmitem. Quem não derramar uma lágrima ficará, pelo menos, com os olhos humedecidos, pois a relação visceral entre o torcedor e o clube, neste caso o galo, passa do ecrã para o espectador sem rodeios e sem receios.

A história é muito linear: da fundação do Atlético até aos tempos mais recentes. E esse foi logo o primeiro obstáculo a superar pela dupla de realizadores Sérgio Pires e Helvécio Marins Jr. Este último explicou à OLÁ! isso mesmo. “Foi um desafio muito difícil, condensar mais de 100 anos em menos de duas horas”, disse, gracejando ainda: “Dava para fazer uma série com 200 episódios.” Contudo, não foi o único ponto a superar. A riqueza de conteúdos também deu muitas dores de cabeça: “É preciso haver uma narrativa. Num texto ou num livro, há altos e baixos. Como num filme. Mas a história do Atlético é tão cheia de pontos altos e emoção que foi difícil esse desenho, essa curva dramática do filme. Eram tantas partes que, em termos de dramaturgia, não é bom. É melhor duas ou três partes, com a emoção alta.”

A popularidade do Atlético é evidenciada desde o início. O primeiro clube de Belo Horizonte (estado de Minas Gerais), fundado apenas 11 anos após a própria cidade, juntou o tecido social. Do pobre ao rico, do negro ao branco, homens e mulheres. O papel de D. Alice Neves é destacado. Considerada por muitos como a primeira presidente não oficial do galo, ajudou os meninos a terem uniformes e sítio para jogar e criou uma claque feminina para apoiar.

A semente do amor estava colocada logo no início. E, desde então, só floresce. Ser atleticano é saber sofrer, aguentar, desesperar mas, acima de tudo, é amar o clube, aconteça o que acontecer. Porque, mais cedo ou mais tarde, a vingança é servida. Quente ou fria? Pouco interessa. É saborosa. Que o digam os que viveram os títulos perdidos em 1977/78 (São Paulo) e 1980/81 (Flamengo) e viram o galo derrotar os paulistas na Copa Libertadores de 2013, que viriam a conquistar de forma épica. Ou a reviravolta histórica nas meias-finais da Copa do Brasil (2014) contra o Flamengo (derrota por 0-2 na primeira mão e goleada de 4-1 no segundo jogo). Mas para Helvécio Marins Jr. há outro momento fundamental: a descida de divisão em 2005. “Ainda me emociono com o filme cada vez que vejo, porque é parte de nós. Geralmente, quando a equipa é despromovida há um afastamento dos adeptos. Nós, não. Parece que a paixão pelo clube aumentou. O clube é o que é hoje por causa daquela queda. Ninguém teve dúvidas em abraçar a equipa”, referiu.

A emoção contada pelo realizador é outra característica deste documentário. É muito provável que o espectador fique arrepiado e com as lágrimas a espreitar no canto dos olhos. Há dois casos paradigmáticos: o apoio dos adeptos a Ronaldinho Gaúcho e à mãe do astro, que estava doente, ou o penálti defendido pelo guarda-redes Victor na meia-final da Copa Libertadores, frente ao Newell’s Old Boys, após um inexplicável apagão da iluminação do Estádio Mineirão, que deixou o presidente Alexandre Kalil em lágrimas e a gritar com a torcida atleticana.

“A emoção faz parte do nosso ADN. Nas entrevistas, foi uma choradeira danada. Às vezes chorávamos logo na primeira pergunta. É tudo muito dramático, multiplicado por cinco ou dez”, explicou Helvécio, que também revelou que a paixão pelo galo o levou a abdicar do trabalho, a certa altura, durante as gravações do “Lutar, Lutar, Lutar”. “Na meia-final da Copa do Brasil com o Flamengo, nós estávamos no estádio com a equipa de gravação. Foi um dia de um director só. Eu não consegui trabalhar. Avisei que não queria a câmera, que ia deitá-la fora. O produtor disse-me para pelo menos ficar com o rádio. Se acontecesse algo, eu podia decidir. E aconteceu. A bateria do rádio do Sérgio acabou. Disseram-me que tinha mesmo de decidir. Disse-lhes um palavrão e que, por mim, podiam não gravar nada, que eu não queria saber de nada se o galo não ganhasse. Claro que gravaram na mesma. No fim, pedi desculpa, mas na altura estava 3-1...”, rematou, emocionado.

$!“Lutar, Lutar, Lutar”: Atlético Mineiro e a relação visceral com os adeptos
Ler mais
PUB