Júlio Magalhães: “Nunca tive conhecimento dos emails do Benfica”

É um dos rostos mais conhecidos da televisão nacional. Dá a cara na CNN e a voz na Rádio Observador. Para trás ficaram oito anos como director-geral do Porto Canal, cargo que vai levá-lo a julgamento devido ao caso dos emails do Benfica. Como explica ao NOVO, esteve sempre à margem desse processo, embora entenda as “críticas legítimas” de que é alvo. Tio de um hoquista do Sporting, garante que podia ter tido futuro no basquetebol.



É verdade que se perdeu um notável jogador de basquetebol?
É, é um bocado.

Conte lá.
Eu joguei basquetebol já em Angola, onde estive até aos 13 anos. Quando vim para o Porto tinha um primo que tinha vivido comigo em Angola e já jogava no FC Porto. E eu fui. Queria era jogar basquetebol. E era, de facto, bom jogador. Houve um jogo em que fiz 122 pontos...

Cento e vinte e dois ou 128?
Cento e vinte e oito pontos, sim, num só jogo. Dizem que é recorde do mundo. Calhou tudo bem, era um jogo em que o adversário era fraco. Os meus amigos metiam-se comigo a dizer “estavas a jogar contra uns miúdos, um adversário fraquinho”. Isso estava, mas a minha equipa tinha dez jogadores e eu é que marquei os pontos.

Que idade tinha na altura?
Catorze anos.

E contra que equipa fez os 128 pontos?
Era o Fluvial. Eu jogava muito bem. Cheguei a ir à selecção nacional nas camadas jovens. Fomos campeões nacionais em todos os escalões, tínhamos uma grande equipa, mas apanhei a fase de transição do basquetebol para a profissionalização. Não se aproveitavam jogadores das camadas jovens, queriam era brasileiros ou americanos na equipa sénior. E eu, nessa altura, estudava e já era jornalista. Não podia deixar os estudos ou o jornalismo para me dedicar ao basquetebol. Tinha de tomar uma opção. Decidi continuar o jornalismo e os estudos, já era jornalista do Comércio do Porto.

É uma mágoa que fica?
É, eu podia ter feito uma carreira no basquetebol. Era bom jogador, era um jogador muito influente na equipa. A minha grande vantagem é que jogava em todas as posições. Não havia jogadores altos em Portugal. Eu vinha de Angola e era o jogador mais alto, mas tinha uma técnica muito apurada. Normalmente, os jogadores altos não tinham uma boa técnica. Joguei a base, a extremo, a poste, marcava muitos pontos e podia ter feito carreira. E não fiz também porque não era bom profissional. Gostava muito de jogar e pouco de treinar. Depois tinha uma vida que era ir estudar, ir trabalhar, ir namorar... Às tantas tive de comprar uma mota para ir a todos os sítios. Tenho mágoa de não ter continuado mas, se não tivesse tomado essa opção, não tinha feito a carreira que fiz no jornalismo.

Nasceu no Porto e com sete meses foi para Angola. Que recordações tem de África?
As melhores, uma infância toda feita ao ar livre, magnífica, aberta. Angola era muito diferente de Portugal. Aliás, quando cheguei a Portugal, depois do 25 de Abril, isto estava muito atrasado em relação a Angola. Nós vivíamos ao ar livre, à vontade... Tive uma infância magnífica.

Que os seus filhos não tiveram.
Não tiveram, claro. Hoje, a diferença que há para o meu tempo de infância aqui em Portugal é brutal. Quando cheguei cá era uma pessoa admirada na escola, aquela malta que estudava comigo via em mim quase um extraterrestre. Eu andava de calções - aqui, ninguém andava de calções -, era o tipo que jogava às modalidades todas, basquetebol, andebol, futebol. E aqui fazia-se a vida escola-casa, casa-escola.

Em Portugal era uma vida muito contida?
Era uma vida contida e no Porto, então, nem se fala. As pessoas viviam muito em casa e foi um choque essa transição de Angola para cá. O que eu vi cá era, de facto, uma sociedade mais atrasada que a de Angola.

