Teresa Tavares: “Tenho a humildade de perceber que faria qualquer coisa”

Interpretar uma mulher que se confronta com os problemas da vida e do casamento enquanto uma pandemia lança o país no caos é o novo desafio de Teresa Tavares em “Revolta”, filme escrito e realizado por Tiago R. Santos. Para a actriz de 39 anos, que leu o argumento anos antes de a covid-19 mudar o mundo, foi uma experiência intensa, com 12 dias de rodagem em que só entraram outros três actores e que decorreu no apartamento lisboeta onde contou ao NOVO o que sentiu ao lembrar-se de quando o avô lhe disse que nunca veria ser decretado o estado de emergência.



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Estar a ser entrevistada no mesmo local onde decorreu a rodagem do filme “Revolta”, que se estreou na semana passada, é uma sensação estranha?

Sabe aquela coisa do “não voltes aos sítios onde foste feliz”? É bom voltar a um sítio onde fomos, onde fui muito feliz. É exactamente o mesmo sítio, mas numa circunstância totalmente diferente. Habituei-me, nos ensaios e na rodagem, a que esta fosse a minha casa. E agora sou recebida pela Ana, que eu adoro e que é, de facto, a dona da casa, e é uma sensação de reconhecimento e, ao mesmo tempo, de estranheza.

Quanto tempo demorou a rodar esta longa-metragem, cuja acção decorre numa só noite, durante um jantar em que um casal recebe dois amigos em casa, e que foi filmada de forma sequencial, da primeira à última cena?

Não sei se uns 12 dias. Tivemos uma semana de ensaios, além de conversas e preparação. E depois filmámos por ordem cronológica. O filme não tem elipses e o espectador passa aquele jantar connosco.

Qual foi o máximo de pessoas que estiveram na casa enquanto cenário?

Muito poucas, porque foi numa altura que havia muitas restrições, logo a seguir ao primeiro confinamento. Não se via quase ninguém na rua. E foi rodado à noite, entre as seis da tarde e as seis da manhã, ou das sete às sete, já não sei bem. No máximo, estaríamos os quatro [Teresa Tavares e Ricardo Pereira, que interpretam o casal de anfitriões, Margarida Vila-Nova e Cristóvão Campos] e mais dez pessoas.

“O mundo está a acabar lá fora. Não, está a acabar cá dentro”, ouve-se num dos diálogos mais marcantes de “Revolta”. É o melhor resumo do filme?

Penso que sim. O filme trata de muitas coisas e pode levar a reflectir sobre várias questões, mas, independentemente de tudo o que acontece à nossa volta, o nosso mundo é o nosso mundo interior. E quando está a acabar, isso impõe-se a tudo o resto. É a nossa força - e também a nossa fragilidade - enquanto seres humanos.

Na sua personagem vê-se alguém que começa o filme com um certo malaise e que toma as rédeas para alterar tudo.

É quase um processo de libertação em que assume o seu poder. Quando começa a história, o Paulo e a Cristina tiveram um filho que terá seis meses, de que se fala, mas não aparece. E há a questão das revoltas sociais e de eles estarem mais confinados em casa e de ele não trabalhar. É muito engraçado que ela diga que fez o que tinha a fazer, que escreveu os posts e assinou as petições, mas acredito que sente um profundo tédio com a sua vida. E como não consegue lidar mais com isso, porque aquilo, claramente, não lhe chega, toma a iniciativa de fazer aquele jantar e chamar aquelas pessoas para provocar a revolução que lhe permite assumir o seu próprio poder. A Cristina vai-se pôr a lume e destruir tudo para se reconstruir.

Há um paralelo curioso, pois também foi mãe pouco antes do início da pandemia. Isso permitiu-lhe abstrair-se daquilo que aconteceu ao sector da cultura?

Pelo contrário, pois sou actriz há muitos anos. Isto é minha vida e, mesmo estando numa situação em que ficaria em casa, de qualquer forma, naqueles primeiros dois ou três meses - lembro-me de que cheguei a filmar uma coisa mesmo antes do confinamento -, sucedeu que os trabalhos que tinha agendados para os próximos tempos caíram. Hoje, já sabemos lidar com a situação, já sabemos do que se trata, mas na altura não sabíamos. Creio que foi mais assustador, pois estávamos a lidar com o desconhecido e eu também estava com o desconhecido na minha casa. Foi muito assustador. Houve alturas em que, no sector da cultura, não se sabia quando se iria voltar a fazer coisas.

