Tim: “Os Xutos são mais do que a soma das partes”

Tim é uma das partes que formam uma das principais bandas da história da música portuguesa. O vocalista dos Xutos & Pontapés, que estão prestes a celebrar 44 anos, percorreu, nesta conversa com o NOVO, a sua carreira e décadas de música. Destacou a importância do equilíbrio dos egos no grupo, falou dos difíceis primeiros anos até os Xutos se estabelecerem, e partilhou diversas estórias e momentos marcantes. Também abordou a estreita ligação que têm com o público, e os restantes projectos em que esteve envolvido.



Chama-se António Manuel Lopes dos Santos, mas Tim é o nome pelo qual todos o conhecem. Quem começou a chamá-lo assim?

Eu sou Tim praticamente desde que nasci, porque me chamo António e era o Toninho. A minha irmã mais velha, que tem pouca diferença de mim e ainda era bebé, não conseguia dizer Toninho. Então contraiu para Tim, que era o que ela conseguia dizer - e assim ficou.

Aprendeu a tocar guitarra sozinho, aos 13 anos. Como surgiu o interesse pela música?

Não sei (risos). Sempre gostei muito. Sempre fui fã de rádio. Gostei sempre de estar a ouvir telefonia. Depois, aos 10 anos, tive uma hepatite grave e nessa altura passei seis meses praticamente fechado no quarto. O meu pai tocava harmónica e compraram-me uma harmónica daquelas de fado popular da feira, e fui aprendendo a tocar aquilo. Dois ou três anos depois, entrei para os escuteiros de Almada, a malta estava a começar a tocar viola e eu comecei a interessar-me. Os meus pais iam a Espanha naquelas excursões de antigamente, e pedi-lhes para me trazerem uma viola, porque em Espanha eram mais baratas. Eles trouxeram-me uma guitarrinha pequena, que ainda hoje tenho, e comecei a aprender a tocar essa guitarra. Estive talvez dois meses a olhar para aquilo, sem saber sequer afinar, só a mexer nas cordas, e depois nos escuteiros juntei-me a uma malta um bocadinho mais velha e comecei a tocar com eles - isto em 1973, portanto, mesmo antes do 25 de Abril. Mesmo assim, as canções que se tocavam, que se aprendiam, eram coisas do [Francisco] Fanhais, do Zeca Afonso, por aí. “Canta, Amigo Canta”. Canções de grupo, de roda, digamos assim. Continuei, e depois passei a ser o gajo da guitarra. Andava sempre com a guitarra atrás, porque era pequenita, era portátil e, portanto, levava-a para a escola, levava-a nas férias, levava-a para as excursões, e ia aprendendo mais canções. Depois, tive a sorte, em 1975, de o meu pai ter comprado uma prenda para os filhos. Comprou uma aparelhagem, e nas instruções vinha uma guitarrinha elétrica com um fio para se ligar lá atrás. E isso deu direito a que lhe começasse a infernizar a cabeça para ver se me arranjava uma guitarra daquelas, e ele, como não tinha muitas posses, fez-me uma. Ainda tenho essa guitarra. Foi a guitarra com que fiz a audição para os Xutos & Pontapés. Tive aulas de guitarra durante pouco tempo, e só entrei para o Conservatório para aí aos 19 anos. A fase inicial foi assim. Comecei a tocar os bailes com 15 anos, e a tocar baixo com a mesma idade. Tínhamos um grupinho de amigos músicos que se juntavam nas férias, e o conjunto de bailes normalmente fazia um intervalo por volta das 23h30, ou à meia-noite, para irem à bifana ou para descansarem. E nós pedíamos os instrumentos emprestados, íamos para o palco, e tocávamos uns 20 minutos ou assim. Depois eles entravam outra vez. Portanto, isto era a nossa vida. Era assim.

Quais eram as suas referências na música na altura? Referiu Zeca Afonso, era uma delas?

Era, particularmente o álbum “Cantigas do Maio”. A seguir vieram os Beatles, um grupo do qual gostei muito. Também tive a sorte de me emprestarem um livro de música, o “Beatles Complete”, que tem todas as canções dos Beatles para piano, com acordes de guitarra e as letras, e eu fui descascando aquilo tudo, de tal forma que, talvez aos 17 ou aos 18 anos, já sabia tocar tudo dos Beatles. Fui aprendendo também a tocar baixo com os discos. Ia tocar à Moita num conjunto que havia na Moita, ia tocar à Caparica... Tocava na Margem Sul.