Regressa em 1975 a Portugal e é essa experiência que está na forja do primeiro romance que edita, em 2008, “Os Retornados - Um Amor Nunca Se Esquece”.
Escrevi uns livros sobre desporto e depois fiz um, com o José Carlos Castro, juntamente com o prof. Marcelo, sobre as noites de domingo. Na altura estava na moda pedir a pessoas que apareciam na televisão para escrever livros. E houve uma editora, a Sofia, da Esfera dos Livros, que me desafiou. “Atenção, não sou escritor, sou jornalista”, foi o que lhe disse. Como não sou escritor, o meu livro tinha de ser um género, uma grande reportagem, contemporâneo e de carácter jornalístico. Escolhi esse tema porque me dizia respeito. Os quatro livros que escrevi depois são todos baseados em histórias verídicas. Não são livros de ficção. São tudo assuntos de histórias que aconteceram.

Este foi o primeiro.
Havia muitos livros sobre a guerra colonial e não havia nenhum sobre as pessoas que vieram de África. Em um ano, Portugal teve uma operação aérea quase inédita no mundo, que foi retirar quase um milhão de pessoas de África. E que, de repente, vieram para aqui sem nada. Pessoas a viver em parques de campismo e que ocuparam hotéis. Esta é uma memória. E porque não havia livros sobre os retornados? Porque as pessoas que tinham vindo de África não queriam falar disso. Quiseram foi esquecer. Perderam tudo, recomeçaram aqui uma vida e não queriam falar.

Foi o que aconteceu com a sua família?
Foi. O meu pai, por exemplo, não falava disso. É um processo semelhante ao dos emigrantes. O meu terceiro livro foi sobre os emigrantes que foram para França. E como passaram humilhações enormes e fizeram muitos sacrifícios, nunca quiseram contar aos filhos as privações e as humilhações que passaram. E consegui convencer muita gente que conhecia a contar uma história e pronto... foi o primeiro livro que se fez de retornados em Portugal, por isso é que teve um grande sucesso. Não foi porque o livro é bom ou porque está muito bem escrito, mas sim pelo carácter inédito. Milhões de pessoas que viviam aqui e foram confrontadas com um choque daqueles ao receberem gente. Essa transição abriu a sociedade portuguesa a outros mundos, a outros horizontes. Foi isso que mudou muito Portugal.

Deu-lhe gozo?
Foi o livro que mais gozo me deu.

Andou pela imprensa e pela rádio até se decidir pela televisão. Esteve dez anos na RTP, de onde se mudou para a TVI. Porquê?
Porque o José Eduardo Moniz me convidou. Eu estava na RTP Porto e não tínhamos grandes desafios. Ou seja, eu fazia o “Jornal da Tarde”. Comecei com o “Programa da Manhã” - o primeiro programa que o Manuel Luís Goucha faz em televisão é comigo. Das sete ao meio-dia. Depois fazia o “Jornal da Tarde” e aquilo não tinha mais desafio nenhum. Era confortável porque estava na função pública, ganhava o meu ordenado, estava a fazer o jornal da uma e pronto. Podia ter ficado por ali.

Ir para a RTP Lisboa não era opção?
Era difícil na altura. Até que o José Eduardo Moniz me convidou para ir para a TVI. Estive um mês para decidir se me mudava ou não. Porque a TVI não existia na altura. Existia, mas estava em grandes dificuldades, não tinha audiências e, portanto, deixar o conforto da RTP para entrar numa coisa que não se sabia o que ia ser, por muito que soubéssemos que o José Eduardo Moniz era um porto seguro em projectos... não era a mesma coisa.

Já tinham trabalhado juntos na RTP?
Sim, ele em Lisboa e eu no Porto. Ele convidou-me e eu, ao fim de um mês, quase sem dormir, a perguntar a 500 pessoas se devia ir ou não, decidi ir. E a família sempre a apoiar. Mas, na altura, também estava um bocado receosa. Foi a melhor decisão que tomei na minha carreira. A TVI tornou-se um sucesso tremendo. Crescemos todos muito e foram 12 anos magníficos em que a TVI conquistou a liderança, muito à conta do “Big Brother”, na altura.

