José Gameiro: “Não sou a Miss Daisy. A Miss Daisy faz filmes. Eu não. Vou fazer um rali”

José Gameiro será o piloto mais velho a participar numa prova de todo-o-terreno integrada na Taça do Mundo, a Baja 500 Portalegre, de 28 a 30 de Outubro. Empresário, militar, comendador da Ordem do Império Britânico, foi infectado com covid-19. Depois de engordar, treinou, meteu-se dentro de máquinas de oxigénio, esteve ao lado de João Félix, ganhou 10 kg de massa muscular, cumpriu uma dieta como o Ronaldo e decidiu fazer um teste e cumprir a promessa que impôs a si mesmo. Não quer dizer adeus como a Miss Daisy e gostava de correr até à idade de Paul Newman.



É comendador da Ordem do Império Britânico (OBE)?

Ui, começa forte. Sou um dos poucos portugueses com essa distinção. No início do século fui galardoado pela Rainha pelos esforços de ligação entre Portugal e Inglaterra e por ser um distribuidor exemplar a nível mundial.

Que esforços foram esses?

Foi uma simpatia de Sua Majestade. Portugal sempre teve um posicionamento comercial agressivo e essa agressividade levou a que eu tivesse vendido 400 máquinas por ano nos últimos 40 anos. Sou o maior distribuidor independente do mundo, de máquinas [da J. C. Bamford Excavators Limited, multinacional britânica conhecida como JCB].

Foram, portanto, os serviços comerciais a valer-lhe a honra.

Fui informado de que seria galardoado e, quando tal acontece, não perguntamos as razões. Foi um momento difícil. Na altura, o Guterres não conseguia um contacto com o primeiro-ministro e o Jorge Sampaio teve o mesmo pequeno problema do Sá Carneiro, a mulher era divorciada e teve a dignidade de voltar para trás. Fui galardoado na embaixada. Foram muitos anos de bom relacionamento com os ingleses e bons resultados. Fiz acções de marketing agressivas. Aluguei um Airbus de Lisboa para o Porto para levar clientes do Norte. À parte, fui das primeiras pessoas a lançar o telemarketing em Portugal. Tive sorte na primeira acção. Vendi quase 900 máquinas para toda a Europa. O dono da fábrica meteu-se num jacto e veio perguntar-me como tinha feito. Expliquei que tinha uma base de dados e tinha contratado uma especialista americana. Veio gente de 40 ou 50 países perguntar como é que tínhamos feito.

É militar, ou antes foi?

Sou. Soube recentemente que tenho a patente de major. Durante anos julgava que era civil, mas não. Sou militar. Reformado.

Esteve ligado ao exército português, frequentou cursos especiais.

Fiz o primeiro curso de Operações Especiais em Portugal. Éramos 80 heróis. Alguns ficaram feridos, outros infelizmente já não estão entre nós. Hoje somos 30 homens assustados, com medo de se encontrarem por causa da covid. À primeira tentativa, vieram logo [dizer] “ainda é cedo, a minha mulher gostava de ir também e tem medo”. Fiz o primeiro curso há 50 e tal anos, seguiu-se o curso de comandos e instrutor. Depois fui estudar para a Universidade Nova de Lisboa, em Economia e Sociologia e Ciências da Conduta Humana.

Que curso foi esse?

Era um curso bastante avançado baseado no MIT (Massachusetts Institute of Technology. A conduta humana é um ramo da psicologia. Queria perceber quem é que eu sou. Todos nós temos grandes dúvidas e cheguei à conclusão de que não sei tratar de mim próprio.

Um militar não consegue tratar de si próprio?

Os cursos deixam marcas. Estive em Angola. As marcas ficaram mais explícitas. Recentemente expliquei a dificuldade do pós-traumático de quem sofreu grandes choques. Quando morre alguém ou [alguém] protege a sua vida com a morte dos outros. Marcas.

E como empresário?

É a quinta crise, quinto susto, que passo. Numa crise, há a sensação de que vamos perder tudo.

Crise financeira ou pessoal?

