Um thriller sombrio cujos contornos são bem reais

Lebedev é um dos destaques da nova geração de escritores russos. “O Veneno Perfeito” é o seu primeiro livro publicado em Portugal.



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O recurso frequente da Rússia a venenos letais para eliminar os seus inimigos políticos serviu de inspiração ao escritor Sergei Lebedev para o seu romance recheado de suspense “O Veneno Perfeito”. Considerado um dos melhores escritores russos da actualidade, este thriller é a sua primeira obra publicada em Portugal. No entanto, não poderia ser mais premente. Não só pela forma como a Rússia, depois de um período de algum adormecimento, reemergiu como um dos principais protagonistas da geopolítica internacional - as ondas de choque da guerra na Ucrânia estão a ter um impacto global -, mas também porque, ao longo dos anos, o governo russo tem sido acusado de tentar silenciar através do veneno opositores incómodos (Alexei Navalny e o espião Sergei Skripal foram duas das vítimas mais recentes deste método).

A personagem principal nesta obra é o professor Kalitin, um químico obcecado com o objectivo de desenvolver um veneno absolutamente mortal e que seja impossível de detectar, para o qual não exista antídoto. Porém, Kalitin debate-se com o sentimento de culpa e é corroído pelos remorsos suscitados pelas várias mortes que resultam do seu trabalho e da busca para criar esse veneno. Na sequência do colapso da União Soviética, o cientista foge para a Europa Ocidental, onde lhe é concedida uma nova identidade, embora faça questão de se fazer acompanhar, nesta fuga para uma nova vida, de um frasco do seu veneno.

“O Veneno Perfeito” é um livro entusiasmante cuja acção parte da Primeira Guerra Mundial e se desenrola por várias décadas, passando por conflitos de relevância histórica, e no qual Lebedev analisa as motivações da União Soviética e da Rússia para desenvolverem neurotoxinas, mas em que também explora a responsabilidade e os princípios éticos dos cientistas que desenvolvem e disponibilizam estas ferramentas fatais. Afinal, os avanços e a evolução científica são livres de consequências? Outra nota a reter neste romance é que, apesar de não ser feita qualquer referência a Vladimir Putin no decurso do livro, tendo em conta o tema predominante, nem por isso é possível deixar de sentir a sua presença.

Sendo um romance de espionagem envolto num mundo marcado pelo secretismo e que mostra ao leitor uma janela para o mal e para a tirania, um dos maiores elogios que podem ser feitos a Sergei Lebedev em “O Veneno Perfeito” é a comparação com John Le Carré, um dos mestres da literatura de espionagem.

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