O “Big Brother” aparece em 2000.
E ainda hoje nos perguntamos como teria sido o sucesso da TVI sem o “Big Brother”. Mas foi.
Tem dúvidas?
Tenho. A TVI teria sido a mesma coisa sem aquela explosão do “Big Brother”? Não sei. Mas quero realçar que houve muito mérito do José Eduardo Moniz e da excelente equipa que ele formou.

Durante muitos anos contracenou com Marcelo Rebelo de Sousa aos domingos. Quando se apercebeu de que estávamos na presença do futuro Presidente da República?
Olhando aqui à distância, quando comecei a conviver mais foi no segundo momento. Há um momento inicial com ele, que depois quebra e ele vai para a RTP. Houve um problema político e ele foi para a RTP. Quando vou para director de informação da TVI, eu e o Bernardo Bairrão, que era administrador, fomos buscá-lo outra vez e convidaram-me para fazer o jornal com ele, sozinho, aos domingos. E é a partir daí que me apercebo. E embora ele diga sempre que não, porque já tinha experiência suficiente para noutros tempos dizer que nem que Cristo descesse à terra...

Perguntava-lhe longe das câmaras?
Perguntava e ele dizia sempre que não.

Mas já estava desconfiado?
Já, já estava. Porque tudo o que Marcelo fazia na sua vida, no dia-a-dia, nos momentos em que estávamos a jantar, tinha sempre uma preocupação muito grande de não meter a pata na poça. O professor não queria nunca ser apanhado em contrapé. Em nada. Os políticos, quando decidem ser primeiro-ministro ou Presidente da República, começam a ter uma vida em que têm cuidado na forma como gerem o seu dia-a-dia. O professor tinha muito cuidado com a imagem, era muito afável com toda a gente.

E regista essa mudança quando?
Quando ele regressa à TVI, em 2008. Comecei a ter muito contacto com ele, tornei-me muito amigo dele e fui-me apercebendo de que tinha isso em mente, embora ele não tivesse a certeza de conseguir. Noutros tempos políticos, esteve à hora errada no sítio errado. Podia ter acontecido o mesmo. Mas esteve no sítio certo à hora certa e acabou por ser Presidente. E eu fiquei contente porque, tirando a parte mais de estratégia política, que é uma área que não domino, tenho o prof. Marcelo como uma pessoa absolutamente impoluta e que gosta das pessoas, que vai ao país todo e gosta de ser mesmo o Presidente de todos os portugueses.

Não acha que, por vezes, há um certo exagero? O último exemplo foi o do beijinho na barriga da senhora grávida.
Acho que sim. Fazendo uma análise fria, todos nós dizemos que é um exagero. Eu acho é que o professor tem outra percepção. Aquilo que são as críticas, a estratégia política dos políticos, dos jornalistas, dos comentadores, dos analistas... ele acha que para o povo, e para as pessoas, isso não é importante. Numa aldeia qualquer do país inteiro, se o Marcelo lá for é que é importante; depois, o que digam sobre se ele não devia ter feito uma declaração política ou outra mais ou menos assertiva... Ele vive em função sobretudo das pessoas, da população, da gente, dos portugueses. Uma das coisas que me impressionavam nos comentários dele é que ele andou dez anos no comentário político na televisão a dizer mal de tudo e de todos. Às vezes, até lhe perguntava: “Ó professor, não é seu amigo?” E ele respondia-me: “Pois é, mas eu sou comentador e amigo é um amigo.” Ele também tem isso bem definido na cabeça dele agora, como PR. Ser criticado por amigos, ex-militantes ou ex-companheiros de partido ou ex-companheiros de faculdade é uma conta; os portugueses são outra conta.