Qual foi o momento em que percebeu que aquilo que mais gostava de fazer era música? Foi imediato ou levou tempo a perceber que era mais do que um passatempo?

Mais ou menos por volta dos 15 ou 16 anos tive um professor de francês no liceu que tocava órgão. Foi uma coisa muito simples. Ele levou-me e a todos os colegas no fim do ano lectivo a casa dele, reuniram-se lá dez pessoas à tarde. Ele tinha um órgão daqueles de casa e tocou bocadinho. Depois esteve a contar estórias, que tinha vindo de Coimbra, que tinha tocado neste e naquele conjunto. Eu sentia admiração por aquele professor, e pensei que se ele era professor e tocava, então a minha vida não precisava de ser só estudar, tirar um curso e por aí fora. Se calhar, também podia fazer qualquer coisa em paralelo, mais a sério. A partir daí comecei mesmo a procurar, porque era mesmo preciso procurar: com quem tocar, onde tocar. Portanto, foi mais ou menos a partir daí que, não pensando em ser profissional da música - porque nunca abandonei os estudos -, pensei que havia outro caminho sem ser apenas aquilo de só tocar para os amigos e de fazer as festas. Achei que podia aprender mais, podia fazer mais, porque realmente não me tinha apercebido de que aquilo podia ser mais do que um entretém.

O que mais o cativou na banda quando se juntou aos Xutos & Pontapés?

Estou lá desde o primeiro ensaio. Cativou-me tudo. Tinha 18 anos, cativou-me vir para Lisboa, ensaiar, aquela malta que era bastante diferente do grupo de amigos que tinha em Almada. Nem era tanto a possibilidade de tocar, de ir para o palco ou assim, porque no primeiro concerto tocámos três vezes ao vivo, tudo coisas mais ou menos pequenitas. Isso era uma excitação, mas era muito engraçado e era o sentido de uma outra abertura para a vida. Novas experiências, novas pessoas, novos sítios, novas modas. Percebi que havia um grande sentido de comunicação também entre as várias pessoas que nessa altura estavam a dedicar-se ao rock em português, desde o pessoal do Vavá, à malta do Pedro Ayres, a malta de Almada, dos UHF. Não éramos muitos, mas havia uma espécie de competição, por um lado, e união, empréstimo e partilha do movimento, por outro lado.

Isto aconteceu pouco depois do 25 de Abril, numa fase em que Portugal ainda se estava a abrir para o mundo, com muita informação a chegar. Como era, naquela altura, o mundo da música em Portugal?

Tínhamos vindo de uma fase no início dos anos 70 do Festival da Canção, depois veio a fase dos cantautores e do canto de intervenção, e por volta de 1976 ou 1977, isso começa a ficar esgotado. Pessoas como o Zé Pedro e outros, um bocadinho mais velhos do que eu, ouviam muito rock que se fazia lá fora. Começou a ser possível ter mais discos e ter mais material para se ouvir, e de repente aparece o punk. Portanto, abriram-se as possibilidades, mesmo com as guitarras raras e caríssimas, mesmo com isso tudo, havia sítios onde se podia ir ensaiar. Alugava-se a sala, que estava equipada, e começámos a pensar no que íamos tocar. Houve malta que se dedicou ao que hoje se diz que são covers, que é tocar as músicas dos outros o melhor possível, e houve gente que se dedicou a fazer as suas próprias canções e a desenvolvê-las. Agora, o panorama para se tocar e se fazer espectáculos era raro. Havia os bailes, muitas vezes nos liceus de Lisboa e nas associações. Uma das coisas que nós praticávamos era exactamente o bandjacking, que é ir para cima do palco, pedir os instrumentos e tocar duas ou três músicas. Isso fazia-se muito. Mesmo a própria divulgação, os próprios jornais... Quando o fenómeno aparece, a divulgação ainda é um bocado estranha. Acho que as primeiras notícias que aparecem sobre os Xutos & Pontapés, ou sobre a música rock portuguesa, são do Diário de Lisboa.

