José Manuel Freitas: “No dia em que decidir arrumar as botas direi qual é o meu clube”

Com (quase) 47 anos de jornalismo, José Manuel Freitas, jornalista e comentador televisivo na área do desporto, nesta entrevista ao NOVO faz a radiografia da sua profissão, do mundo obscuro do desporto e do futebol em particular. Aponta o dedo ao Governo no que concerne aos últimos acontecimentos mais violentos em estádios e pavilhões, mas acusa também “pessoas que aparentam ser de bem mas não passam de arruaceiros”.

Nasceu em Lisboa, em 1954, mas passou grande parte da infância em Angola.
Vivi lá seis anos. Fiz a transição da adolescência para homem. Fui para Angola em 1970 e voltei em Maio de 1975, fez agora 47 anos.

Porque foi para Angola?
Os meus pais, infelizmente, eram separados. A minha mãe, Maria José da Guia, era fadista profissional. Foi cantar para Angola, para Luanda. Aproveito para dizer que os melhores tempos da minha vida foram em Angola, porque a liberdade que nós tínhamos... Nessa altura, não havia esta história de os jovens não poderem trabalhar. Comecei a trabalhar aos 16 anos e levantava-me todos os dias às seis da manhã porque trabalhava num escritório de uma grande empresa de automóveis.

Fazia o quê nessa empresa?
Era orçamentista de automóveis. Chegavam lá os carros batidos, com os peritos, e eu fui ensinado por um senhor de nome Aníbal Gonçalves, de Arganil, que foi uma espécie de pai para mim no mercado de trabalho. Ensinou-me o que era preciso fazer e, depois, eu assumi aquela responsabilidade. Aos 18 anos fiquei como responsável nessa área muito específica, que era os orçamentos de automóveis. Portanto, a minha mãe foi para lá cantar. E houve um dia em que eu e o meu falecido irmão e a minha falecida avó fomos também para lá. Foi um tempo hiperfeliz mas, depois, os movimentos de libertação quiseram resolver rapidamente com Portugal para ver quem iria ficar a mandar no futuro país. Tudo aquilo que está a acontecer na Ucrânia faz-me lembrar situações que vivi em Luanda, que não foram fáceis, e, como eu, milhares de pessoas acabaram depois por vir para Portugal. A minha mãe veio depois de mim, porque eu vim mais cedo. O meu pai foi a Angola, tinha feito um livro, e eu vim com ele. Enfim, uma história de vida...

E quando decide ser jornalista? Quando veio para Portugal já tinha tomado essa decisão?
A história conta-se facilmente. Por uma questão familiar, os meus pais voltaram a reatar a sua ligação. Eu tinha o bichinho do jornalismo dentro de mim, mas não sabia. Grande parte do vencimento que tinha em Angola era para comprar os jornais desportivos de Portugal. E custavam bastante. A Bola e o Record levavam-me grande parte do vencimento e eu devorava tudo, pela relação de proximidade profissional do meu pai, Amadeu José de Freitas, que nunca foi reconhecido por este país - e essa é uma questão que nunca perdoarei a estas pessoas todas. O meu pai nunca foi reconhecido como uma grande figura do jornalismo. Acho que a sua vida particular, que teve alguns contratempos, e eu reconheço isso, não se devia misturar com a sua vida profissional. Não aceito que o meu pai, sendo natural de Lisboa, não tenha uma rua com o seu nome, o que a minha mãe tem. Como dizia, os meus pais voltaram a reatar a relação, o que não deixou de ser uma coisa que muito me marcou e foi bonita. A minha mãe é que foi a grande culpada de eu ser jornalista. Virou-se para mim e perguntou: “Tu queres continuar toda a vida como empregado de escritório?” E eu disse que gostava de ser jornalista. “Então porque não falas com o teu pai? Ele está à espera que fales com ele.”

Deu os primeiros passos na revista Equipa.
Lembro-me perfeitamente. A 1 de Dezembro de 1975 saiu a primeira coisa que escrevi na Equipa, uma entrevista a um avançado do Estoril chamado José Abrantes. E a partir daí começou a minha vida profissional que, infelizmente, na Equipa foi muito curta porque as coisas não resultaram. Tive depois um período complicado, estive dois ou três meses sem trabalhar, até ao dia em que o meu pai mais uma vez me ajudou.