A senhora grávida ficou muito contente.
Pois ficou. Mas os comentários e as análises de especialistas, comentadores e jornalistas ligados à área não foram nada favoráveis, bem pelo contrário. Ele, certamente, valoriza isso, mas, para o cidadão comum, isso não é o importante. E creio que valoriza mais a opinião que a população tem dele do que as críticas dos analistas e até dos seus pares da política, pois tem isso muito bem definido. Quem está num cargo público está sempre sujeito a escrutínio permanente.

Marcelo Rebelo de Sousa termina o mandato em 2026. Ainda pensa em reeditar o programa?
Não, não. O que eu gostava mesmo não vai acontecer porque, daqui a quatro anos, sei lá onde estou. E ele também já garantiu que depois de deixar a Presidência vai remeter-se ao silêncio.

Acha que vai conseguir?
Tenho dúvidas. [risos] Mas sim, gostava de fazer o último jornal da minha carreira com ele a comentar.

Em 2012 é anunciado como director-geral do Porto Canal. Estava saturado da TVI, das viagens para Lisboa?
Nada disso. Mas não gosto de ficar muitos anos no mesmo sítio. Habituei-me a ver colegas meus, com idades mais experientes, a arrastarem-se pelas redacções das televisões. Chegam a uma determinada idade e já não contam. Pessoas a que me habituei a ver desde miúdo, que nunca pensei trabalhar com elas e, de repente, eu era mais importante que elas na redacção. Disse sempre para mim: “Eu não quero chegar a isto.” A memória está a perder-se na redacção. Hoje, o que interessa é gente mais nova, uma cara laroca que fale bem e a malta que tem memória, jornalistas mais experientes, quase que mendigam fazer programas ou estarem no ar. E eu vi muitos. A determinada altura, pensava: “Sou mais importante que este indivíduo que tem uma carreira de televisão extraordinária.” Portanto, acho que a mudança é decisiva porque, a partir do momento em que nos mantemos muito tempo num sítio, a determinada altura, o que acontece? Pagam-me ao fim do mês, paciência, e fico aqui.

Sentiu que estava a perder importância na TVI?
Não, senti duas coisas nessa altura. Estava há 12 anos a fazer Porto-Lisboa, porque nunca deixei de viver no Porto. E eu tinha dito sempre que tinha um sonho. Achava que o Porto e o Norte deviam ter um canal de televisão generalista com informação e programação. Porque há 20 canais de televisão em Lisboa e não havia nenhum fora de Lisboa. Eu sempre disse que a culpa de o Porto e o Norte não terem uma televisão era do Porto e do Norte, não era de mais ninguém. Após 12 anos a vir para Lisboa, com a minha família no Porto, há um desafio que me é feito na altura pelo FC Porto...

Quem lançou o desafio?
O Antero Henrique, suportado pela administração do FC Porto, diz que quer que eu vá para o Porto Canal. E eu disse: “Atenção, porque eu não vou para um canal de clube, não vou ser director de um canal de clube.” Ao que me foi dito que o objectivo era fazer um canal generalista, com conteúdos do FC Porto balizados em antena. E assim foi. O desafio era grande. Tinha a oportunidade de fazer o canal que sempre quis, a oportunidade de regressar ao Porto. Era um risco grande, porque era um canal pequeno. E eu fazia o jornal mais visto do país - não por minha causa, mas por causa do prof. Marcelo. Enfim, tinha uma visibilidade grande e, portanto, aceitei o desafio. Foi uma decisão de que não me arrependo nada, pese embora estes dois últimos anos não tenham corrido tão bem, mas, nos oito anos que lá estive, o Porto Canal tornou-se um canal generalista.

Sente que conseguiu concretizar esse objectivo?
Conseguimos. O Porto Canal tornou-se um canal muito importante para o Norte e, do Norte, para o país. Ia lá o Presidente da República, o primeiro-ministro, economistas, todas as áreas da sociedade estavam representadas no Porto Canal. Tinha os programas de história, programas de música clássica, de entretenimento e tínhamos informação. Tudo independente. Tínhamos uma programação generalista e uma informação que eu achava que fazia serviço público. Não estávamos obcecados com audiências porque não era esse o objectivo. Tínhamos um canal generalista. O Porto Canal tornou-se um canal onde fizemos noites eleitorais, campanhas eleitorais, entrevistámos todos os candidatos às legislativas, às autárquicas.