A nível da imprensa ainda não se falava muito sobre este movimento musical?

A imprensa ainda olhava para aquilo de uma forma estranha, porque os jornalistas de música estavam habituados a outro tipo de música, e aquilo era novo. Por sorte, também ao mesmo tempo, apareceu uma nova geração de jornalistas, mais da nossa idade, que acompanhava as nossas intervenções, portanto, tudo isto gerou um movimento. Agora, posso dizer que o meio era extremamente pobre, extremamente pequeno, muitíssimo fechado. Portanto, nos concertos dos primeiros três ou quatro anos só iam rapazes, com mais de 17 anos. Não é nada do que se vê hoje, Lisboa também não era nada do que é hoje. Era outra sociedade.

É interessante que vocês tenham apanhado essa fase de mudança, onde tudo parecia ser uma novidade.

As ideias mais malucas que surgissem ia tudo para a frente.

Os primeiros anos não foram fáceis para os Xutos se estabelecerem. Alguma vez pensou em desistir da música e seguir outro caminho?

Esse pensamento nunca me abandonou. Gosto muito do que faço, mas nunca me abandonou a sensação de que um dia pode não acontecer.

Mesmo actualmente?

Mesmo hoje em dia. Pode ser por motivo de saúde, pode ser outra coisa qualquer ou pode ser por falta de vontade. Mas isso nunca me abandonou, porque como vim de uma altura em que não havia, e passei pela não existência das coisas, isso nunca me abandonou. Nunca dei por garantido que ia ser sempre assim e cada vez melhor. Nos Xutos - e penso que noutras bandas também -, essa sensação deu-nos capacidade de sobrevivência. Realmente, não havia nada a perder, só tínhamos a ganhar. Não temos que estar presos à ideia de que se fizermos isto vai correr mal, e depois não o fazemos. Não. Pior não fica. Já passámos por isso e estamos aqui. Ao longo da minha vida tive foi a sensação oposta, que é “isto está a correr bem, olha que engraçado, olha que porreiro, olha que bom, é tão engraçado, tão bom”. Essas sensações positivas foram sempre valorizando isto mais do que a sensação de que não ia dar.

Tirou o curso de Engenharia Agrónoma. Porque escolheu esse curso e, já agora, alguma vez trabalhou em algo relacionado com esta área?

Não, eu fiz o curso todo. Demorei um bocadinho a fazê-lo, porque foi em paralelo com os Xutos. Entrei para o curso em 1978, na Ajuda, e nesse ano começaram os ensaios nos Xutos. Em 1978, nesse Inverno, também entrei para o Conservatório. Portanto, foi tudo ao mesmo tempo. Fiz o curso, depois para fazer o estágio estive a trabalhar em Coruche. Estive lá quase um ano. Nessa altura, para ter ideia, estava a vir de Coruche do trabalho e a ensaiar para o “Circo de Feras”. A seguir gravei o disco, fiz o estágio e disse à minha família que ia dedicar-me mais à música, pois também não tinha um emprego evidente naquela área.

Em 1987 lançaram o álbum “Circo de Feras”, que comemorou no ano passado 35 anos. Foi um momento decisivo para os Xutos & Pontapés?

Com certeza que foi, embora quando olho para os Xutos ache que todos os momentos foram decisivos - é algo um bocado estranho. Em termos de público, em termos de reconhecimento, realmente o “Circo de Feras” fez muita diferença. Foi também a primeira vez que nos deram ferramentas decentes para podermos trabalhar, tanto em termos de produção, como em termos de promoção, como em termos de divulgação, de respeito, de sítios para tocar. Depois do “Cerco”, e depois das actuações todas no [Rock] Rendez-Vous, já estávamos numa situação quase sem saída, ou seja, como se diz, era “go big or go home”. Ou crescíamos, ou para ser sempre igual não valia a pena, e ainda bem, porque crescemos e isso fez toda a diferença. A partir daí passámos a ser muito mais reconhecidos e a poder fazer o nosso trabalho de uma forma muito mais eficiente.

Os Xutos & Pontapés rapidamente foram conquistando fãs e a legião foi aumentando, ano após ano. Como é que explica a ligação que têm com o público?