Foi para o Diário de Notícias.
O meu pai falou com uma pessoa fantástica, Fernando Pires, que era o verdadeiro chefe de redacção. Conheci vários chefes de redacção mas, com a mesma dimensão, só o sr. Vítor Santos. O sr. Fernando Pires abriu-me as portas do Diário de Notícias e é aí que nasço para a profissão. Há três homens que marcam a minha carreira; o meu pai, Amadeu José de Freitas, porque me ensinou o caminho das pedras. Depois é o Rodrigo Pinto, que é o jornalista que faz de mim jornalista. Levei muitos carolos. Tinha uma maneira muito peculiar de ensinar. E, depois, a outra pessoa a quem vou ficar eternamente grato é o João Bonzinho, que acreditou que eu podia ser comentador de televisão, e eu nunca me vou esquecer disso.

Integrou as redacções dos três jornais desportivos portugueses. Qual foi aquele em que lhe deu mais gozo trabalhar?
Tive gozo em trabalhar em todos os jornais, mas o sonho de um jovem jornalista, naquela altura, era chegar a A Bola. Era um potentado deste país e onde estavam as principais figuras do jornalismo português. E posso dizer que tive a felicidade de trabalhar - pouco tempo, por causa da sua doença - com o chefe Vítor Santos. E tive a possibilidade de trabalhar com aqueles que foram, para mim, os maiores jornalistas deste país, como o sr. Carlos Pinhão e o sr. Alfredo Farinha. Só o facto de ter trabalhado numa redacção com essa gente, onde depois estavam o Homero Serpa, o Carlos Miranda, cujas reportagens dos Jogos Olímpicos e da Volta a França eu bebia, o Cruz dos Santos, o Aurélio Márcio... mais tarde, com aquela segunda geração de jornalistas, o Joaquim Rita, o Vítor Serpa, o Santos Neves... para mim, foi uma aprendizagem extraordinária. Entrei em A Bola e saí, depois voltei a A Bola e voltei a sair. A parte final da minha carreira, os últimos 14 anos, foi n’A Bola. Ao todo estive 20 anos naquele jornal, que marca a minha vida, mas não posso deixar de dizer que o Record também foi muito importante para mim.

Foi jornalista da imprensa escrita, mas comentou em rádios e agora é comentador televisivo. Afinal, qual é a sua praia?A minha praia?
A rádio tinha para mim um sortilégio que era o imediato. Não tínhamos VAR, não tínhamos replay, não tínhamos nada, era comentar em cima do acontecimento. A rádio foi, para mim, outra grande experiência profissional.

Na Rádio Comercial e na Renascença.
Dividi o espaço mediático com alguns dos maiores relatadores deste país.

Quer dizer alguns nomes?
Fernando Correia, Ribeiro Cristóvão, Pedro Sousa, David Borges, quatro nomes fantásticos do relato. Mas havia mais: o Valdemar Duarte era um extraordinário relatador, o Carlos Dias, tanta gente...O primeiro comentário em rádio que fiz foi de um jogo da Taça de Portugal, relatado pelo Gabriel Alves, Vilafranquense-V. Guimarães. Havia uma relação de proximidade e mediatismo. Naquela altura não havia tanta televisão, era tudo de rádio no ouvido, e às vezes havia situações de conflitualidade bem entendidas por mim; hoje é impossível. As redes sociais desvirtuaram muito do que é a rivalidade. Hoje é tudo escrutinado ao milímetro, ninguém pode dizer seja o que for porque tem sempre uma conotação qualquer. E é por isso que hoje não tenho redes sociais.

Gostava de voltar a fazer rádio?
Não, hoje já é muito tarde. Hoje quero fazer as coisas o melhor que sei e posso, continuar a ser independente. Eu sou livre, completamente livre, não devo nada a ninguém, não devo favores a ninguém. Não sou aquele tipo de jornalista que, para me darem um chouriço, sou obrigado a seguir a dar um porco e dizer três ou quatro mentiras só para favorecer quem me deu uma informação. Eu sou jornalista, faço perguntas; se não quiserem dizer as coisas, não digam. Não entro nesse tipo de jogos. Enquanto tiver vontade - e há dias em que não tenho - e andar por aqui, vou fazer aquilo que melhor sei, mas ainda a pensar que aquilo de que eu gostava era de me reformar definitivamente e gozar três ou quatro anos sem fazer nada.

