Futebol amador do distrito do Porto vale 10 milhões por época mas mais de metade dos clubes não têm funcionários

O futebol amador no distrito do Porto tem realidades muito díspares: se, por um lado, 53% dos clubes analisados não têm qualquer funcionário, por outro, os 143 emblemas questionados movimentam, no total, 10 milhões de euros por época. João Fonseca, gestor e quadro da FIFA, presidente da UEFA Academy Association e coordenador do estudo “Raio-X”, uma iniciativa da Associação de Futebol do Porto, foi o entrevistado na última edição do “Jogo Económico”.



Antes de agir, é importante saber como fazê-lo. O estudo “Raio-X”, da responsabilidade da Associação de Futebol do Porto, procura determinar os efeitos nefastos da pandemia nos clubes deste distrito.

Além das carências estruturais e financeiras, foi possível apurar que 143 clubes desta associação movimentam 10 milhões de euros por época.

João Fonseca, gestor e quadro da FIFA, presidente da UEFA Academy Association e coordenador do estudo “Raio-X”, uma iniciativa da Associação de Futebol do Porto, foi o entrevistado na última edição do “Jogo Económico”.

Este é um estudo que mostra pela primeira vez uma realidade que poucos conheciam. Como foi definido?

Este tipo de estudos é fundamental, com ou sem pandemia. Com pandemia, a importância reveste-se de forma muito crítica. Este estudo foi idealizado de forma a perceber as necessidades e as realidades dos clubes. Não tenho conhecimento de nenhuma organização que tenha feito algo do género, mesmo no espaço internacional, que passa por, antes de tomar decisões, tentar perceber como estão os nossos clubes, quantos funcionários têm, qual o seu orçamento e nível de patrocínios. Foram feitas mais de cem questões aos clubes e, de facto, era preciso definir uma realidade conjunta para se tomar decisões nessa base; decisões que fossem certeiras e que ajudem os clubes a combater as suas necessidades e carências.

Como incentivaram os clubes a responder ao inquérito?

Uma das primeiras questões com que nos deparámos foi tentar perceber como vamos transmitir a mensagem de forma que os clubes se sintam confortáveis em partilhar informação que nunca tinham partilhado e que mesmo os seus pares de nível profissional raramente partilham, uma vez que não existe um exemplo acima que lhes dê conforto e que lhes transmita que isto é importante. Cerca de 90% dos clubes responderam às mais de cem questões colocadas, sem que tenha sido dado qualquer incentivo. Houve aqui um sentido de missão e um elevado nível de consciência colectiva. Em momento nenhum perguntámos qual seria o orçamento para uma determinada época; pedimos sempre intervalos de valores e isso deu um maior conforto nas respostas. E isso valeu também para os salários, número de funcionários e outros dados.

Em que pilares foi assente este estudo?

Este estudo foi desenhado com assento em cinco pilares: governança e macro-estrutura, finanças e sustentabilidade, recursos humanos, presença digital e infra-estruturas – só com este conhecimento alargado de cada um dos clubes para depois poder avançar com um plano de acção, com uma estratégia, com timelines e com objectivos muito específicos para melhorar o ecossistema. Não vejo outra forma de tentar melhorar esta realidade que não passe por conhecê-la primeiro.

Surpreendeu-vos o facto de o futebol amador no distrito do Porto movimentar 10 milhões de euros por época?

Este estudo mostra a importância que tem o futebol não profissional. É certo que o futebol profissional é mais mediático e gera mais receitas, mas não podemos esquecer que estamos todos assentes numa pirâmide e que existe aqui uma base. Naturalmente, estes 10 milhões de euros que vêm à luz do estudo efectuado porque, de facto, ninguém tinha uma ideia tão concreta relativamente a quanto valeria o futebol não profissional no distrito do Porto. E este é, de facto, um número paradigmático. Mas dou outro, que foi o valor que me chamou mais a atenção: existe um potencial de 17% para captação de novos sócios. Sabemos que a massa social dos clubes é importantíssima e é um dos garantes de sustentabilidade que cada um dos clubes terá. Cruzando o número de sócios de cada clube com a população do concelho onde estão inseridos, com o número de clubes de cada concelho, com um estudo da Nielsen de há alguns meses que concluía que 70% das pessoas consomem futebol, com o facto de cada uma dessas pessoas não ser sócia de outro clube não profissional, podemos questionar: como é que uma instituição pode ajudar os seus membros e dar-lhes conhecimento, permitir outras formas de angariar receitas e de serem mais sustentáveis.

Que números são mais preocupantes?

Neste estudo também registámos alguns números que não são necessariamente bons. Um exemplo é que 53% dos clubes analisados não têm qualquer funcionário nos seus quadros. É certo que, no futebol amador, este é um dado mais compreensível, mas diz-nos muito sobre a falta de recursos humanos especializados. E se formos mais longe, entre os emblemas que têm funcionários nos seus quadros, apenas 49% são remunerados. Ou seja, temos um caminho muito longo a percorrer para depois termos o vértice de uma pirâmide que seja cada vez mais sustentável e traga cada vez mais resultados.

Este estudo poderá servir de impulso para ser usado noutras geografias?

Espero que este estudo seja um bom ponto de partida para que outras entidades conheçam também a realidade com que estão a lidar. Temos tido um feedback muito bom de diversas instituições e acredito que se irá conseguir replicar este modelo nas mais diversas geografias e com outros públicos-alvo. Estes projectos são feitos não para a sua publicação, porque o importante é partir para um plano de acção que já foi definido pela Associação de Futebol do Porto e pelo seu presidente: criação de um gabinete estratégico e de serviço centralizado para os clubes, para ajudar os emblemas seja em serviços jurídicos ou de marketing; criação de um hub de conhecimento e de qualificação, já que 72% dos clubes revelaram que os seus funcionários precisam de formação especializada; e, uma vez que 37% dos clubes revelaram que não têm instalações desportivas próprias, definiu-se um plano para a melhoria dessas infra-estruturas.

Ler mais