Tiago Aldeia: “A fama é uma consequência do meu trabalho”

Tiago Aldeia, 36 anos, é o eterno Rodas de “Morangos com Açúcar”, série que o catapultou para a ribalta. Influenciado pelo pai, o também actor António Aldeia, abraçou uma profissão de que diz gostar por poder viver várias vidas através das suas personagens. Crítico da política cultural em Portugal, diz ter esperança em Pedro Adão e Silva, ministro da tutela. O próximo passo, depois de ser actor, já está definido: tornar-se realizador.



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Vamos começar com uma curiosidade: ainda hoje vai na rua e volta e meia chamam-lhe Rodas, personagem que interpretou nos “Morangos com Açúcar”?

É curioso: ainda há bocado ia a passar de carro e o condutor de um tuque-tuque gritou “Ganda Rodas!”.

Isso incomoda-o?

Não, de todo. Acho que é um privilégio ter feito uma personagem que marcou mais do que uma geração, na medida em que comecei a fazer o Rodas com 17 anos e acabei com 19. Fiz dois anos e meio, 800 episódios, quatro temporadas – uma loucura. Foi uma personagem que marcou toda uma geração e gerações seguintes. Também já encontrei uma mãe e os filhos que viram as repetições, porque entretanto há canais, como o Panda, que vão repetindo os “Morangos com Açúcar”. Respondendo à sua pergunta, não me incomoda, só fico lisonjeado.

Já pensou como teria sido a sua vida sem os “Morangos com Açúcar”?

Não sei, nunca pensei nisso. Acho que podia ter sido diferente. Digamos que a minha carreira começou mais a sério nos “Morangos com Açúcar” e obviamente que o sucesso que teve proporcionou consequências benéficas.

O Tiago já tinha participado no “Super Pai” e no “Amanhecer”, mas penso que nunca contou como entrou nos “Morangos”...

E tinha participado também no “SOS Criança”. Foram personagens pontuais que foram aparecendo. Sempre fiz teatro na escola, sempre tive interesse pela representação. Depois, aos 16 anos, fiz um curso intensivo de formação de actores na Casa do Artista em que o director era o José Fonseca e Costa, e tinha professores do Conservatório, e o Rui Mendes, o António Feio, entre outros muito bons. Foi uma formação intensiva que era pós-laboral. Na altura estava, penso eu, no 11.º ano, e saía da escola às 17h00 e ficava na Casa do Artista até à meia-noite. E aos sábados gravávamos no Teatro Vasco Santana, localizado na Feira Popular e que já não existe. Depois de fazer essa formação de um ano surgiu um casting que era para os “Morangos”, mas ninguém sabia para o que era. Pensava-se que era para uma novela, mas ninguém sabia que era para uma novela juvenil. Fiz o casting para o Rodas e fui escolhido. Foi assim que aconteceu.

Comecemos pelo princípio: actor porquê? Influência do seu pai, António Aldeia, que também foi actor?

Sim, o meu pai é actor e sempre trabalhou em produção. Sempre vivi desde muito novo o ambiente das gravações e do teatro. Isso com certeza que despertou em mim uma curiosidade. Depois, na escola, desde muito cedo tentava fazer sempre os teatrinhos, até na catequese. Qualquer trabalho de grupo, tentava que tivesse um teatro ou um vídeo. O facto de acompanhar o meu pai, obviamente, espoletou essa minha vontade, de forma que acredito que tenha tido influência.

Se não fosse actor teria sido o quê? Tinha plano B?

Costumo dizer uma coisa muito sincera: acho que uma vida não chega. E representar é um privilégio porque podemos viver a vida das nossas personagens. Posso interpretar uma personagem que é médico, jornalista ou Presidente da República. E isso pesou um pouco na minha opção. Conseguia prolongar um bocadinho a minha vida com esta opção, vivendo a vida das minhas personagens. Se eu não fosse actor... talvez fosse realizador. Sei lá, tanta coisa para fazer... Mas acho que tenho o privilégio de fazer aquilo de que gosto, por isso penso que tomei a opção certa.

Como reagiu o seu círculo mais próximo à decisão de ser actor? Era algo que já estava decidido desde cedo?