Financeira. Em 2008-2010 levámos um pontapé. Estávamos na altura na casa dos 50 milhões e, de um momento para o outro, estoirou e assustámo-nos. Esta crise, nos primeiros meses, não reparei que havia. Era chato, estava em casa e via na televisão a desgraça para a qual estávamos a caminhar. As minhas empresas trabalharam, trabalhei e expus os trabalhadores ao risco. Foi difícil verificar que era uma crise mundial. Quando comecei a pensar vender parte do stock ao mundo, o mundo não comprou. Austrália, Israel, Rússia. Ninguém. Como, ninguém?

E o que fez?

Aprendi na vida militar e apliquei-o na vida empresarial: quando estamos à defesa, temos de atacar. Fiz layoffs, despedimento colectivo de mútuo acordo. Após a primeira crise do século, 50% a 60% dos despedidos voltaram à empresa. Não foram traumatizados pelo despedimento.

E agora?

A maioria não vai voltar. Já estávamos a apostar na digitalização e, entretanto, tudo mudou. Já não vou alugar um Airbus para ir à JCB nem farei eventos com mil pessoas. Os contactos com os clientes são diferentes. Vamos treinar e vamos ser capazes de falar por WhatsApp.

Como viu um militar um outro militar ser responsável pela task force?

Vamos lá ver uma coisa: para quem é, ou foi, militar, o planeamento ou organização é peanuts. Eu era cadete. Quando cheguei, deram-me um completo. Sabe o que é? Botas, calça, camisa, almofada, lençóis... quando acabamos, temos de devolver o completo. A gestão logística, quem não a perceber, não percebe como [o resto] funciona. Achei interessante, ainda para mais sendo [Henrique Gouveia e Melo] um homem da Marinha. Fui do Exército e reconheço que os homens da Marinha são mais ponderados e calmos. Andam em espaços pequenos, não se podem zangar. No início, foi fustigado porque uns andavam a tomar a vacina mais depressa que outros e tomou uma posição forte contra quem se estava a esticar. No fundo, teve piada. É um boneco. Os militares são especialistas nisso. Em paradas, em condecorações, vivem disso. Criou um boneco. Deve ter sido a primeira vez que utilizou tanto tempo camuflado e, com botas e barba de capitão Iglo, foi ganhando respeito. E teve a serenidade - e aí, chapeau -, quando os negacionistas começaram a maltratá-lo, de não reagir como a tropa especial faria. Acho que tem um grande futuro neste país. Acho que vai ser o novo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Interessa-lhe a política?

Digamos que quem diz que não quer ser político é mentiroso. No dia-a-dia tomamos decisões. Nas empresas, na vida, na política, na religião e no desporto. Acho que a função de todos os militares pode passar por aí. Veja-se o Eanes. Conheci-o na Academia Militar, eu era tenente, ele major. Nessa altura era só militar, não era político. Fez o PRD. “Ai e tal, não sou político...” Não é político até ao momento em que o é. Ele e outros. O 25 de Abril foi um movimento, onde me incluí, no qual queríamos acabar com a guerra. Era corporativo. E queríamos que os oficiais ex-milicianos não tivessem as promoções tão rápidas como os oficiais. Era uma política. Depois, juntou-se tudo e passadas semanas, uns foram para a direita, outros para a esquerda, encostados aos partidos.

O vice-almirante mostrou o que os portugueses queriam ver, concorda?

Mostrou aquilo de que os portugueses gostam - Grande serenidade, discrição - e fez o trabalho, o que sabe fazer. Teve um ou outro acidente, mas teve sorte, chegaram as vacinas.

Sorte? E arte, não? A sorte não justificaria, por si só, tudo.

Claro que não. Quem acredita na sorte joga no totobola [risos].

O General Eanes, numa entrevista à RTP, abriu o caminho das Forças Armadas e tivemos um militar a comandar o processo de vacinação. A conversa é para introduzir a covid...

... sim, tive covid. Não estava à espera.

Mas disso ninguém está!

Sim. Mas sabe, por ter sido um tropa especial, acredita-se que nada nos acontece.

Tem um escudo invisível?

