Uma ponte aérea de problemas familiares entre Lisboa e Roma

Romana Petri é autora de outros livros passados em Portugal, como “A Senhora dos Açores” e “Regresso à Ilha”.



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“A Representação” começa com a “chegada quase pontual” de um avião da TAP a Lisboa. Mas não é da companhia aérea, ou do governo que a tutela, que trata o familygate descrito no romance da italiana Romana Petri. Em vez disso, acompanhamos o confronto de Vasco, regressado à terra natal após prolongada ausência, com o pai e as irmãs. Apenas a mais velha lhe perdoa a forma como os três (e ainda o marido da mais nova e a madrasta, futura usufrutuária do maior quinhão de uma herança que se prevê avultada) foram retratados nos quadros pintados pela sua mulher italiana, de nome próprio Luciana, mas quase sempre nomeada por Albertini.

Desde que aterra em Lisboa, sendo levado para a casa que foi da sua mãe, agora entregue à primogénita, Rita, por um taxista que lhe confidencia “sinto muitas vezes uma grande vontade de acelerar e ir contra o primeiro muro que me aparecer à frente”, Vasco está praticamente por sua conta. E precisa de lidar com as festas infelizes de uma família insuportavelmente disfuncional.

Incapaz de esquecer “Família Portuguesa”, a tal exposição da discórdia, que até teve honras de aparecer no Telejornal, a sua irmã gémea, Joana, avisa que não pretende dirigir-lhe palavra, apesar de o receber para a Consoada na casa que divide com o não menos inclemente marido Nuno, “um comunista que, além de envergar a camisola com Che Guevara e participar todos os anos na festa do 25 de Abril, se dedicava a coleccionar máquinas fotográficas de luxo, roupa nova e muitas comodidades”.

Para rematar, o almoço de Natal decorre na residência do patriarca, Tiago, conhecido por “Dinossauro”, que de ministro passou a multiplicador de lucros de empresas. Principal garante do nível de vida dos filhos, dedica a Vasco uma maior vontade de perpetrar humilhações antes de realizar transferências bancárias.

É de crueldade em família que trata o romance da editora, tradutora e crítica italiana Romana Petri, cujo protagonista vai realizando uma ponte aérea entre Lisboa e Roma, onde se acerca e se afasta de Albertini. Já a artista prefere manter-se na capital italiana, junto ao cão Barabba, e pronta a acrescentar sangue menstrual às pinturas. Nada que trave o seu avanço no meio artístico enquanto esfria o matrimónio pouco tórrido. “Resignara-se à falta de paixão do marido”, a quem censurava o hábito, adquirido na casa materna, de urinar sentado na sanita, lê-se em “A Representação”.

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