Não estava decidido desde muito cedo, mas sempre houve um gosto e ninguém estranhou. Em miúdo fazia os teatros e gostava de fazer os vídeos. Depois procurei fazer parte de um grupo de teatro, procurei formação, e depois, a dada altura, tornou-se mais sério. Foi natural.

Também foi modelo. Continua a ser ou essa é uma página encerrada?

Não diria que fui modelo. Fiz trabalhos fotográficos, posso ter desfilado algumas vezes, mas sempre como Tiago Aldeia actor, não como modelo. Fiz trabalhos fotográficos que são consequência da minha profissão, trabalhos publicitários e afins, mais por aí.

Dedicou a Medalha Mérito – Grau de Ouro, atribuída pela Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, ao seu pai. Pode dizer-se que é um reconhecimento com muito simbolismo para si?

Vila Nova de Poiares é a terra onde nasceu o meu pai e onde tenho parte da minha família paterna. Tenho uma ligação, com família lá, de ter ido passar férias. É uma terra que guardo no coração. O senhor presidente da câmara teve a amabilidade de me condecorar com a Medalha Mérito a nível artístico e eu fiquei, obviamente, grato. Dediquei ao meu pai porque ele deu-me sempre todo o apoio possível para seguir a carreira de actor. Até a formação, no início, foi ele que a financiou. Teria de ser dedicada a ele, na terra dele.

Tem feito mais televisão do que cinema e teatro. Isso deve-se a uma questão financeira ou de mera oportunidade de trabalho?

É uma questão de propostas de trabalho, como é evidente, e da gestão dessas propostas. A televisão, como sabe, acompanha-me desde muito cedo, mas acho que o importante é representar, seja onde for. Teatro, televisão ou cinema, cada qual tem a sua magia, mas o importante é mesmo representar.

Li umas declarações suas em que fala do preconceito do público em relação ao cinema português. Ainda sente isso? E, se sente, como se combate?

Sinto, sinto que ainda existe um preconceito em relação ao cinema português. “É um cinema mais lento, é um cinema que é uma seca...” Mas isso, normalmente, são apreciações de quem não consiga... O cinema português, naturalmente, é um cinema mais de autor, mas cada vez mais tem tentado chegar a um público mais lato e, para isso, as pessoas têm de dar uma oportunidade. Acho que se tem vindo a fazer um caminho relativamente a isso, porque temos muita qualidade, os nossos realizadores, os nossos actores, as nossas equipas. Às vezes é aquela coisa “ah, não vamos ver, é um filme português”. É desse preconceito que eu falo. Às vezes tem de se dar uma oportunidade para termos, de facto, uma opinião. E mesmo um filme português mau não faz o cinema português. Têm de ver mais filmes.

É actor, faz parte do meio. Vê a cultura como um dos parentes pobres da nossa sociedade?

Como é lógico. Basta ver o que cabe à cultura no Orçamento do Estado e como a classe artística é tratada neste país. Não há relação, não há carreiras profissionais, não há subsídios de desemprego. É basicamente surreal.

E como se pode alterar isso? Pensa que o actual ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, pode mudar alguma coisa?

Ele pode mudar, espero que mude e está na mão dele mudar. Até agora, nada contra, e como é uma pessoa que tem mais noção do meio artístico, da cultura, do meio cultural, há que ter esperança de que as coisas mudem porque a cultura é a base de um país e tem de ser valorizada o mais possível.

A nível pessoal, decidiu mudar o seu corpo por, segundo palavras suas, sentir que não era escolhido para alguns papéis por não ser tão entroncado. Valeu a pena a mudança?

Valeu a pena. Diziam-me “falta-te um bocadinho de corpo e tal”, e então decidi mudar isso. Em primeiro lugar, pela minha saúde. Depois, também faz bem à auto-estima e eu trabalho com o meu corpo, que é a minha ferramenta de trabalho. Portanto, acho que é benéfico também para a minha profissão.

Mudando de tema, o Tiago está a construir uma casa sustentável “num sítio mágico no meio da natureza”, palavras suas. Como surgiu essa ideia e em que ponto está a obra?

