Valter Hugo Mãe: “A história de Portugal só vai ser verdadeira quando disser respeito a todos, sem preconceito”

Após oito anos de interregno e na semana em que completa 50 anos, Valter Hugo Mãe regressa aos romances com “As Doenças do Brasil”. Inspirado no povo indígena anacé, que conheceu em 2017, traz-nos uma história sobre o colonialismo português e o quotidiano de populações que abdicaram das suas culturas como “estratégia de sobrevivência”. Um revisitar do passado de dois países como proposta para um reencontro que diz necessário para a construção do futuro



Desde o seu último romance passaram-se oito anos. É muito tempo para se estar em silêncio.
Julgo que estou à procura, cada vez mais, de alguma coisa que me obrigue a passar por um caminho estreito. Não me é fácil nem tão imediato o acesso a um livro novo. Antigamente, parecia que todas as opções e todas as ideias eram oportunas e estavam à disposição para uma colheita quase imediata. Dependia de uma certa resistência física de andar a fazer a vindima. Agora, não passa tanto por aí, passa por algo que imagino que seja um grau de exigência que traz também uma certa exaustão, que me obriga a escolher as peças na colheita com uma lentidão tremenda e com muita dúvida. É curioso que quanto mais parecemos saber, mais sabemos sobretudo o que não queremos.

Criamos mais filtros.
Sim, levanto muitas barreiras. Tenho muitas desconfianças acerca de mim e crio muitos vícios. Enquanto escritor, sou cada vez mais feito de uma parafernália de rituais, de manias e amuos. E depois não me satisfaço com quase nada. Acho até brilhante que algumas pessoas possam viver satisfeitas, porque eu vivo cada vez pior nesse sentido.

É um processo mais sofrido hoje?
Sobretudo mais severo. Não sei se é do foro do sofrimento, no sentido em que acho que sofrer tem mais que ver com precisar de alimentar filhos e precisar de pagar rendas de casa - pelo menos, é esse o sofrimento que respeito. O sofrimento dos artistas, tendo a não respeitar, embora seja o meu sofrimento. Mas acho que vivemos nessa angústia porque faz parte.

Psicológica e física ao mesmo tempo.
De facto, parece que vamos progredindo como antipáticos no nosso próprio terreno. Não antipáticos em relação aos leitores, ao mundo dos livros, nem aos outros artistas; antipáticos connosco e com a nossa própria auto-estima. Somos feitos de uma austeridade que nos impede de um deslumbramento fácil, de maneira que chegar aos livros ou decidir que uma determinada versão de um livro é a que quero editar acaba por ser um processo cada vez mais lento e custoso.

Em 2017 teve um encontro com tribos cearenses. Foi um momento decisivo para a escrita deste novo romance?
Foi. Andava há muito a abeirar-me, para usar uma expressão muito presente no livro, de um texto brasileiro e tive muitas ideias, passei por muitas atracções. Posso admitir, por exemplo, que durante muito tempo quis escrever uma história envolvendo o artista plástico Arthur Bispo do Rosário, uma das figuras mais bonitas que conheço do Brasil. Achei durante anos que seria, inevitavelmente, o meu livro brasileiro. Depois fui andando e pareceu-me sempre quase impositivo regressar à questão dos povos originários, porque eles trazem uma equação que nós, os brancos, e a Europa viemos perturbar, mas que se mantém, pendendo para uma certa existência pura. Daí, a ideia de meditar sobre os povos originários era-me recorrente e parecia quase denunciadora, como se, mais do que seduzido, estivesse obrigado a pensar sobre isso. E quando estive em Fortaleza a convite do [escritor] Lira Neto, que está hoje a viver em Portugal, visitei a comunidade dos anacés. Foi quando percebi que tinha mesmo de ir por esse caminho dos ancestrais.

Era um outro Brasil, esse que estava a descobrir?
É um Brasil que chega ao Brasil de raiz mais portuguesa, mas depois de séculos a ser dizimado ou quase exterminado. Hoje procura-se estabelecer a paz com culturas que foram obrigadas a ser adiadas e que se encontram, muitas delas, truncadas. É muito aflitivo. Certos destes povos precisaram até de estabelecer determinados processos de esquecimento para não se tornarem alvos fáceis. Muitas das pessoas a que chamamos genericamente índios, embora o termo seja errado, nem sabem de que comunidade seriam.

