Jorge Vieira: “Não atingimos o potencial. Só temos 28 medalhas e 5 campeões olímpicos”

Presidente da Federação Portuguesa de Atletismo explica que os novos treinadores e as melhorias nas infra-estruturas ajudaram na mudança das vitórias nas corridas de fundo e meio-fundo para as disciplinas técnicas



“Nos anos 70 dizia-se que o português não tinha habilitações para ganhar medalhas. Atribuía-se à genética. O prof. Moniz Pereira demonstrou que, com condições e apoios, poderíamos alterar isso.” Na ressaca de Tóquio 2020, Jorge Vieira relembra o “Senhor Atletismo”. “Foi fulcral para o que temos hoje e para demonstrar que era possível [ganhar], com apoios mínimos.”

As quatro medalhas conquistadas no Japão, o dobro das negociadas no contrato-programa de 18,55 milhões de euros, fazem de Tóquio 2020 a melhor representação olímpica nacional. “Se fizer contas, somos das medalhas mais baratas. A nível europeu, não tem paralelo. Na Grã-Bretanha (65) e Alemanha (37), as medalhas ficam caríssimas”, assegura ao NOVO o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA).

No Japão, entre os 93 países medalhados, Portugal ficou, a par da Etiópia, em 56.º lugar, o 47.º do ranking global da soma de ouro (1), prata (1) e bronze (2). Jorge Vieira olha antes para as 25 participações de Portugal: “Temos de mudar. Não atingimos o potencial do país. Só temos 28 medalhas e cinco campeões olímpicos.”

Pedro Pichardo (2020) e Nelson Évora (2008) no triplo salto, Fernanda Ribeiro (1996) nos 10 mil metros e Rosa Mota (1988) e Carlos Lopes (1984) na maratona são os únicos atletas, todos do atletismo, com o ouro. “É bom para o atletismo, e não para o desenvolvimento do desporto português. Só não vê quem não quer. É uma crítica histórica. Tem a ver com más decisões e a ausência de políticas ao longo dos anos”, assinala o antigo coordenador do Centro de Alto Rendimento do Jamor.

Do fundo às técnicas

Do palmarés olímpico dos metais preciosos constam agora cinco medalhas de ouro, nove de prata e 14 de bronze, espalhadas por nove modalidades [ver caixa]. O atletismo é o rei no medalheiro: 12 medalhas. É ladeado pela vela (4), equestre e judo (3). O último título na vela data de 1996, o equestre é do tempo da outra senhora e o judo começa a subir ao Olimpo a partir da viragem do século [ver caixa].

Nestas mudanças de modalidades medalhadas, a canoagem começa a espreitar e o atletismo mudou. Após as vitórias de Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro, entre outras do fundo e meio-fundo, as disciplinas técnicas têm ganho terreno sob a égide de Nelson Évora, Patrícia Mamona e Pedro Pichardo. O luso-cubano, que sabe cantar “A Portuguesa”, apontou a Paris 2024. “Eu não vou ficar por aqui, vou continuar a trabalhar para atingir mais medalhas e para que, nos próximos Jogos Olímpicos, aconteça a mesma coisa. A minha única maneira de agradecer a Portugal é trazendo medalhas e conseguindo grandes resultados”, disse, já em Lisboa.

Jorge Vieira analisa a mudança de paradigma no atletismo. “Quando apresentávamos resultados no meio-fundo e no fundo, isso devia-se ao subdesenvolvimento desportivo do país”, diz. “Era pelo atletismo que os jovens tinham uma prática desportiva mais fácil e acessível. As outras modalidades não estavam tão desenvolvidas”, explica.

“Não se desinvestiu no meio-fundo e fundo para apoiar outras, como há quem pense. Continua a apoiar-se os melhores atletas, tal como antes, independentemente das disciplinas”, adianta o responsável, no cargo desde 2012. “Houve, sim, uma mudança a nível internacional. Quando os nossos atletas tinham os melhores resultados não havia uma força tão grande da Etiópia”, admite. Face ao domínio esmagador de atletas africanos e às “reduzidas hipóteses de fazer frente a este exército africano”, admite ser “muito difícil ver uma medalha que não seja africana”.

Faz uma incursão noutra modalidade: a vela. “Tínhamos resultados quando as coisas se resumiam a ter condições naturais. A partir do momento em que se começou a injectar dinheiro nessas modalidades e os outros países começaram a desenhar fortes projectos de apoio para chegar a medalhas, deixámos de ter resultados”, relembra.

Regressa ao atletismo. “Existe hoje maior diversidade de atletas das várias disciplinas nos JO” e “todos os sectores estão representados”, e não só o fundo. Esse facto deixa-o realizado. “Não tenho dúvidas, revejo-me mais no atletismo de hoje, embora haja pessoas saudosistas”, atira Vieira, a cumprir o terceiro e último mandato na FPA.

Importância dos treinadores

O desporto português “evoluiu”, o atletismo “tornou-se mais moderno” e “é mais completo”, considera. Contribuiu para tal “a emergência dos centros de alto rendimento” e “a evolução global das condições de treino dos atletas”, frisa.

“Com mais equipamentos e infra-estruturas desportivas, atletas e treinadores começaram a ter acesso a treino de qualidade. Esta é uma das razões”, aponta. Destaca “a qualificação dos treinadores”. Este “é um fenómeno interessante, até verificado nos cursos de treinadores. Antes, a maior parte dos candidatos vinham do fundo. Hoje temos gente com experiência de atleta em disciplinas técnicas”, indica.

Neste contexto, recorda a frase de um antigo ministro do Desporto da Áustria. “Para fazer um estádio, é fácil. Basta ter um arquitecto, um projecto, algum dinheiro, e em meses temos um estádio. Para fazer um bom treinador são precisas gerações para alterar e passar competências para outros. O investimento é mais difícil em recursos humanos. O processo é lento. Não é só injectar dinheiro”, reforça.

Reconhece que os sistemas de apoio para os atletas de preparação olímpica “têm um programa mais permanente”. O que antes era feito “meses antes”, hoje “são anos”, refere. “Os atletas entram na preparação e são apoiados durante anos. Há um agradável quantitativo destinado a subsídios para atletas e treinadores”, elogia.

Para o fim, alerta para um problema: “Se no topo temos preparações boas, o mesmo não se passa nos escalões etários a montante do momento final da preparação. A formação é uma área deficitária no desporto e isso reflecte-se, a longo prazo, nas medalhas.”

Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 13 de Agosto

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