Bom, essa ideia é algo que vem de há muito tempo, apesar de ter nascido e ter sido criado em Lisboa. Gosto muito de Lisboa, mas talvez por isso tenha uma necessidade de campo, de estar em contacto com a natureza. É uma necessidade que vem de há muito tempo. Quando houve o confinamento, não só eu mas a generalidade das pessoas perceberam que ter uma casa no campo, com terreno, em vez de morar num apartamento, era uma coisa importante. Eu já sentia isso, já andava à procura, mas [a pandemia] só intensificou a minha busca por um refúgio onde possa estar mais em contacto com a natureza, mais calmo, a respirar ar puro.

Mas vai ser a sua residência permanente?

Ainda não sei. Ainda não está acabada. Se me der bem lá, espero que sim. É uma logística um bocadinho diferente, estou a 40 minutos de Lisboa. Sempre que possível, espero aproveitar ao máximo, mas ainda não tomei essa decisão. Ainda não está totalmente finalizada e ainda aguardo algumas coisas. Quando estiver acabada, depois digo. [risos]

Decidiu fazer isso porque o ambiente é uma das suas preocupações como cidadão?

Sem dúvida. A casa é o mais possível sustentável, é uma casa de madeira em que tenho um sistema de painéis solares. Tudo ali procura ter alguma sustentabilidade e, obviamente, temos de ter essa preocupação. Estão à vista de todos estas alterações climáticas, o clima como está, estas secas. Preocupa-me, de facto. Os incêndios, então, são uma coisa que me enerva bastante porque os incêndios não começam sozinhos. Têm sempre a ver com mão humana, seja por negligência, seja por fogo posto, e acho que há uma inoperância relativamente a este assunto que tem de mudar com urgência.

Já percebi que é apaixonado pelos refúgios do nosso país. Há algum que recomende?

Nós temos um país incrível porque, apesar de ser pequeno, é um país diferente por regiões. As coisas mudam muito de região para região. Seria quase injusto eleger dois ou três. Agora, no Verão, toda a gente sabe que o Algarve é maravilhoso e adoro aquela zona do Carvoeiro. Adoro a Madeira, os Açores são incríveis, o Douro é fenomenal. Temos as aldeias históricas na zona da Beira, são muito bonitas. Há o Alentejo... Enfim, podíamos ficar aqui até à uma da manhã a falar sobre as maravilhas do nosso país. Eu dir-lhe-ia que há muitos, muitos sítios inacreditáveis em Portugal.

Procura os refúgios também para fugir a sítios mais movimentados onde é alvo do olhar alheio?

Essa é uma condição de ser actor, de fazer televisão, essencialmente. Costumo dizer que a fama é uma consequência do meu trabalho, nunca foi um objectivo meu. Obviamente que fico sempre grato pelo reconhecimento das pessoas, é sempre bom ouvir um elogio sobre o nosso trabalho, mas é evidente que há momentos em que tentamos ter alguma privacidade e paz, e posso dizer que um refúgio é sempre um lugar onde, à partida, se encontra isso. Nunca tinha pensado nisso directamente, mas talvez tenha razão.

Está agora no ar na SIC, com a sitcom “Patrões Fora”, mas sei que está a gravar um projecto sobre o qual ainda se sabe pouco. O que pode dizer-nos?

Posso dizer que é segredo. [risos]

Para finalizar, vê-se daqui a uns anos como realizador? Há muitos actores que dão esse passo com alguma naturalidade.

Sem dúvida, é uma experiência que gostaria de ter. Portanto, penso que sim, espero ter essa oportunidade. É sempre uma experiência. Não sei se terei talento para isso, mas gostava.

Se calhar, numa altura em que a cultura já seja mais valorizada no nosso país.

Pois, em que não se tenha de andar anos e anos à procura de financiamento para se fazer um filme. Os realizadores também passam por muito, mas tenho esperança de que, com o que nós estamos a viver... O streaming não tem de ser mau, as plataformas, a Netflix, a HBO não têm de ser más nem de combater o cinema. Tem de haver uma adaptação. E o que está a acontecer faz com que as produções sejam cada vez mais universais e globais. Bem encaminhado, isto pode ser muito positivo para todos, como estamos a ver. Já são gravadas séries da Netflix em Portugal – aliás, temos todas as ferramentas para que se façam coisas de qualidade de ficção internacional, seja cinema, seja através destas plataformas. O que for.

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