Remeteram-se a um certo silêncio.
Abdicar dos rituais e abdicar até das crenças, paulatinamente, ao longo de 200 anos é uma estratégia de sobrevivência. Os povos originários foram entendendo que era inevitável estarem na mira dos brancos e, ao contrário dos negros, que foram escravizados, os vermelhos não eram submissos, por isso eram normalmente abatidos. Foram-se escondendo das suas tradições e, hoje, muitos duvidam até se são descendentes dos povos indígenas. É essa tragédia de estarem vivos, de serem povos vivos, mas que perderam largamente as suas culturas e as suas tradições.

Dedica o livro a Ailton Krenak, um dos mais importantes activistas indígenas.
É uma figura profundamente inspiradora. Acho que é um pacifista, o melhor dos representantes, porque continua a estabelecer ou a propor um processo de paz quando tudo o que diz respeito aos povos originários parece uma pulsão de guerra. Tornou-se um embaixador digníssimo dos povos originários por essa bravura de reclamar, de protestar, de exigir, mas mantendo aquela graciosidade impressionante. Foi quase inevitável dedicar-lhe o livro, é quase inevitável citá-lo nas epígrafes.

Epígrafes em que, num arco temporal, são citados Pero Vaz de Caminha, Padre António Vieira, mas também Ailton Krenak. Foi a procura por um estabelecimento de diálogo?
Se quem não quiser ler o romance ler as epígrafes, já entende a tese e o que está em causa nestes 500 anos de influência branca no território do Brasil. Pelas vozes brancas e, depois, pelas vozes vermelhas vemos perfeitamente que tragédia está em causa e como se pode, num certo sentido, encontrar um tipo de definição para o problema brasileiro a que o Padre António Vieira já chamava “doenças do Brasil”. Nunca usei tantas epígrafes nem tão longas, mas achei fundamental colher dessas fontes. mostrá-las e fazer com que se torne tão simples e tão claro algo que, no fundo, já foi diagnosticado há tantos séculos. O que se tenta hoje debater e resolver de uma vez por todas é, de facto, uma falha nas consciências e no contrato social que vem de há muitos séculos. Pero Vaz de Caminha é muito explícito quando diz que quanto mais se pedisse aos índios, mais eles dariam e ficariam contentes. Por isso, até lhe parecia que os índios estavam com muito mais boa vontade naquele encontro do que estavam os brancos portugueses. Essa impressão de que a cultura europeia e os brancos chegaram ao território brasileiro imediatamente capazes de má-fé é logo a primeira. Por isso é que precisamos muito de lidar com esta realidade.

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Recorre a muitas expressões tupi. Em que medida é que a aproximação a essa língua o levou a um trabalho de investigação
Comecei por fazer muitas leituras e interessa-me sobretudo aquilo que pode chegar directamente das vozes dos povos indígenas. Há poucos registos, no sentido em que a maior parte das comunidades não estabeleceram relações com a escrita. É muito comum e transversal a praticamente todas as comunidades a preservação da cultura e da sabedoria através das canções. No entanto, sobretudo mais para o fim do século XX começaram a recolher-se testemunhos com as comunidades que foram conseguindo ser entendidas e há cada vez mais entendidos nas mais diversas línguas e dialectos das comunidades indígenas. Li também, não só pelos povos originários, mas pela questão dos povos negros, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, os trabalhos mais recentes de Lilia Schwarcz e do próprio Ailton Krenak.

Acaba por ser um romance que retrata o choque desse encontro da tribo com o “animal branco” que ali chega. Este processo alterou a sua perspectiva sobre o colonialismo europeu?
Com tantas idas ao Brasil, já tinha muitas desconfianças acerca do esplendor da primeira globalização portuguesa. Não que não seja incrível que um povo de cerca de um milhão de pessoas possa ter desbravado os mares e descoberto caminhos para continentes desconhecidos, e para comerciar as coisas mais apetecíveis há 500 anos. É óbvio que isso é incrível, faz de nós descendentes de gente muito brava, mas as bravuras históricas também se fazem por cima de grandes horrores e atrocidades, e não podemos vangloriar a memória de um Portugal antigo sem assumirmos ou sem reconhecermos o quanto dessa glória foi construído em cima do suor e sangue de tanta gente. Quando se viaja ao Brasil, como quando se viaja para qualquer lugar do mundo que tenha tido algum tipo de relação ou de conflito com o lugar que habitamos, percebe-se como a história se conta do lado de lá.