O que se passou nos últimos dois anos?
A questão dos emails teve grande impacto. Começou então a sofrer alterações que tinham funcionando lindamente até ali. Estava tudo devidamente balizado, os conteúdos do FC Porto tinham os espaços que pediam - funcionam nas instalações do Dragão com chefias e redacção própria -, e o Porto Canal tinha as suas instalações em Matosinhos. Eu limitava-me a dar os horários que eles solicitavam em grelha ou de programas, transmissões de jogos ou entrevistas. A minha função em relação aos conteúdos do FC Porto era apenas essa. De resto, tudo era decisão da estrutura que tinha. Com o sucesso dos emails, entenderam que os conteúdos do FC Porto deviam ter mais espaço em antena. Foi isso que mudou e, como são os proprietários do canal, tiveram toda a legitimidade e autoridade para o fazer.

Então nunca era informado sobre os conteúdos dos emails sobre o Benfica que iam ser revelados nos programas?
Nunca vi nenhum email, nunca fui informado nem nesse programa nem em todos os outros referentes aos conteúdos do FC Porto. Eu só dava os tempos de grelha ou eles indicavam os jogos ou programas que tinham para colocar em grelha, nada mais. Os conteúdos do FC Porto tinham estrutura própria.

Mas sendo director do Porto Canal deve ter tido alguma reunião em que lhe foi comunicado que iam começar a divulgar emails do Benfica?
Não fui informado, nunca tive conhecimento e, dentro do que estava balizado, não tinha de ter. Eram conteúdos próprios, com estratégia que a estrutura desses conteúdos definia. E como teve um impacto enorme, foram registadas as maiores audiências de sempre do canal com esses programas. A partir daí, a estrutura ligada aos conteúdos FC Porto entendeu que devia então fazer um caminho de programação do canal mais ligado ao clube e à cidade. E, nisso, foram transparentes comigo. Era esse o novo caminho e, portanto, o motivo que me levou para o Porto Canal tinha acabado ali. Passava a ser um canal com estratégia mais definida dentro dos objectivos do clube.

Foram transparentes, quem?
A administração.

Jorge Nuno Pinto da Costa?
Não. As minhas conversas foram sempre com o administrador que tutelava o canal, embora a decisão fosse de comum acordo de toda a administração. Perguntaram-me qual era a minha opção perante as novas ideias e decidimos de comum acordo que era sair. Nada mais. A decisão deles era legítima porque eram e são os proprietários.

Disse nessa altura que foi uma saída civilizada, não amigável.
Sim, estaria a mentir se dissesse que fiquei satisfeito. Foi um duro golpe numa ideia que sempre tive, que era o Porto ter um canal que saísse da cidade para o país e para o mundo. Um canal generalista que fazia serviço público, com conteúdos variados, tendo na antena conteúdos balizados do clube. Conseguimos fazer isso durante oito anos, um projecto que as pessoas apreciavam e até elogiavam. Tinha deixado a TVI para abraçar esse projecto e senti ali que, se calhar, eu é que tinha falhado. Na informação dávamos notícias de todos os clubes, cheguei até a ter comentadores que eram adeptos de outros clubes, até do Benfica em temas generalistas e, verdade seja dita, a administração nunca me colocou restrições nem se meteu no meu trabalho e nas minhas decisões, como eu não me metia nos conteúdos FC Porto. Estava tudo devidamente definido.

Como director do canal, independentemente de não ter sido consultado, concordou com a estratégia de divulgar os emails?
Talvez pudessem ter sido tratados num contexto de informação, mas a opção não foi essa porque entenderam que, juridicamente, estavam salvaguardados. A questão, aqui, não é estar de acordo ou não com os emails. Isso não me diz respeito. Basicamente, tiveram sucesso, os adeptos gostaram, e alteraram o perfil do canal. Fiquei desolado por não ter sido capaz de convencer de que o projecto de um canal generalista era o melhor para a cidade e para o clube. E, aí, fui eu que falhei. Hoje sinto-me altamente penalizado por estar envolvido num processo destes e a ver críticas que são legítimas, porque as pessoas não têm conhecimento de como tudo funcionava.