Esteve em vários Europeus e Mundiais de futebol e também nuns Jogos Olímpicos, os de 1984, em Los Angeles. Qual foi o momento alto da sua carreira?
Os Jogos Olímpicos de 1984. Ver o Carlos Lopes... que está, para mim, num patamar onde coloco Eusébio, Cristiano Ronaldo, Carlos Lopes, Joaquim Agostinho e António Livramento. São, para mim, os ícones do desporto português, com todo o respeito pela Rosa Mota, pela Fernanda Ribeiro. O Carlos Lopes tem para mim uma marca muito especial: foi a primeira medalha de ouro que Portugal ganha nuns Jogos Olímpicos. Ver o Lopes ganhar a maratona daquela forma e, depois - porque sou mais emotivo do que aquilo que acho -, ver a bandeira de Portugal subir no mastro principal do Estádio Olímpico de Los Angeles é qualquer coisa do outro mundo. A fotografia mais marcante da minha vida profissional é no regresso a Portugal. Vínhamos no avião, e eu, que não tinha uma relação tão grande com o Carlos Lopes, cheguei ao pé dele e disse-lhe: “Carlos Lopes, adorava fazer uma coisa. Importa-se de tirar uma fotografia comigo e eu com a sua medalha ao peito?” E ele acedeu. No futebol, fui a cinco ou seis Mundiais e todos têm histórias, mas, sem menosprezo nenhum, aquilo depois entra numa certa normalidade profissional. Mesmo assim, um dos Mundiais que mais me marcaram foi o França 98. Não havia Portugal e eu fui designado para acompanhar a selecção do Brasil. Aquilo era um manancial de histórias. Depois, na final em que a França venceu por 3-0, assisti a um dos melhores jogos de futebol da minha vida. O outro Mundial que me marcou mais ainda foi o Alemanha 2006, em que Portugal chega à meia-final com a França e perde de penálti com golo do Zidane. Portugal faz um Mundial excepcional, liderado por uma pessoa que me marcou muito, que é o Luiz Felipe Scolari. E aproveito para falar de outra pessoa da selecção, Carlos Godinho, que é das melhores pessoas que conheci em toda a minha vida profissional. Nesse Mundial, a exemplo do que sucedeu no Euro 2004, há um jogo inesquecível que é o Inglaterra-Portugal, em que vencemos nos penáltis.

Pensei que, como jornalista, um dos Mundiais que o mais o tinham marcado era o da Coreia e do Japão, em 2002.
Esse Mundial devia ser riscado do mapa porque foi tudo mal feito, mal preparado. Portugal tinha uma selecção fantástica, mas tinha um jogador fundamental que não estava no melhor da sua capacidade física, o Figo. E depois havia uma interpretação, da parte do meu amigo António Oliveira, muito redutora da qualidade da equipa, que “se vocês estiverem aflitos metam a bola no Figo que ele resolve”.
E Portugal tinha outro tipo de soluções, o João Vieira Pinto, o Rui Costa... O que fica na lembrança desse Mundial é a expulsão do João Pinto, as relações que já não existiam entre a parte administrativa e a parte técnica, um estágio que não devia ter sido feito em Macau, mas sim no Japão, a frustração de uma equipa com aquela qualidade ser eliminada na fase de grupos.

Como vê este grau de conflitualidade no desporto português e sobretudo no futebol, mas que tem vindo a alastrar a outras modalidades?
Não consigo entender. Quando estou de relações cortadas com uma pessoa, mesmo que tenha, eventualmente, necessidade de falar com ela por as nossas áreas comuns coincidirem, eu deixo as coisas de lado. Há pessoas com quem não falo e com quem jamais aceitaria dividir estúdio, trabalhar na mesma redacção, porque não gosto. Há uma ideia que não consigo aceitar e que o sr. Luís Filipe Vieira agora reforçou, nestas entrevistas à CMTV, com a relação que tem com Jorge Nuno Pinto da Costa: não posso aceitar que duas pessoas que passam a vida a insultar-se depois venham dizer que, em defesa do futebol, se sentam à mesa para tratar de assuntos de todos. Esta história dos presidentes adeptos...