Neste romance conta-se a história dos povos dominados, e não dos dominadores, como tantas vezes sucede.
Acho que o que é terrível e deprimente é que não tenhamos, já tão maduros enquanto povo de cultura e enquanto povo académico, a capacidade de relativizar as coisas e, sobretudo, de as abarcar numa maior completude. Esta onda de ofensas às estátuas representando figuras que foram polémicas, por exemplo, entendo-a perfeitamente, porque essas figuras continuam expostas nas nossas ruas sem que exista informação sincera e honesta acerca das atrocidades por que foram responsáveis. Posso entender que tenhamos ainda o infante Dom Henrique exposto em algum lugar, mas não se pode entender que não exista a consciência de que ele poderá ter sido o primeiro grande esclavagista. Ainda que ele possa importar muito à história de Portugal, importa também profundamente, de forma negativa, à história dos povos negros, e essa também tem de ser a história de Portugal, que só vai ser verdadeira quando disser respeito a todas as pessoas, sem preconceito. Se continuarmos a expor as estátuas vangloriando apenas o que importou aos povos brancos, vamos continuar a ser racistas.

A literatura pode ser o lugar certo para fazer essa desconstrução?
A literatura tem de ser lugar para todas as coisas. Tem de ser lugar para essa liberdade. Até diria que estamos a atravessar um tempo dificílimo de pudores. As pessoas vão às redes sociais e, antes de se informarem, já estão a opinar, o que é muito cansativo e muito frustrante porque parece que os diálogos deixam de ser de boa-fé e passam a ser do foro do fanico. A literatura, para mim, tem de ser essa liberdade de expressão em que as coisas que me importam e que me incomodam se convocam. E ainda que esteja rendido à ficção e que pratique ficção, o que me interessa não é o casamento da donzela no fim. O que me interessa é o quanto a donzela e o cavalheiro me permitem ponderar acerca do mundo em que vivo e da sociedade que queremos construir.

O lugar de fala deste romance expõe a importância da ancestralidade, que está presente nas personagens. De que forma é que isso é importante para um leitor contemporâneo e pode ajudar a um diálogo no futuro?
A tradição, tendo a crer, é sobretudo uma aprendizagem de harmonização com o mundo. Hoje percebemos que a sociedade branca, em pouco tempo, pode exterminar o planeta, e os povos originários viveriam até à eternidade sem beliscar a valência ecológica. Isso surge exactamente porque a tradição dos povos originários vive muito desse ensinamento ancestral, de estar em equilíbrio, em harmonia, de não ferir.

De não descolar da terra, como escreve Ailton Krenak.
Se pensarmos bem, nos povos brancos e, sobretudo, ocidentais instala-se cada vez mais a ideia de que somos tóxicos, de que somos uma perversão na natureza e que estamos a progredir cada vez mais no sentido de nos transformarmos em agressores do planeta. Por outro lado, não posso ver o meu livro exactamente como um lugar de fala. Vejo-o como lugar de escuta. Não posso exactamente falar pelos povos indígenas, como não posso falar pelos povos negros - compete-me deixar que sejam eles a falar. Sou escritor e escrever é minha forma de ouvir. Este livro é mais o modo como ouvi ou como ouço o lugar de fala dos povos vermelhos e negros.

Até porque esse olhar branco tem preponderância na imagem que construímos destes povos e destas comunidades.
Em várias conversas com amigos brasileiros, alguns deles enfurecidos com o que se passa hoje no Brasil, com este poder fascista, racista, misógino, homofóbico, no fundo, com um governo do ódio e rendido ao ofício de odiar pessoas, eles evocam essa distância profunda que existe entre um brasileiro e um europeu. Nós, europeus, ainda somos resultado do iluminismo, das ideias francas da França, que ainda temos como um lugar vibrante e fundamental, uma coisa cardíaca nas nossas ideias, ainda que hoje, eventualmente, com um pacemaker. Para um brasileiro, accionar isto de imediato é quase impossível, porque o brasileiro cresce num território muito mais agressivo, interrompido permanentemente por governos corruptos, ditaduras.