Entretanto, o juiz decidiu levá-lo a julgamento juntamente com Francisco J. Marques e Diogo Faria...
Não sei como estou metido no mesmo processo. Ou melhor, sei. Porque era director do canal na altura e isto é o que acontece a todos os directores de canais de televisão, jornais ou rádio quando há um processo. O director, por inerência, também é responsabilizado. Não pude, por estratégia da defesa, prestar declarações na inquirição nem ir ao debate instrutório, mas vou ter agora oportunidade de o fazer no julgamento. A única coisa que posso dizer é que ando de cabeça erguida e estou de consciência absolutamente tranquila, embora muito penalizado, mas faz parte da vida.

Mas, como director, não podia depois ter travado o programa, uma vez que foram vários?
Essa é uma questão que terei de explicar no julgamento. Percebo que essa pergunta seja legítima, que as críticas possam ser legítimas, pois são feitas com os dados de que as pessoas dispõem. Sinto-me, neste processo, muito isolado e suportado apenas pela minha palavra e pela minha carreira. Acho que tenho uma carreira justa, uma boa carreira. Não é uma carreira extraordinária, não tenho essas ilusões, mas é uma carreira sólida e justa. Nunca me deixei iludir pelas luzes da ribalta e a melhor prova disso é ter deixado a TVI e o jornal que apresentava com o actual Presidente da República para regressar ao Porto e assumir o Porto Canal. Arrisquei sempre muito e tive sempre a noção de que a minha carreira foi 80% sorte e 20% mérito meu. Sinto-me agora penalizado, mas, repito, de consciência tranquila, pois nunca faltei ao respeito a ninguém nem a nenhum clube. Recebi muitas mensagens solidárias de amigos meus portistas, mas também de amigos meus benfiquistas.

José Eduardo Moniz foi um desses nomes? Na altura era dirigente do Benfica.
Não, nem tinha de ser. Como deve calcular, não é uma situação fácil. Eu era o director do canal e, neste tipo de processo, os directores, como disse, por inerência, também são responsabilizados.

Só para acabar o dossiê FC Porto: como ficaram as relações com Pinto da Costa e restante estrutura? Tem uma boa relação neste momento?Não, nunca mais tivemos relação.

Houve um corte?
Sim, repare... Eu saí, ponto final. Segui o meu caminho. O FC Porto segue outro, com grande sucesso, como se tem visto, mas nunca mais tive contacto com ninguém. Nunca mais mesmo.

Regressa a uma televisão generalista através da CNN. E começa logo com aquela entrevista a João Rendeiro.
É verdade.

Quer explicar os contornos dessa entrevista?
Soube três dias antes. O Nuno Santos ligou-me a dizer que tinha uma entrevista e, na altura, sim, disse-me logo quem era, que ainda não tinham a certeza se iam ter a entrevista, mas estavam a trabalhar para isso. E depois, no sábado de manhã, o Nuno Santos voltou a ligar-me a dizer: “Logo tens de estar cá à meia-noite, temos a entrevista.” E eu, nesse sábado, vim do Porto para Lisboa e a entrevista foi gravada à uma hora de domingo. Eu não falei com João Rendeiro nunca, estava tudo mantido num absoluto secretismo. A primeira vez que o vi foi quando ele me apareceu do lado de lá e estava a testar o microfone e a imagem.

Nunca soube onde ele estava?
Nada. Não fazia ideia. Ninguém fazia. Mas a entrevista não é mérito meu. Eu só fui convidado para fazer a entrevista.