A quem está a referir-se?
O caso do Rui Costa, agora. A forma como Rui Costa vive o Benfica é igual à forma como Bruno de Carvalho vivia o Sporting, sendo verdade que Rui Costa não tem o mesmo posicionamento linguístico que tinha Bruno de Carvalho. A verdade é que estão a acontecer muitas coisas que os adeptos não querem perceber. Estes tipos passam a vida a fazer comunicados e depois são capazes de sentar se à mesa.
É evidente que isso transforma-se depois, quando os resultados não surgem, que é uma coisa que não consigo entender. Deviam ser os dirigentes, de uma vez por todas, a dar um passo em frente e acabarem de uma vez por todas com este clima. Hoje, o que existe não é rivalidade, hoje não há rivalidade entre os clubes, há um clima de guerra constante. Ninguém pode ir ao estádio do rival tranquilo, com a família, ver um jogo porque corre o risco de haver pedrada, haver garrafada, cargas policiais.

Estamos a fazer esta entrevista no dia a seguir àquele em que foi detido um dirigente do Sporting no final de um dérbi de hóquei em patins. Já falou de Rui Costa, de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa. E o Sporting, como se posiciona no meio disto?
O Sporting também não está numa fase muito saudável. O Sporting sempre defendeu que era um clube à parte e, ultimamente, tem havido reacções um pouco fora do contexto daquilo a que muitas pessoas estavam habituadas. Só o facto de termos visto ser detido um elemento do conselho directivo do Sporting leva-me a perguntar quais foram os motivos. Se o motivo foi a tentativa de defesa dos adeptos do Sporting por causa da carga policial, percebo perfeitamente. Se, como já ouvi dizer, o dirigente do Sporting se pegou fisicamente com um sócio do Sporting, acho que a situação é irreversível. Este dirigente não pode continuar a desempenhar a sua função. Tem de se demitir ou ser demitido.

Acha que há um défice de cultura desportiva em Portugal?
Ó meu amigo... isto já vem desde o berço da nação. O reflexo da alteração que houve na selecção nacional, por muito que custe aos anti-Scolari, foi ele que abriu um caminho para que os portugueses gostassem da selecção - a história das bandeiras à janela e do nome na rua. Pode parecer piroso, mas foi isso que fez esta aproximação. Hoje há uma comunhão grande. O que importa aqui é o clube, não há fair-play. O Jorge Jesus tem razão, o fair-play é uma treta. Mas não é só no futebol, é a todos os níveis.

As pessoas gostam mais dos clubes que da selecção?
Eu acho que as pessoas gostam mais dos clubes do que propriamente das modalidades que os seus clubes e rivais praticam. Ultimamente, não há nenhum desaire de nenhuma equipa em que não tenha acontecido qualquer coisa: ou foi a arbitragem, ou foi o público que se portou mal, ou foi o dirigente que não sei quê... há sempre qualquer coisa. Não há aquele reconhecimento de parabéns pela vitória e ficam por aqui. É parabéns pela vitória, mas... Isto é um défice de cultura desportiva inacreditável. Aliás, há muita gente que tem um problema complicado porque não tem paciência. Há muita gente que vai ver jogos das modalidades que, às vezes, faz comentários perfeitamente disparatados quando não tem razão nenhuma, não conhece as regras. O que importa é ver o seu clube ganhar, seja de que forma for.

Acha que o Governo devia fazer alguma coisa e já está com atraso?
O Governo está com atraso há muitos anos. O que o Governo quer é sopas e descanso a este nível. Um convitezinho para ir ver um jogo, um convitezinho para ir fazer uma viagem, descerra uma lápide, dá os parabéns na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, do Porto, de Braga ou de Avintes. Não era isso que devia fazer.
O secretário de Estado do Desporto devia ter poder legislativo, poder decisório para, de uma vez por todas, criar aqui um grupo de trabalho, convidar os clubes a participarem. Porque ao pedir aos clubes para participarem no grupo de trabalho também está a responsabilizá-los. Porque não se pode fazer parte de um grupo de trabalho e depois, cá fora, alimentar a confusão. Portanto, o Governo, só por si, não pode fazer tudo, mas podia dar passos para criar condições... O problema já não é tanto o presente. É o futuro dos meus e dos seus netos. Da maneira como as coisas estão a caminhar, percebo que haja cada vez menos pessoas. Falta fair-play, cultura desportiva, aceitar que o rival também tem qualidade.

Podemos subentender que há pessoas com poucos escrúpulos no futebol e no desporto?
Há pessoas que aparentam ser pessoas de bem e que, na verdade, são uns arruaceiros.