Não posso explicar, é como qualquer relação forte e íntima. Recentemente estive no programa do Fernando Alvim e ouvi isso. Ouvi vários comentários desse género. Dizem que éramos muito próximos das pessoas, que não éramos estrelas. Somos estrelas à nossa maneira, com certeza. Se calhar essa ligação aconteceu até pela sensação de não haver nada a perder, de gostarmos do que fazemos, de querermos fazer sempre melhor, de termos uma sensação boa depois de fazermos as coisas. É claro que fizemos coisas que não correram tão bem, mas a maior parte delas correu melhor do que estávamos à espera. É quase como uma equipa que vence - as pessoas depois gostam de ser daquela equipa, gostam de pertencer àquele mundo porque é um mundo sim. Desde o Rock Rendez-Vous acho que éramos os primeiros da segunda linha e não os últimos da primeira linha. Nós tocámos três ou quatro anos só às quartas e quintas, não tínhamos direito a tocar nos dias bons. Nesses dias iam tocar o Rui Veloso, os Heróis do Mar, mas nós não íamos.

Mas isso depois acabou por mudar.

Sim, mas naquele percurso de dez anos do Rendez-Vous só na segunda abertura do Rendez-Vous, e já sem o Francis, é que conseguimos passar para o horário nobre. E só conseguimos passar para o horário nobre porque quando o Rendez-Vous fechou, por causa da polícia, devido ao barulho, e depois reabriu numa quarta-feira, na segunda-feira recebemos um telefonema do Pita a dizer que aquilo ia reabrir na quarta-feira e que não tinham banda. E nós fomos. Tocámos para 16 pessoas ou assim. Acho que as pessoas gostam de nos ver bem e damos uma sensação boa. Depois, é eu como digo: relações mais íntimas e mais próximas não têm muita explicação. Acontecem.

Um dos segredos pode ser o facto de muitos portugueses se reverem nas letras das vossas músicas?

Isso é outra conversa. Não faço ideia do porquê. Quando escrevo letras, muitas vezes escrevo para o pessoal dos Xutos ouvir e para ver se gostam. Escrevo muitas vezes coisas que sinto, que me parecem bem, mas que estão sempre sujeitas a escrutínio e sempre com vontade de agradar à malta da banda. São feitas para funcionarem naquele grupo, naquelas pessoas. São coisas que às vezes são pessoais, outras vezes nem tanto. Por vezes, escrevo quase por encomenda. Pergunto-lhes, às vezes, o que querem. Fazemos as músicas sempre à frente das letras. Portanto, imagina, o [João] Cabeleira aparece com um tema. Nós desenvolvemos o tema e temos um tema musical, com princípio, meio e fim. Depois, é preciso cantar aquilo, e dar-lhe um título. Muitas vezes pergunto-lhes o que é que acham que é aquele tema, ou se acham bem se o título for assim. O próprio “Circo de Feras” é um bocado isso. Já tocávamos aquilo sem letra e sem título. Praticamente no estúdio é que acabei de fazer aquilo, e até foi nome de álbum.

Nos concertos vemos um público muito transversal à sociedade portuguesa. Isso comprova que mantiveram essa ligação com o público.

Eu e o Cabeleira costumamos dizer que somos muito tasqueiros, que não nos importamos nada de ir beber uma mini ali, um café acolá, falar com as pessoas e estarmos no balcão e meter conversa. Vamos ver a bola ao café e temos uma relação muito próxima com Portugal. No fundo, com as pessoas. Tratamos toda a gente por tu e damos cigarros se pedirem, e se precisarem de boleia damos. Sempre foi assim. Sempre pensámos que era bom estar com gente, que era bom comunicar com as pessoas e, já que temos de estar uma hora e meia à espera, pelo menos falamos com as pessoas. Ao longo destes 40 anos, essa abertura, essa comunicação, parece que tem infectado. Espalhou-se.

As gerações vão passando, mas a música dos Xutos fica.