Agora está na CNN e na Rádio Observador. É um duplo desafio?
Um duplo desafio. Sou colaborador na CNN e na Rádio Observador. Em boa verdade, não estou em lado nenhum, sou um homem livre. Na CNN sou só colaborador durante uma semana, de segunda a sexta-feira, e faço o “Jornal das Nove”. E na outra semana não faço nada, não tenho ligação nenhuma. Na Rádio Observador sou colaborador e faço todos os dias o programa das 07h00 às 10h00. Eu nunca fui um homem de rádio. Estive nos jornais, onde comecei, passei para a Rádio Nova e, depois, para a RTP. Destes três, o que eu menos gostava era da rádio, porque achava que não tinha jeito nenhum. E acho. Não sou um homem de rádio.

Mas ganhou um gosto diferente.
Ganhei, porque isto é um programa da manhã que tem todo o género de informação. Obriga-me a estar por dentro do desporto, da economia, da política, da sociedade, tudo. Damos opinião, damos notas, faço perguntas, temos convidados em estúdio. É um programa de informação que tem também alguma dose de boa disposição. E, depois, faço-o com três profissionais magníficos; a Maria João Simões, a Carla Jorge Carvalho e o Paulo Ferreira. Fazemos uma bela equipa. E, depois, a estrutura da rádio, a direcção do Observador, a forma como eles trabalham é magnífica. E estou encantado com o Observador como estou com a CNN, onde tenho um jornal, que é o das 21h00, e que é feito uma semana por mim e outra pela Judite [Sousa]. Temos ali um cunho mais pessoal. Ou seja, não é um jornal tão voltado para as audiências, mas um jornal mais de autor, mais de análise, que era uma coisa que nunca tinha feito em televisão.

É o Júlio que define o alinhamento?
Tenho um editor e os dois definimos o alinhamento. O editor tem aqui uma importância até maior do que eu, porque está lá o dia todo. É um jornal de actualidade, mas também de análise, de reflexão, de entrevistas, e que me dá um gozo tremendo porque andei muitos anos a fazer muitos jornais em que o que interessava era a actualidade. Chegar a esta idade e poder fazer um jornal destes é um privilégio. A CNN tem sido um relativo sucesso. A direcção tem conduzido bem os destinos da CNN e está a ser uma boa surpresa em Portugal, achando eu que em Portugal se faz boa informação. Não acho que a CNN veio revolucionar e ser uma coisa que não se fazia em Portugal. É diferente, tem conteúdos também muito americanos. A guerra também deu uma ajuda preciosa. Mas a SIC Notícias, a RTP3 e a CMTV também fazem uma excelente informação. A concorrência é muito grande e de muito boa qualidade.

Tem um sobrinho que joga hóquei em patins no Sporting, o Henrique Magalhães. Não me diga que volta e meia está a torcer pelo Sporting?Quando ele não joga contra o FC Porto. [risos] É campeão do mundo, joga na selecção, joga no Sporting. Ele fez a formação no FC Porto, depois foi campeão no Valongo e, depois, esteve no Corunha, no Sporting, na Oliveirense e, agora, no Sporting outra vez. E nós temos muito orgulho nele, porque é um atleta de eleição. É um atleta muito querido dos treinadores, dos colegas e dos adeptos e foi campeão do Mundo pela selecção nacional naquele célebre campeonato em Espanha. É filho do meu irmão e temos um orgulho grande, e é engraçado ter esta perspectiva de ter ali um sobrinho que é de outro clube. Eu gosto mesmo é de desporto, não sou aquele adepto fanático. Gosto que o FC Porto ganhe mas, se o FC Porto perder ou empatar, não vou deixar de comer ou ficar triste como a noite.

Chegou a noticiar no seu jornal aqueles incidentes no Pavilhão da Luz em que o seu sobrinho esteve envolvido?
Não gostava de ter dado essa notícia. O Henrique é um atleta exemplar, um rapaz exemplar, e eu falei com ele. “Ó Henrique, então como é que perdeste a cabeça?” “Tio, olhe, nunca me tinha acontecido uma coisa destas. Foi um mau momento que eu nunca tive e aconteceu agora”, respondeu-me ele. Depois pediu desculpa num comunicado. E são coisas que acontecem. Mas isso não mancha a carreira dele. Todos os atletas têm estes momentos difíceis.

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