Não quer dizer nomes?
Eles sabem para quem é que estou a falar.

O Benfica vendeu um jogador ao Liverpool numa operação que pode chegar aos 100 milhões de euros. Estes números não lhe fazem confusão na sociedade em que vivemos?
Esse é o outro lado, o lado social da coisa, o lado muito prático da realidade mundial. Se formos olhar para o número de pessoas que estão agora a morrer com fome, com sede, que não têm habitação, vivem no meio do lixo, porque a população mundial que tem privilégios é uma ínfima parte, eu percebo isso. Só que, depois, há o outro lado, o lado comercial. Estas transferências de muitos milhões de euros são um insulto, realmente. Mas pior é a continuidade de Mbappé no Paris Saint-Germain. É um insulto ao mundo. Emmanuel Macron, em vez de incentivar a sua continuidade no PSG, devia tê-lo feito mas dentro de valores que sejam respeitados por toda a gente. Devia haver respeito pela sociedade global. Devia haver respeito pelos valores das transferências. Devia haver um tecto, mesmo aceitando eu que há uma pequena franja de futebolistas que têm de estar acima dos outros porque são eles que geram receitas e o seu futebol é superior ao dos outros. Mas, por amor de Deus, quando se vêem futebolistas a ganharem 500 mil euros semanais, isso é uma coisa simplesmente insultuosa.

Sente que no meio destas operações há muita coisa pouco transparente?
Não há transparência, mas isso também não é de agora. Só que não era de uma forma tão evidente, porque o mundo, entretanto, não era dominado pelas redes sociais, era mais boca a boca e havia mais confiança entre as pessoas. A partir da altura em que se legalizou tudo... porque eu sou do tempo dos bingos, das bombas de gasolina, dos terrenos escolhidos pelas câmaras, e era um fartar vilanagem e teve de chegar lá alguém que regularizasse essas situações. Quando o comum dos mortais, como nós os dois, para sobreviver, ter uma habitação, um automóvel ou os filhos a estudar tem de ter os impostos em dia, eu pasmo como é que, no século XXI, vejo brigadas da Autoridade Tributária entrarem porta adentro dos clubes para conferir se eles pagam os impostos. E depois vejo grandes nomes do futebol mundial a fugirem ao fisco. O facilitismo, a forma fácil de ganhar dinheiro, particularmente no futebol, é uma coisa inacreditável.

Vou pedir-lhe para descrever numa palavra os presidentes dos três grandes clubes. Aceita o desafio?
Vamos a isso.

Vamos pelo critério de longevidade no cargo: Pinto da Costa.
Só numa palavra?

Pode ser em mais.
Agora apanhou-me. Pinto da Costa... o mais esperto.

Frederico Varandas?
Acalmou o Sporting.

Rui Costa?
O futuro é dele.

Sente-se o decano do jornalismo desportivo português? Percebe-se que as pessoas o vêem como alguém completamente independente e que diz o que tem a dizer.
O decano, não. Tenho muito respeito por pessoas que continuam a trabalhar na praça e com quem vou aprendendo algumas coisas. Agora, na questão particular de ser completamente independente, respondo por mim: sinto-me completamente independente. Posso garantir a 1000% que tenho as mãos limpas.

Quando anda na rua, que tipo de abordagens recebe? Boas, más ou ambas?
Devo confessar que só uma vez é que fui insultado, muito próximo de minha casa, até por causa de uma coisa estúpida. Percebi que o sujeito devia ser do Benfica e que não devia ter gostado de uma coisa que eu disse em relação ao caso Marega, em que me manifestei claramente contra as pessoas que insultaram o Marega. Eu sou o mais anti-racista possível, vivi em Angola. Corre-me no sangue essa questão multicultural. Defendi que aquilo que fizeram ao Marega era uma coisa sem explicação absolutamente nenhuma. Deixei o sujeito a falar sozinho. De resto, sou muitas vezes abordado, especialmente por pessoas da minha geração que me dizem que gostam de me ouvir porque percebem que realmente há, modéstia à parte, uma questão de valores que aprendemos na infância. A educação, antigamente, era diferente.