Não é um escudo invisível. Organiza-se, fazemos as coisas bem e temos de ser optimistas. Nas operações especiais, se correr mal, paga-se com a vida. Não estava à espera. Coloque aspas: era “negacionista” e apanhei covid numa segunda-feira. Trabalhei o dia todo, fui para o Porto e reuni com colaboradores. Não acreditava ter covid, pensava estar engripado. Fui trabalhar, mas estava cansado. Tinha cá dentro o bichinho todo, como é que não havia de estar. Meti-me no carro, fiz dois testes e só parei em Cascais. Fiquei sossegado à espera que a minha mulher, a Maria, apanhasse também. Quando ela fez o teste e disse que tinha, gritei: “Uau, temos os dois”. A partir daí o oxigénio baixou, perdi cheiro e paladar. Mas não fui para o hospital. Ao fim de cinco dias de não fazer a barba, o cabelo desguedelhado...

Foi por uma questão de estética que não foi para o hospital?

Foi para não me identificarem como velho e ir parar aos cuidados intensivos! Estava com covid, mas iria ultrapassar.

Como os militares, ultrapassa sozinho?

Digamos que sim. Quando se faz cursos especiais e quatro anos na Academia Militar, fica-se formatado. A minha vida é 97% civil, mas alguns princípios ficaram. Nada me ia acontecer. Correu tudo bem. Come-se e bebe-se. Nos testes ao paladar e olfacto arranjei uma técnica. Abria uma garrafa de vinho e cheirava [inspira e grita ah!]. A primeira vez, não cheirava a nada. Mas associava a ideia ao cheiro. Comecei a comer, a provar vinhos e engordei. Estava em casa, sem nada para fazer, e foram 10 kg a mais. Comecei por fazer aquela promessa que se faz no dia 31 de Dezembro de cada ano: no próximo ano vou deixar de fumar. Nunca cumpri.

Esta foi diferente?

Tinha de ter um target e doer. Entra aqui a história do carro e da participação na Baja de Portalegre. Pensei em comprar um, mas seria uma nota preta. Decidi alugar um Mini All Four com cerca de 400 cavalos e 2600 kg.

Já guiou algum carro com 400 cavalos?

Nunca. Em todo-o-terreno [TT], o máximo foi 250 cv às 5 mil rotações. Este, às 3 mil rotações debita 400 cv. São carros mais leves e competitivos. Não é para andar de pantufas. Quando precisar de motor ou travão, tem. Disse que queria pagar 50%. Para o ginásio, marquei 50 sessões de treino e avisei que pagaria logo.

Pagar para o obrigar a ir?

É difícil ter obrigações e treinar aos 76 anos. Aquela ideia de quando éramos jovens e fazíamos trinta por uma linha, mas nunca o fizemos. Cinco meses seguidos. Delineei um projecto. Cinco sessões por semana. E depois estava com depressões infantis. De manhã não me apetecia ir. Diziam-me que já tinha idade para ser bisavô. Um dia, disse não estar em condições e do outro lado ouvi: “Não tem mal, espero-o amanhã à mesma hora”. A recuperação é muito complicada.

E recuperou?

Sim, mas o exercício não pode ser muito intenso. Ganhei 10 kg de massa muscular, na minha idade estreitamos. Tratei de mim. Dou passos de 40/50 cm, ando a 7,5 km/h em marcha, numa passadeira especial. Treinei onde treinam grandes jogadores de futebol.

Treinou numa máquina de oxigenoterapia hiperbárica?

Sim. E há um exercício em que coloco um arnês, levanto-me, a máquina puxa-me para baixo e temos de ir para cima: 12 vezes seguidas, 60 e 120 kg. Três sessões. Quando termina, penso que estou como o Ronaldo. Consigo mexer um músculo isolado de cada perna. Treinei com uma pessoa que vale 120 milhões, o João Félix.

De onde parte a ideia?

Com uma brincadeira. Fui ao António Gaspar e perguntei qual era a minha idade muscular - “10 anos menos que a idade biológica”, respondeu. Perguntei onde podia comprar mais 5 anos. “Poder, pode, mas vai custar”, disse. Consegui e a minha idade muscular deve ter 15 anos menos.

Os carros sempre foram uma paixão, ou uma brincadeira?

