Um bando à parte na América anti-hippie de Warhol

Se críticas há a apontar ao retrato de Haynes, destaca-se a incapacidade de demonstrar como, mesmo depois do fim, os Velvet se tornaram uma verdadeira instituição e influenciaram inúmeros artistas nas décadas seguintes.

Primeiro escutamos as palavras de Jonas Mekas: “Não éramos a contracultura, éramos a cultura.” Depois entramos no universo cósmico dos Velvet Underground e regressamos à América do som hipnótico de Lou Reed, John Cale, Maureen Tucker e Sterling Morrison. O retrato da banda foi agora imortalizado no cinema.

A bênção de Laurie Anderson, que foi companheira de Lou Reed, tornou-se proposta irrecusável para o realizador Todd Haynes. Decidiu doar o espólio de Lou e a Universal Music Group avançou com a proposta. Ao realizador de “I’m Not There” (filme de 2007 em torno de Bob Dylan) e de “Velvet Goldmine” (retrato onírico de David Bowie, de 1998) coube a tarefa de voltar a um dos períodos mais importantes na história da música ocidental, de transição entre duas épocas que marcam o fim do sonho hippie - que os Velvet sempre detestaram.

O surgimento do grupo, quase sempre mal entendido, mudou o curso da música independente, num cruzamento artístico que seria por si só uma verdadeira vanguarda. Deixar claro esse aspecto foi o primeiro grande desafio superado por Haynes em “The Velvet Underground”, novo documentário da Apple TV+ que revisita uma época feita por verdadeiros heróis de rua.

Já a recuperação do material de arquivo, intercalado com entrevistas recentes, transporta-nos para o mundo de Lou Reed, à época apenas um jovem desconhecido dos subúrbios de Long Island que encontrou nos bares gay de Nova Iorque a sua primeira audiência. Queria ser rico, estrela rock. O resto é uma história conhecida.

O encontro com John Cale serviu de ignição e é um dos episódios retratados no documentário que acompanha a ascensão dos Velvet até ao momento da fusão com a Factory de Andy Warhol. O pintor e cineasta viu no grupo a possibilidade de expandir o seu conceito de art show, que se materializou na série de eventos “Exploding Plastic Inevitable”: espectáculos de luzes e pinturas warholianas, acompanhadas pelo som da banda, tornada verdadeiro mestre-de-cerimónias. Mas os Velvet eram mais do que isso.

Separadas as águas, Lou Reed despediria Warhol, que lhes produziu o mítico álbum da banana e lhes juntou Nico (a actriz Christa Päffgen), uma das suas musas predilectas, também ela com uma passagem efémera pelos Velvet, que teriam mais quatro álbuns de estúdio
e umas quantas compilações.

Se críticas há a apontar ao retrato de Haynes, destaca-se a incapacidade de demonstrar como, mesmo depois do fim, os Velvet se tornaram uma verdadeira instituição e influenciaram inúmeros artistas nas décadas seguintes. Não é, por isso, um retrato definitivo, mas antes o reenquadrar elegante de um arquivo que pedia essa organização. Em definitivo, serve para que aquelas canções continuem a existir nas “tomorrow parties”.

The Velvet Underground. De Todd Haynes, com Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker, Jonas Mekas e Mary Woronov (Apple TV+)

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos, Susana Bessa e Ricardo Ramos Gonçalves

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