Sim, este ano que passou foi alucinante. Vínhamos da pandemia e estávamos à espera de que as coisas fossem diferentes, mas foi alucinante. Foi uma coisa do outro mundo. Para se ter uma ideia, há muitos anos que tocamos na Expofacic, em Cantanhede. Costumávamos ter sempre um recorde de público. Tanto que acabamos os concertos e assinamos o contrato para o ano seguinte. O nosso público começou por ser de oito mil, 10 mil, 18 mil. Este ano estavam 52.500 a pagar bilhete, de quatro euros, para ver os Xutos. Cinquenta e duas mil pessoas é muita gente. Depois fomos a Vila Real, juntámos com a corrida de automóveis, e estavam outra vez 50 mil - ou mais. Em Castelo Branco passámos dos 30 mil, em Peniche 25 mil. Quase duplicámos o público de 2021. Melhor ainda, para 2023 a agenda já está praticamente mais de metade cheia. Portanto, prevê-se que vá continuar assim mais um ano.

O que lhe dá mais prazer quando está em palco num concerto?

Há vários momentos dentro de canções que me dão um prazer especial. O primeiro refrão do “Circo de Feras”, o final do “Circo de Feras”, a “Casinha”, coisas novas, a abertura. São momentos que, no meio daquelas 20 ou 23 canções, vão pontuando aquela hora e meia, ou duas horas, em que estamos ali. Há momentos que são de passagem, ou seja, são quase de trabalho, porque uma pessoa tem que fazer aquilo, aquilo e aquilo. E há outros momentos em que se transforma numa situação mesmo prazerosa, e mesmo de quase não se acreditar que está a acontecer. Aquilo de as pessoas dizerem que se sentem elevadas e cheias, isso acontece. Depois vem a parte mais chata, quando acaba o concerto e vem um vazio desgraçado e o corpo está cheio de adrenalina. Agora já não frequentamos as discotecas e os clubes, que era onde despejávamos o resto da adrenalina. Vamos para o hotel falar uns com os outros, beber uma cerveja e tal, a ver se chega o sono.

Houve algum concerto mais marcante para si? Estou a pensar, por exemplo, no Portugal ao Vivo de 1993, por ter combinado um conjunto de bandas portuguesas.

Esse foi muito engraçado. Eu toquei em duas bandas nesse concerto. Toquei nos Resistência e toquei nos Xutos. Convidei o [João] Aguardela para ir tocar connosco a “Chuva Dissolvente”. Também tocaram os Madredeus, os Delfins, os Sétima Legião e os Sitiados. Quem fechou foram os Resistência. Havia uma discussão sobre quem fechava e o Kalú disse: “Não vamos fechar nada, vamos é abrir. Pelo menos assim se houver merda, vamos embora”. Foi muito engraçado, porque foi o nosso primeiro estádio e começámos a pensar no que podíamos fazer num estádio. Então houve bonecas insufláveis, misses que se despiram, houve bolas de futebol para o público, uma guitarra que foi para o público. A actuação dos Xutos pôs logo a fasquia muito alta para toda a gente. De tal maneira que, quando chegou a vez dos Resistência, já no fim da noite, o pessoal já estava todo estourado, até o público e tudo, e acho que foi o pior concerto dos Resistência de sempre. Esse foi marcante, mas houve vários. Acho que os concertos marcantes são aqueles em que se faz uma coisa que não se tinha feito. O primeiro concerto no Pavilhão Atlântico, o primeiro no Pavilhão do Belenenses. Esses concertos são os mais interessantes para nós, porque temos que inventar alguma coisa. Temos de fazer crescer o concerto, temos que nos adaptar à situação. Por exemplo, numa ocasião íamos dar um concerto num estádio e nós costumávamos ensaiar sempre depressa, mas eu disse que não podia ser assim, porque o estádio era muito grande e as pessoas que estavam no fundo do estádio iam ouvir aquilo com algum atraso. Disse-lhes: “Se vamos tocar como se estivéssemos num clube, ninguém vai perceber nada, porque vai misturar-aw tudo”. Então inventámos algo a que chamámos “velocidade de estádio”, que era tocar as músicas para trás, mais compassadamente, de maneira a que se conseguisse perceber alguma coisa no meio da confusão, e funcionou. São pequenas coisas que é preciso inventar de cada vez que se vai para um sítio novo.

Os Xutos são um símbolo da música portuguesa, mas alguma vez pensou na dimensão internacional que podiam ter alcançado se tivessem outro mercado?