Sempre gostei de conduzir. Quando tive uma pequena estabilidade financeira, era militar, comecei a brincar aos carros. Comprei um Suzuki, 360 de cilindrada, tinha um pico brutal. Em Mafra, Ericeira, Malveira, ao fim-de-semana, provas de gincana e perícia, recebia uma taça e um envelope. Comecei a achar graça ao envelope. Depois, comprei um Alfa Romeo e fui treinar para a Tapada de Mafra, esqueci-me da protecção do cárter, ia a fundo, voei, pum, olhei para o retrovisor, vi uma nuvem preta e acabou-se o Alfa Romeo. Foram três meses de ordenado. Uma tareia. Quando o meu filho Pedro começou a correr de mota, dava uns mergulhos, ora para a direita, ora para a esquerda, chegou ao meu gabinete e disse: “Pai, gostas de andar depressa, porque não te metes no todo-o-terreno?”. Deu-me a volta. E eu queria-o fora das motas.

O filho sai das motas e o pai reentra nos carros? Uma situação win-win.

Comprámos os piores carros do mercado. Land Rover. É um carro de trabalho e não de corrida. Tomei a decisão de ir fazer uma Baja Portalegre. Cheguei ao fim, ganhei a Promoção e lá fui eu receber uma salva de palmas, uma taça e um envelope. O Zé Megre diz-me: “Não conseguimos angariar o dinheiro todo. Só 50%”. Está bem, porreiro. Depois ganhámos uns dinheiros em Espanha. Comprei um Nissan Terrano, um Toyota e um protótipo. Um carro de jeito, ainda fez umas flores. Guiava-se com o pé esquerdo em cima do pé direito. Tinha um barulho brutal. Um dia, faço direita, esquerda e estava um eucalipto a gritar para mim: “Anda cá”. Fui com a traseira e dei uma cacetada. Entretanto, chega um casal com uma filha, tiro o capacete e ouço a miúda: “Ai tão velho, mas guia tão depressa”. Fiquei zangadíssimo. Aparece o Moniz da Maia, Filipe Campos, o Grancha, num carro igual ao meu, o Miguel Barbosa. Guiei nos meus limites a competir com estes quatro ou cinco grandes pilotos. Em 2011, acabei em terceiro lugar no campeonato, à Geral.

O co-piloto destas aventuras é o António Saraiva. Escuta as ordens que recebe?

Foi e será o meu co-piloto. Dou-lhe a autoridade para me dizer: “Anda lá embora, estamos a dormir”. Tem autorização para gritar no caso de não lhe obedecer. Obedeço às ordens quando posso. Por vezes, devido ao stresse do trabalho, comecei a pensar em deixar o TT. Numa recta a fundo, a 150 km/h, ouvi: “Esquerda 500 metros, 200 metros esquerda, 100... esquerdaaaaa! Pum”. Vinha a pensar numa irritação de um negócio. Não é boa ideia, quando não se está a fazer as coisas correctamente.

Na lista de pilotos da 35.ª Baja Portalegre, sente-se o mais velho ou o mais experiente?

Mais experiente.

Mas não vai participar para dizer adeus?

Não sou a Miss Daisy. A Miss Daisy faz filmes. Eu não. Vou fazer um rali. Aluguei um carro de topo. Preparei-me. Ainda hoje comi proteína só com arroz, sem molho e adições, como o Ronaldo. Estou em forma, tenho capacidade, treinei muito com carros normais, três horas seguidas sem parar, ao mais elevado nível. Fiz médias de 141 km/h e não passava os 150 na A8.

Por causa das multas?

Claro. Fazia as curvas e aguentava. Baixa e acelera. Treinei com um BMW 750 de 400 cv.

E não temia que a polícia o mandasse parar. Dizia que estava a preparar-se para a Baja?

Aceito a multa. Sou cumpridor e não sou multado há vários anos. Mas uma vez fui apanhado e perguntaram-me se sabia a quantos ia: 179! Se fosse a 180 era pior. Passaram-me a multa e meti-me no carro e vrum! Passados 60 quilómetros, nova multa. A partir daí comecei a andar com mais cuidado, mas na altura andava muito depressa.

Tem boas e más memórias de ralis?

A pior foi um capote a 150 km/h, num troço de uma linha férrea. O meu filho ia em primeiro, eu em quarto ou quinto lugar. Conhecia o troço, o carro subiu, entrou de bico, virou e tive uma atitude de samurai. Com pára-brisas de rojo, 50 metros, mas sempre de olhos abertos e o volante a mexer com as rodas no ar. Parou, puxei o António, o gajo gemia, queria esconder o carro para o meu filho não ver, mas ele soube. Foi o pior momento que tive.