É uma outra realidade.
A democracia no Brasil é ainda breve... A nossa também não é grande coisa. Mas, lá, o tumulto é uma coisa contínua. Eu nunca poderia escrever profundamente como um brasileiro. Não seria capaz e não seria sequer legítimo. Por isso, este livro é a forma que tive, enquanto escritor português, de ouvir determinadas coisas.

Como escreve, estas comunidades têm um sentimento de urgência que o Valter, como europeu, não tem. Receia que este romance possa ser criticado como um olhar branco e europeu sobre aqueles povos e aquelas comunidades?
Será sempre, inevitavelmente, um olhar branco, quanto mais não seja um olhar branco sobre a culpa branca ou sobre o gesto branco. Por mais que exponha na história o quotidiano de uma comunidade originária, é sempre uma comunidade originária inventada [ficcionada] por um branco e, por isso, há sempre uma consciência branca em cima de um gesto postiço. Só o poema é sempre verdadeiro no sentido em que a força poética é sempre verdadeira. Escrevo por essa verdade. Se através dessa verdade conseguisse criar algum tipo de debate ou algum tipo de justiça, seria muito gratificante.

Mas não procurou fazer um romance de redenção?
Não. Acho que é simplesmente o começo de um diálogo. Acho que nós aqui, em Portugal, nunca fomos seduzidos para ganhar consciência do que significa verdadeiramente termos sido colonizadores. A nossa escola foi sempre estruturada numa certa festa alegre acerca da valentia portuguesa e nunca se criou grande consciência acerca do horror com que a valentia foi exercida.

A recuperação da língua tupi e desses dialectos era também uma parte essencial para esse diálogo?
Sim. Há pequenos vocábulos - pajé, igarapé, curumim - e várias expressões, sobretudo palavras que acho deslumbrantes, lindíssimas, e que o leitor português, à partida, não conhecerá.

Não pensou na possibilidade de fazer um glossário?
A dada altura foi tentador, porque queria usar cada vez mais termos mas, ao mesmo tempo, não queria que o livro tivesse um aspecto folclórico, de recolha etnográfica, que poderia criar no leitor uma distracção. A mim interessa-me a questão de fundo e o debate das questões de fundo ligadas à existência e à sobrevivência. O resto poderia parecer uma coisa quase da ordem do jardim zoológico.

Como se fosse um objecto exótico?
Exacto, criar um exotismo em que parecesse que estávamos a observar um zoológico onde os povos originários seriam vistos outra vez como animais selvagens. Quis travar esse exotismo para deixar vir ao de cima a sua própria normalidade.

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Vemos hoje um Brasil profundamente dividido em questões de identidade e onde começam a surgir mais vozes provenientes destas comunidades. Como perspectiva este momento actual?
O Brasil está imerso numa tragédia contínua e agravada com este Governo. É angustiante. Sinto, como quase todos nós, que posso fazer muito pouco. Mas posso, pelo menos, não ficar calado. Tudo no Brasil depende, neste momento, de não nos deixarmos intimidar. Estas políticas começam por instalar processos de medo e rupturas na sociedade que fazem com que os nossos vizinhos sejam os nossos inimigos. Ao invés de criar um apaziguamento na cidadania, estes regimes procuram o oposto.

Para alguém que nasceu em Angola e viveu alguns destes processos, há um peso na forma como este Brasil contemporâneo se apresenta?
Nasci em Angola e coube nesse contingente dos retornados. Embora, quando se deu o 25 de Abril, a minha família já estivesse aqui, passei por essa experiência de uma certa rejeição generalizada - lembro-me de ter cinco, seis anos e estar na escola primária e de ser constantemente ofendido. Muita gente tratava-me por preto e mandava-me para a minha terra. Com essa coisa sobre a qual fui lentamente ganhando consciência de em que medida é que estava a ser ofendido e qual era o tipo de ofensa que me estava a acontecer, fui desenvolvendo naturalmente uma repulsa por todo o ataque aos excluídos e por tudo o que tenha a ver com a diminuição das pessoas por questões torpes. Acho que é uma coisa do foro da demência. É tão inevitável que sejamos todos diferentes que haver alguém que procura uma hegemonia de uma pureza qualquer não é nem estupidez, é demência.

