Welket Bungué: “Escudamo-nos nas fragilidades dos outros”

Como actor, há tempos que deixou de andar na sombra. Com Viggo Mortensen e Kristen Stewart, integrará o elenco do próximo filme de David Cronenberg, mas Welket Bungué é mais do que isso. Dias 12 e 19, leva à edição física do Festival de Cinema de Berlim um dos mais recentes filmes que realizou: “Mudança”. Com Joacine Katar Moreira



Apontar o dedo não é só feio. É o fim do diálogo, o exacto oposto do que Welket Bungué quer. Lugar certo? Não será só o do meio, é não se deixar ficar só num. Nascido na Guiné-Bissau, feito pessoa entre o Alentejo e Camarate, e entre Lisboa e a periferia que não esquece, o Brasil, a Guiné que revisitou já mais que adulto e Berlim, onde tem vivido nos últimos anos, agarrou numa câmara, num telemóvel, no que cada momento pediu quando deu por si a achar que não lhe bastavam os papéis escritos por outros. Personagens são um conceito complexo para quem vê bem a diferença entre o fazer e o ser. Pois então fez. Filmes. Em catadupa e sem apoios, ou quase.

Depois de no ano passado ter protagonizado “Berlin Alexanderplatz” como Burhan Qurbani o reinventou, no papel de um refugiado guineense, regressa ao Festival de Cinema de Berlim, na primeira estreia de um filme realizado por si num festival de grande dimensão. Depois de um primeiro momento online, em Março, agora em versão física, a 12 e 19 de Junho, e semanas depois de ter sido anunciado como parte do elenco do próximo filme de David Cronenberg, com Viggo Mortensen e Kristen Stewart. Contudo, olhemos agora para este seu outro papel - o de artista, criador independente, do qual saiu “Mudança”. Com Joacine Katar Moreira, um filme-dança, como lhe chamou, ainda que nele se consiga encontrar um manifesto. A arte, diz, servirá em primeiro lugar para levantar questões, é certo, mas das respostas não tem medo Welket Bungué.

Em “Mudança”, Joacine Katar Moreira fala sobre igualdade. Palavra tão repetida que se questiona: “O que é isso da igualdade?” Igualdade, pergunto eu, é hoje o quê?

A igualdade hoje é o mesmo que deveria ser de há séculos para cá.Agora, pelas palavras da Joacine, quer-me parecer que compreendemos a semântica da palavra, mas em termos práticos não exercemos o que ela propõe, porque isso significa abrires mão de um conjunto de privilégios exacerbados que muitos de nós incorporaram, o que implica trazer o equilíbrio justamente para os outros em termos de direitos, em termos de sensibilidade, em termos de voz, em relação à vida na sociedade da qual fazemos todos parte.

Vamos então ao colonialismo, ao fascismo, ao racismo e ao sexismo. O homem velho, o de meia-idade, o jovem e o adolescente.

A Joacine é doutora neste tipo de temáticas e há um teor performático do filme que tem também a ver com este discurso falado, palavras da Joacine que surgem ali, naquele momento, e que reflectem todo o pensamento, a história e a biografia dela, claro que canalizados para a temática do filme, mas especialmente para aquilo que lhe interessa dizer aqui. Quando traz estes pilares perversos daquilo que é o domínio do Ocidente sobre as outras culturas no geral, está a dizer quais são os resquícios, quais são, diria, à falta de melhor termo, os conceitos que quando postos em prática continuam a revisitar aquilo que eram os interesses dos colonizadores, inclusive das ideologias opressivas relativamente aos outros povos e às que existiam anteriormente a elas. Confesso que nem tenho palavras nem consigo encontrar uma explicação mais sucinta ou poética do que aquela que a Joacine faz no filme.

Não são apenas dela as palavras que incorpora - há, por exemplo, a voz do pai do Welket, Paulo Tambá Bungué. Ela desdobra-se entre várias vozes, vozes que a atravessam também, como às outras personagens. Incluindo na figura do Welket, performer, homem, que vem personificar todas essas mulheres negras de que ela fala.

É por isso que estou lá, como uma criatura que se pretende indefinida em termos de género e de sexualidade, à semelhança daquela figura que é mostrada no início do filme [numa pintura] - uma nova versão do kabaro, que é um feiticeiro, um conselheiro - que pedi ao Nú Barreto para produzir de raiz. É uma criatura que já era invocada no filme “É Bom Conhecer-te”, uma espécie de épico narrativo que fiz em 2019. Entro no “Mudança” com as mesmas indicações que dou à Alesa [Herrero], a primeira performer, de vestido vermelho, e uso as palavras do meu pai. A ideia também é não esquecermos o ponto que inspira o filme quando falamos da cultura bijagó, uma cultura matriarcal, horizontal, em que são as mulheres que orientam e lideram, portanto tinha de aparecer deixando transbordar toda a vibração feminina que tenho. Estamos a falar de mudança e mudança para mim é uma coisa de colo, que vai ao encontro daquilo que é a mulher, formação, germinação. Colonizar um lugar deveria ser protegê-lo para gerar descendentes e seguir em frente, não oprimir nem reprimir. Mas a sede de poder faz com que isto aconteça.

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do NOVO, nas bancas a 11 de Junho de 2021.

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