Essas são as más. E as boas?

No Brasil, no Rali dos Sertões, ao atravessar um rio, o António saltou e ouviu-se alguém gritar: “Tem piranha”. No Rali de Espanha fui com um protótipo. Havia quem passasse ao milímetro ao lado de pedras. Pensei que não conseguia fazer igual, mas com a tal perícia, capacidade de resolver os problemas num curto espaço, o António mete-me a mão na perna e exclama: “grande prova”. Estava lá a elite do TT e eu em segundo lugar! O meu melhor momento desportivo.

Há pouco falou da Miss Daisy. Disse ao DN que queria ser o Paul Newman. É fã?

Sempre acompanhei a carreira do Paul Newman. É um grande actor. E tinha uns olhos azuis tremendos e uma expressão parecida com o meu pai. Havia uma certa figura mítica, lembra-me o meu pai. Vê-lo começar a correr velho, até quase aos 80 anos, ter resultados, preparar equipas... Mas não tenho dinheiro para fazer o que ele fez.

Entrou por brincadeira ou por ego no mundo do TT? Ou foram outras razões?

Digamos que o TT é um desporto muito caro. Tive uma equipa vários anos e sei o que se gasta. Foi um bom investimento, numa análise dos impostos que se pagavam e das vantagens que tinha por dinamizar a marca em Portugal, em zonas onde não conseguíamos normalmente ir - fazer um evento em Castelo Branco ainda poderíamos fazer, agora, passar, por exemplo, por Marvão... Correu o Pedro, a minha filha Alexandra, a Maria, e foi contratada a Diana Pereira. Ela andava atrás do Tiago e eu atrás da Maria [risos]. Dava-me bem com a Diana. Numa altura, estávamos a jantar, ela recebe a chamada telefónica e percebi duas horas depois quem era. A Diana foi um golpe publicitário. Depois tivemos um piloto profissional. Mas já não foi lá.

Porquê?

O piloto profissional não está preocupado com os danos, mas sim em ganhar e com os resultados. Desfaz os carros e, mesmo que ganhe, fica todo massacrado. Guia de forma diferente do amador.

O seu filho não destruiu carros?

Sempre guiou mais rapidamente que eu. Não está preocupado com o carro. Quem pagava era eu.

Já lhe disse isso na cara?

Várias vezes, mas não estou a fazer crítica. Eu sei que capotar custa 30 mil euros.

Mas não pode correr a pensar assim.

Quando se anda com quatro carros, temos de pensar assim. Bate um, dois e três, agora vamos ver se acaba a prova. Não foi fácil. Os meus pilotos [equipa Motivo/JCB] eram muito agressivos e quem anda depressa tem acidentes. Quando a economia está boa ainda vá, agora, quando o mercado pára, o acidente começa a ser malvisto. Porquê? Porque tenho de pagar a conta.

Se não fosse a covid não tinha avançado para a Baja?

Não iria com certeza. Ainda pensei fazê-lo no ano anterior, 75 anos, 40 anos de empresário...

É aquela promessa de fim de ano.

Esta não. Paguei a prova toda. Pedi logo a conta, para não cair na tentação de não ir. Quero mesmo correr e ver até que ponto tenho capacidade ainda para reagir. Fiz tudo. Fui às Astúrias por causa dos meus olhos, duas provas de esforço. Vou em estado razoável fazer a prova.

Não é pessoa de ficar de pantufas à espera da morte. Vai trabalhar até morrer?

Casei com a Maria. Tenho uma diferença de idades grande da minha mulher. Não é para pôr... [a mulher acena com a cabeça e autoriza]. São 33 anos de diferença. Ela tem 43 anos. Viajamos muito e fazemos coisas que ninguém faz. Vamos para o deserto do Nevada e para a pista de Las Vegas guiar Ferraris e Lamborghinis a queimar. Fazemos uma vida diferente da que leva a maior parte das pessoas. Trabalho semanas completas e depois vamos dez dias de férias. É diferente.

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