Até já escrevi uma música sobre isso, chama-se “Na América”. Não faço ideia. Acho que poderíamos ter muita sorte, e se tivéssemos sorte podíamos ser tão grandes como outros. Se não tivéssemos tanta sorte, éramos como outros que não a tiveram.

É uma questão algo relativa?

É relativa. Sempre nos considerámos uma banda local. Nos anos 90 houve essa discussão nos Xutos, se devíamos apostar mais no estrangeiro ou não. Houve uma altura em que disse “porque é que vamos estar a perder tempo a tocar para 80 e 100 pessoas em Paris ou em Zurique, se temos três mil pessoas à nossa frente em Castelo Branco, somos parvos ou quê?”. Não valia a pena estar a fuçar, pois nessa altura a malta já tinha filhos. Essas deslocações implicavam semanas e semanas sem fazer nada, porque tocava-se uma vez num clube, ganhando-se 300 euros ou assim. Depois, tínhamos de estar cinco dias à espera para tocar noutro clube e ganhar mais 300 euros. Só para ficar num hotel lá se ia o dinheiro todo. Bebíamos muito, lá ia o resto do dinheiro. Para fazer isso era preciso uma estrutura que também não tínhamos e um interesse externo que não tínhamos.

Que planos têm os Xutos para o futuro? Algum disco na calha?

Nós trabalhamos por época. Chega o Verão e desligamos praticamente do estúdio. Chega a esta altura ligamos o estúdio outra vez, e agora, por acaso, como a época foi até Outubro nestes anos que passaram, estivemos mais quietos Também estivemos a resolver umas coisas. Mas até Maio de 2022 tínhamos cerca de sete temas já em trabalho, portanto agora é pegar neles outra vez, juntar os que houver para juntar e ver se conseguimos completar o trabalho.

Não têm uma meta traçada para o lançamento?

Não. Temos sempre duas épocas de lançamento: ou é agora para Março, ou então passa para Outubro. No Verão, a partir de Junho, a disponibilidade começa a ser complicada para estar a aceitar os compromissos necessários para um lançamento como deve ser. Até esta Primavera não acredito que mesmo que o disco esteja acabado, esteja pronto para sair em termos de promoção. Mas se tudo correr bem na próxima época, que será em Setembro ou Outubro, em princípio estará pronto e disponível.

Nos próximos anos vamos continuar a ver os Xutos a dar concertos de Bragança a Lisboa, e não só?

Enquanto houver saúde. Vou contar a piada do Cabeleira. Perguntaram-lhe “então e quando os Xutos acabarem, o que é que vai fazer?”, e ele respondeu: “Eu vou ser cremado, os outros não sei.” (risos) É por aí.

Os Xutos & Pontapés têm uma carreira que está agora a celebrar 44 anos.

É no dia 13 deste mês.

Há algum segredo para uma união de tantos anos, certamente com altos e baixos?

Não sei explicar. Há dias piores, há dias melhores. Há alturas em que as relações entre uns e outros não são tão boas, há alturas em que são melhores. Mas acho que há sempre a consciência de cada um de nós que os Xutos são mais do que a soma das partes. Portanto, quando os interesses dos Xutos requerem a nossa atenção, é para aí que nos viramos completamente. Depois, como fazemos quase tudo em conjunto, não existe propriamente... Agora o Zé Pedro desapareceu, se calhar o foco está mais sobre mim, mas não existe muito o hábito de apresentar um trabalho que quero que apareça assim, e que quero que seja feito. Os egos vão-se equilibrando, e já nos conhecemos muito bem, já sabemos o que é que cada um gosta, do que não gosta. Tentamos ter algum cuidado na nossa relação, sempre com o objectivo de chegar ao próximo concerto dos Xutos e sairmos de lá satisfeitos.

Depois da morte do Zé Pedro houve algum momento em que vocês pensaram acabar?