Desde 1975 que é jornalista e já há pouco falámos das redes sociais. O que mudou realmente no jornalismo de lá para cá?
Tudo, mudou tudo. A internet facilitou a profissão, por um lado, mas tornou-a mais volúvel. Hoje não há ninguém em Portugal como o Rodrigo Pinto, para nos ensinar, para ensinar os mais jovens, e aqueles que podem ensinar não têm tempo. Estou muito à vontade em relação a isto porque houve alguns jovens jornalistas com quem tive a felicidade de me cruzar ao longo da minha carreira, com quem continuo a ter relações de proximidade imensas, que aceitaram muitos dos conselhos que lhes dei. Havia da minha parte ainda espaço, tempo e vontade. Hoje há uma coisa que não se faz assiduamente que é a questão do contraditório. Agora ouve-se uma parte e siga. A posteriori é que se vai ouvir. O jornalista tem sempre a obrigação de ouvir as duas partes.

Faz-se pior jornalismo hoje?
Faz-se pior jornalismo porque há outra coisa que é marcante: a concorrência. Hoje, a concorrência é uma coisa inacreditável. Às vezes estamos em casa, ligamos a a televisão e ficamos boquiabertos com aqueles leads que passam em português mal escrito. Isso é um problema da escola, os jovens não foram bem ensinados. Este país, por ser tão pequeno e com uma comunicação social tão reduzida, não pode ter 10 mil ou 12 mil jornalistas. Não há espaço para toda a gente e, ao não haver espaço para toda a gente, as condições de trabalho são precárias, os salários são uma vergonha, e depois somos expostos a tudo e mais alguma coisa. Quando alguns de nós vemos algumas reportagens de rua com algumas perguntas... falta dizer que esta gente não tem a formação que devia ter. Portanto, acho que o jornalismo, hoje, é pior e a tendência não é para melhorar, porque os jornalistas mais velhos vão-se reformando ou vão desistindo. E isso preocupa-me. Devia haver um travão.

Deviam-se limitar as vagas para Jornalismo?
Em defesa não só daqueles que querem candidatar-se a ser jornalistas, mas também da profissão.

Antes era jornalista no activo, agora continua como jornalista mas numa posição diferente. Em qual das situações recebeu mais pressões?
Quando estava no activo. Antigamente estava dependente de uma entidade patronal, não me podia recusar a fazer determinado tipo de coisas. Hoje corro o risco, se me recusar, de ir à minha vida, mas vou à minha vida. Hoje diria que estou num patamar completamente oposto àquilo que vivi. Mas, mesmo assim, no tempo do jornalismo activo, não fui assim tão alvo de pressões porque sempre tive um perfil e uma forma de estar que me distanciavam do tipo de ambientes que propiciavam essas pressões. Por isso é que digo que não aceito convites. Não vou para encontros muito alargados. Vou de vez em quando almoçar com pessoas do futebol e não aproveito nada da conversa. Estamos ali a conversar.

Chegam-lhe insatisfações, mesmo que por via indirecta, de clubes, dirigentes, treinadores em relação àquilo que diz?
Por via indirecta, sim.

Quer revelar?
[pausa ] Quando estava na SIC, recentemente. Há coisa de um ano e tal houve dois dirigentes de um grande clube português que fizeram uma grande pressão porque não gostaram de uma opinião que emiti e que mantenho, e tiveram a desfaçatez de ligar ao Ricardo Costa, director de informação da SIC, a fazer queixas de mim. Ele comentou isso comigo de uma forma tranquila e disse-me que na SIC - e é verdade - não há censura.

A que clube pertenciam esses dirigentes?
Não vou dizer porque isso era dar muita ênfase a essas duas pessoas e elas não merecem.

Agora está na CMTV, depois de ter passado pela CNN, pela TVI e pela SIC Notícias. É um comentador muito requerido. Sente-se assim uma espécie de Cristiano Ronaldo do comentário desportivo ou, por modéstia, vai dizer-me que não?
Nem pensar, era o que faltava. Estou onde as pessoas querem que eu esteja e onde gosto de estar. E as oportunidades surgem, muitas vezes, porque o projecto é mais aliciante, noutras porque as condições financeiras são melhores, noutras porque tenho possibilidade de participar em debates com pessoas de quem gosto, e as coisas acontecem. O que posso dizer com grande satisfação é que desde que abracei esta nova realidade da minha vida profissional, em 2012, na Bola TV, desde esse dia até ao momento em que estamos aqui a conversar tive sempre convites para estar no activo. Há uma coisa de que me orgulho: ao longo dos mais de 45 anos que tenho de profissão, a única cunha de que beneficiei foi quando o meu saudoso pai falou com o Fernando Pires para eu poder ir para o Diário de Notícias. A partir daí, nunca bati à porta de ninguém. No que diz respeito a esta parte muito especial da minha vida profissional, na área do comentário, felizmente fui sempre convidado. Não quer dizer que amanhã ou depois, se necessitar, não vá bater à porta de alguém. Sou terreno, não tenho nada a ver com o Ronaldo, que é estratosférico. Se me disser que há muita gente que gosta de me ouvir porque eu coloco bem as palavras, porque eu falo bem português, porque não digo disparates, aceito isso. Cristiano Ronaldo só há um.