O que estabelece uma vez mais uma relação harmoniosa com este livro e com a relação que tem vindo a desenvolver com o Brasil. Abre, assim, um novo capitulo nessa história?
Há muito que queria escrever sobre o Brasil. Funciono muito por ciclos. Lembro-me de que, há uns anos, uma senhora me dizia que os velhotes sobrevivem pelo menos até ao fim das telenovelas; que quando acaba uma telenovela é comum morrerem mais velhos porque há qualquer coisa na resistência humana que os faz sobreviver até ao último episódio. Vejo-me muito assim. Tem que ver com precisarmos de uma ideia de completude. A minha experiência com o Brasil só se completaria com um livro. É uma materialização. Os meus primeiros quatro romances formam uma tetralogia e vão da vida de uma criança até à vida de um velho no lar. É exactamente esse exercício, ansioso por estar completo. Os livros que estou a escrever agora são ilhas e o próximo livro vai ser mais uma, para fechar. São, de alguma forma, livros sobre a ausência. Há qualquer coisa de ausência no que diz respeito aos povos negros, há uma rasura. O livro é sobretudo uma reflexão sobre os povos originários, mas não deixa de ser também um manifesto acerca dos povos negros e da escravatura. Isto para dizer que tenho a sensação de que estou a adoptar a estratégia dos velhos: enquanto não escrever pelo menos o próximo livro, não hei-de morrer.

Mas há uma nota sobre ter sido escrito em Coura, como homenagem até ao Festival Paredes de Coura.
Comecei a frequentar o festival muito cedo, logo nos primeiros anos - julgo que a partir do quarto, deveria ter 25 anos, 26 no máximo. Venho de uma geração em que as coisas dos jovens não existiam. Ser-se jovem era uma coisa da rua. Falo sobretudo de quem vive fora dos grandes centros, Porto e Lisboa. Íamos para a casa uns dos outros, andávamos à deriva. Quando aparecem os festivais de Verão foi como se, de repente, alguém inventasse o paraíso para a nossa geração.

Ainda escreverá sobre esse lugar?
Qualquer dia. Coura é um lugar especial por causa disso e é possível que um dia escreva qualquer coisa sobre aquelas terras. Para mim, Coura é um bocado o Twin Peaks português.

Com os Sonic Youth como música de fundo?
Exacto. É uma terra de improváveis. De repente tens ali uma pequena vila, com muito poucos habitantes, e em certas ocasiões podes ver a Patti Smith a passear ou o Nick Cave a dizer que quer mirtilos.

Celebra esta semana 50 anos, 25 deles ligados aos livros.
Faz-me tanta confusão já não ser um miúdo de 27 anos [risos] e não saber ainda o que pensar de mim. A verdade é que, por puro vício, não consigo ficar quieto, não consigo ficar a fazer as mesmas coisas a vida inteira. Fui progredindo e acho que em todos os meus gostos e em todos os meus desejos progredi como progridem os velhos. Por isso é que hoje só ouço missas e madrigais ou sinfonias, passo a vida em museus, tenho uma certa nostalgia pelo século XIX. Enfim, há qualquer coisa no envelhecimento que nos educa para um gosto refinado que também é a prova de estarmos mais velhos. Parece que somos assim encurralados por todo o lado, e por mais que queiramos depois aparecer ali no café de sempre, onde param os jovens que ainda estão na universidade, por mais que queiramos parecer gente fixe e inteirada da actualidade, não há como. Tenho a idade dos pais deles e, por isso, as pessoas que acho que são normais - porque as da minha geração já não são normais, já estão todas a fazer terapia e tomam muitos comprimidos - são pessoas que têm entre os 18 e os 30. Mas quando falam comigo tratam-me por senhor: devem perceber que, ao contrário delas, eu também já não devo ser normal.

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