Pensado não, sentido... houve essa sensação de que podia não correr bem. Mas pior do que isso foi mesmo a situação da doença dele. Como foi uma coisa prolongada, o dia-a-dia era muito mais duvidoso do que depois da morte dele. Primeiro ele esteve muito doente, depois recuperou, depois ficou doente outra vez, depois recuperou, voltou a ficar doente, depois ficou cada vez mais doente. Esse processo foi muito mais duvidoso para nós do que exactamente quando ele morreu. Foi aí que houve alturas em que talvez tenhamos pensado “o que é que vamos fazer agora?”. Houve alturas em que nem nos dava vontade fazer concertos. Lembro-me de uma ida a Toronto em que proibimos o Zé Pedro de ir, pois ele já estava muito fraco. Tínhamos tido uma experiência de saúde péssima com ele numa viagem para os Açores, e dissemos-lhe que íamos fazer o concerto a Toronto, mas ele não ia. Ele ficou furioso, mas fizemos o concerto sem ele. Foi nesse concerto que percebemos que para o público a presença dos Xutos era superior a estar o Zé Pedro ou não estar, a estar o Tim ou não. Eram os Xutos, e os Xutos estavam dispostos a fazer aquilo também. Se tivéssemos dito na altura que não fazíamos os concertos porque o Zé não ia, se calhar tínhamos acabado aí.

Além dos Xutos & Pontapés, fez parte de outros projectos musicais que também cativaram o público português, como os Resistência, Rio Grande ou os Cabeça no Ar. Que significado teve para si estar envolvido em cada um desses projectos?

Uma pessoa até se sente reconhecida por estar a participar nesses projectos. Porque foram sempre projectos muito porreiros, muito positivos, onde trabalhei com essas pessoas, que admiro, que me fizeram sentir orgulho em poder trabalhar com elas, e que da minha parte também ajudei à concretização desses projectos. Por outro lado, completou-me musicalmente e também sentimentalmente, pois deixei de estar fechado. Às vezes é um bocado cansativo fazer sempre parte do mesmo conjunto. Fazer outras coisas foi bom. Levar a experiência dos Xutos, por exemplo, para os Rio Grande, que tinha um conjunto de egos muito forte, e transformar-se aquilo num grupo muito unido, quase numa banda, foi algo que também gostei de fazer. Nos Resistência também, portanto consegui dar um sentido de união. Uma coisa é juntarmos uma série de personalidades para um acontecimento, que depois acaba. Outra coisa é manter aquilo a trabalhar, manter interesses, ter cuidado com as relações entre uns e outros, saber dar espaço a cada um, saber quando é que um está a ficar melindrado porque as coisas dele não estão a ser respeitadas, promover um certo companheirismo, amizade, espírito de sacrifício às vezes. Sempre dei essa parte. Musicalmente refrescou-me, e libertou-me.

Trabalhar a solo também foi desafiante? Era importante ter esse espaço?

Sim, porque como toco baixo nos Xutos, toco baixo nos Tais Quais, toco guitarra nos Resistência, mas gosto bastante de tocar guitarra eléctrica, a carreira a solo vai-me dando espaço para poder utilizar essa parte. É claro que não vou chegar aos Xutos e dizer “agora vou tocar guitarra eléctrica”. Nem tinha piada, nem tinha jeito nenhum. Arranjei um espaço para fazer outro tipo de coisas. Também dá para escrever coisas um bocadinho mais íntimas, mas num sentido mais simples e despreocupado. Se calhar até menos focadas. Coisas que se fazem porque me apetece: uma canção sobre um mocho, por exemplo. Sem um grande nível de responsabilidade. Um dos aspectos bons desse projecto é que toquei com o Gabriel [Gomes] dos Sétima Legião, também toquei com o Fred, o filho do Kalú, o João Cardoso ou o Fernando Júdice. Já toquei talvez com dez pessoas, agora tenho a sorte de estar a tocar com os meus filhos também, o que é uma felicidade. É mais um bocadinho que tenho para estar contente.

Tem a experiência de várias décadas como músico. Que avaliação faz da música em Portugal neste momento?

