Uma aldeia alentejana pela hora da morte

Rui Couceiro só agora fez a sua estreia na ficção, mas há muito tempo que é uma das figuras do sector livreiro em Portugal.



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Só a meio de “Baiôa sem Data para Morrer”, romance de estreia do editor livreiro Rui Couceiro, é que o leitor fica a saber a razão de ser do título. Não vale a pena fazer o spoiler, que diz respeito ao legado de um médico que estudou a fundo a população da envelhecida aldeia alentejana de Gorda-e-Feia, pois há muito mais no livro do que dados anotados à mão que tanto podem causar calafrios como fazer merecer o Nobel da Medicina.

Refira-se, ainda assim, que o Baiôa que surge no título de um dos fenómenos editoriais do Verão de 2022 tem como nome próprio Joaquim, não vai para novo e distingue-se dos vizinhos cada vez mais raros por ter assumido a missão de impedir que Gorda-e-Feia sucumba ao processo de desertificação em curso. Nem que para isso tenha de convencer o presidente da câmara a conceder-lhe uma licença especial para fazer as obras de recuperação das casas deixadas ao abandono por quem procurou outras paragens. Na esperança de que voltem, ou que venham os seus descendentes.

É o caso do protagonista, um professor de 33 anos, farto de dar aulas e de perceber para onde será transferido a cada concurso de colocação. A recuperar de um burnout, e sem quase nada que o prenda, abraça a aventura de habitar a casa onde em tempos viveram os avós maternos. Muito mais do que os quilómetros que distam entre Gorda-e-Feia e a capital, todo um outro mundo se lhe desvenda, nem que seja porque o café da aldeia também faz as vezes de barbearia. Ou por haver galinhas com nome de gente e por pouco demorar até que um desvio no caminho para verter águas o faça encarar um homem enforcado numa árvore.

Além de Baiôa, que acolhe o professor como seu ajudante de obras e não só, o livro é habitado por figuras marcantes, como a viúva Zulmira, que guarda uma relíquia tão útil quanto chocante do falecido, a muito dada Fadista ou o pitoresco Zé Patife.

Após ter começado pela comunicação da Porto Editora, Rui Couceiro criou a editora Contratempo, que tem entre os autores figuras tão mediáticas quanto Cristina Ferreira, Bruno de Carvalho, Teresa Guilherme e Tony Carreira. A estreia no romance, com uma obra de 448 páginas que vem merecendo as melhoras críticas, foi anunciada pelo próprio autor numa entrevista ao NOVO. “Esta história já vivia dentro de mim desde 2007, altura em que comecei a primeira versão, que terminei em 2013 com uma grande frustração, porque não estava como queria. Só em 2017, com a Contraponto já lançada, voltei a pegar na ideia, escrevi tudo de novo e terminei no ano passado”, contou em Fevereiro.

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