O que ficou por fazer no jornalismo?
Acho que nada.

Nunca pensou em fazer jornalismo fora do desporto?
Especializei-me no desporto. A minha área é o futebol, mas o andebol foi a minha porta de entrada no jornalismo. Os andebolistas que fui conhecendo no Benfica, no Sporting, no Estefânia, no Belenenses ensinaram-me muitas coisas, as regras, a ver o jogo. Ainda há pouco tempo fiquei triste, constrangido, porque soube da notícia da morte do José Pires. Manuel Brito foi um dos meus melhores amigos, o Vasco Vasconcelos, o dr. Bernardo Vasconcelos, o João Miranda, o João Gonçalves. São todos grandes nomes do andebol português. Dediquei-me sempre ao desporto, mas se tivesse de mudar de área não haveria problemas. Conheço muita gente que já saiu da área do desporto e que hoje faz com a mesma facilidade um jogo de futebol, um incêndio ou um assalto e que acompanha o Presidente da República ao estrangeiro ou vai com o primeiro-ministro a Bruxelas. O jornalista do desporto, para muita gente, é visto como parente pobre, mas as pessoas estão enganadas.

Alguma vez foi tentado ou convidado a ir para o outro lado? Ou seja, para entrar num clube?
Fui, fui. Recusei porque acho que aquilo não é a minha praia. Também já não tinha idade, já estava um bocado fora de prazo, mas, mesmo assim, teria pensado muito se valeria a pena dar esse passo. Quando vejo alguns dos meus companheiros de profissão que entraram nessa área e depois tiveram de voltar, fica sempre ali um ónus, por muito independentes que nós sejamos, fica sempre a ideia de que o fulano disse o que disse porque trabalhou aqui ou ali. Não sei se valeria a pena entrar nessa área só pelo gozo pessoal de estar mais próximo do futebol. Não sei se em termos financeiros seria compensador. Porque acabando a participação nessa área e ter de voltar para este lado, que é a única coisa que sabemos fazer, nem sempre é fácil o regresso ao mercado de trabalho.

Houve quem voltasse.
Há pessoas que voltaram, mas não voltaram com a dimensão que tinham antes de terem entrado nessa área.

Já o vi ser conotado com o Benfica, com o FC Porto, com o Sporting. Tem clube?
Tenho clube.

E vibra com o seu clube?
Vibro com o meu clube quando não estou a trabalhar.

E qual é o seu clube?
Não lhe vou dizer. Muita gente acha que sou do Benfica, do FC Porto ou do Sporting. Essa dúvida criada nas pessoas que não me conhecem deixa-me satisfeito porque, assim, estou completamente à vontade. Se lhe dissesse agora que sou do clube X, quem ler esta entrevista e depois olhar para mim vai dizer: “Ah, bem me parecia que ele era do clube X.” A única coisa que garanto é que no dia em que eu decidir arrumar as botas, direi qual é o meu clube - se for caso disso, que não acho que seja importante. Porque continuo a olhar com todo o respeito para todos os clubes, para todos os profissionais, para todos os dirigentes. Emito a minha opinião tranquilamente. Não estou dependente de nada e não sou sugestionável por essas eventuais pressões. Estou muito bem comigo e, portanto, é isso que quero continuar a fazer. Acho que não há necessidade nenhuma de me estar a expor.

Última pergunta. Tem duas filhas e cinco netos. Como gostava que eles se lembrassem de si? E não só eles, mas também as pessoas com quem privou ao longo destes quase 50 anos.
As minhas filhas vão dizer que fui um bom pai. Os meus netos adoram-me. O resto, só quero que olhem para mim e digam: “Aquele gajo foi um gajo honesto.”

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