Opiniões não tenho, porque nunca julguei qualitativamente os colegas. Cada um é como cada qual. O Cid é o Cid, o Abrunhosa é o Abrunhosa. O que posso dizer, em geral, é que estamos muito melhores do que estávamos, porque o público em geral ganhou respeito pela música portuguesa, que era algo que não tinha. Os músicos nos anos 70 e 80 eram a malta que ia para roubar cervejas aos outros e tocar ali um bocado. Havia uma falta de consideração pela profissão. Agora não. Os pais já acham que uma carreira musical é boa, até põem os meninos na escola para aprenderem. Em termos de qualidade musical, também não há comparação. A malta agora toca tudo direitinho. O conhecimento melhorou muito, não só ao nível de escolas, mas também em termos de conhecimento geral sobre música. Os sítios onde se toca modificaram-se completamente. Mesmo com muitas queixas, temos 30 vezes mais sítios onde tocar do que tínhamos antes. Temos mais mulheres a cantar do que antes, mais fadistas, rockeiros não são tantos, mas ainda são muitos. Ainda temos os que tinham bandas e voltaram a ter, como os Ornatos Violeta. O espaço cresceu muitíssimo e há espaço para toda a gente.

Está quase a abrir uma escola de rock, a escola VOAR! Como surgiu a ideia de criar esta escola de rock?

Já dei aulas aqui há uns anos. Durante três anos dei aulas de guitarra eléctrica e de baixo no Conservatório de Música em Santarém. Na altura pediram-me se podia dar lá uma perninha e correu bem, gostei muito da experiência. Agora, após a covid-19, comecei a pensar que gostava de repetir a experiência, mas já com a ajuda dos meus dois filhos, um na bateria e outro nas teclas, e também de outros professores, um para a voz, outro para a guitarra. Achei que era uma boa maneira de me ocupar a mim, mas também de criar um sítio que fosse simpático para miúdos e graúdos estarem dentro do rock e deste mundo.

O que vai distinguir esta escola de outras?

Foi pensada para darmos ênfase ao convívio, ao grupo, em vez de termos aulas individuais, como as que dei em Santarém. Na altura, a parte que achei pior era essa: ao dar aulas individuais, uma hora por aluno, perdia-se um bocado o espírito do que é o rock, ou do que é uma música mais popular, mais imediata. Algo que vamos privilegiar são as aulas de grupo, as aulas de combo, de ensaio. Uma espécie de vivência de rock, mais do que propriamente de aprendizagem de música. Também vamos dar formação musical, as bases, porque temos capacidade para isso, mas o que nos atraiu nisto tudo é a possibilidade de poder incutir um espírito de grupo, é isso que queremos trazer para a escola. Depois, tentar também fornecer uma série de conhecimentos que estão ligados ao rock, de tocar ao vivo, de ensaiar, de, se for possível, fazermos apresentações com outros músicos que podem partilhar as suas experiências. Não é só tocar viola e bateria, também é a postura, a atitude, uma maneira de estar. É dentro dessa maneira de estar que queremos trabalhar.

O percurso dos Xutos & Pontapés decorreu paralelamente ao do Portugal democrático. O que mais mudou no país ao longo dos anos?

Houve uma altura, nos anos 90, em que senti que o país estava mesmo a crescer. Houve uma certa libertação do género feminino, em termos de participação, porque de uma participação muito limitada passaram a ter uma participação mais activa e mais presente. Isso foi notório. Aquilo que disse ao início, que nos concertos só lá estavam rapazes, nos cafés só estavam rapazes, na tropa só havia rapazes. Com o aparecimento de raparigas nesses sítios houve um crescimento no início dos anos 90. Comparativamente, agora assistimos a uma fase sem crescimento, já não sinto tanto isso. A grande diferença no país relativamente aos primeiros anos do pós-Estado Novo é a disponibilidade das pessoas para fazerem diversas coisas. Sempre tivemos um problema de número e de massa crítica, e agora está muito melhor do que estava. Talvez por agora estarmos numa fase em que não há crescimento, em que a população não cresce, aparecem os movimentos de extrema-esquerda e de extrema-direita, que têm maior relevância. Nas fases de maior marasmo esses movimentos são exacerbados. Agora, se calhar, vamos passar por uma situação onde há menos jovens, menos pessoas a fazerem coisas, já se nota um envelhecimento da população, e isso leva ao tal marasmo de que falei. Quando aparece algo novo aqui a malta cinzenta diz “já não tenho tempo para isso, o que é que estes querem”. Tenho algum receio de que no futuro seja pior, porque falta gente nova, sangue novo, para isto mexer. Mesmo que me ponham de lado.

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