Ficou feliz com a forma como o sector conseguiu reinventar-se perante a pandemia e as circunstâncias?

Na sua génese, as artes têm a ver com a questão de nos reinventarmos e de reinventar o que está à nossa volta. É um sector que tem essa capacidade. Mas, independentemente disso, existe a responsabilidade de percebermos que as faixas mais fragilizadas da sociedade - não são só os artistas, com certeza, mas também são - devem ter uma estrutura que as salvaguarde. A cultura é uma obrigação do Estado, como a educação e a saúde. Mas houve coisas extraordinárias. Fiz vários espectáculos, e o primeiro foi pouco depois deste filme. Terá sido em Setembro, e as salas de teatro estiveram sempre cheias, o que teria a ver com a necessidade de estar com os outros.

Era aquilo a que em economia se chama uma procura reprimida?

Era uma loucura. As salas estavam sempre cheias, apesar de haver muitas restrições e de as pessoas estarem sempre com máscara. Foi muito comovente. Havia um acto de resistência. Depois começámos a fazer mais espectáculos e tudo se normalizou, mas lembro-me de, nesse primeiro, a produção dizer: “Por favor, os vossos amigos que não fiquem à espera para cumprimentar no final porque, se houver uma fiscalização, vamos ter de parar com o espectáculo.” Esta coisa de as pessoas ficarem no final, porque gostaram, e haver receio de que não o pudéssemos fazer... Foram tempos muito intensos e fazer teatro, assim como fazer este filme, teve qualquer coisa de reencontro. De repente estávamos outra vez todos num set. Ainda por cima num filme que tem muito a ver com questões de desejo e de posse, onde o toque é muito importante.

É impressão minha ou a pandemia nunca é tratada pelo seu nome ao longo de todo o filme?

Eu tinha lido este argumento muito antes da pandemia. O Tiago [R. Santos, que se estreia na realização com “Revolta”] mostrou-me o argumento há uns quatro anos e, na altura, era uma distopia. [risos]

Em vez de um documentário...

Lembro-me de que, na altura, havia interesse de algumas pessoas em fazer o filme, mas não sabiam até que ponto fazia sentido. E, de repente, aconteceu esta coisa de que ninguém estava à espera e tornou-se um filme profundamente actual. Portanto, não se fala especificamente da pandemia de covid-19 porque não era sobre isso. No argumento final houve uma ou outra adaptação, como a menção a “em que vaga é que estamos”, pois havia muito em comum com o momento que estávamos todos a viver.

Nos filmes de Hitchcock havia muitas vezes um MacGuffin, algo supostamente muito importante no enredo mas que podia quase não aparecer. A pandemia é uma espécie de MacGuffin de “Revolta”?

Acho que sim.

É um pretexto para quatro pessoas estarem dentro de casa e terem de se confrontar umas com as outras?

De se porem a lume e entrarem em jogo. E, olhando para o outro, olharem para si próprias. Mesmo a revolta que se está a passar lá fora é só um pano de fundo.

Ao longo do filme chegam informações alarmantes pelas redes sociais, com tiroteios na Assembleia da República, o primeiro-ministro a fazer pedidos de asilo e a NATO a preparar uma intervenção militar em Portugal...

...e a lei marcial.

Quando a pandemia chegou a Portugal passou-lhe pela cabeça que alguma dessas coisas pudesse acontecer?

No dia em que foi decretado o primeiro estado de emergência - a 13 de Março de 2020 - lembrei-me do meu avô, que já morreu há muitos anos. Aprendi com ele toda a minha noção de política e de sociedade. Falava-me das coisas de uma maneira muito simples, à criança que eu era, e fiquei sempre com essas ideias muito claras. Chamava-se Manuel Cunha e era um homem absolutamente extraordinário. Quando Portugal entrou para a então Comunidade Económica Europeia explicou-me que as fronteiras estavam totalmente abertas para mim. Lembro-me de ele fazer uma analogia muito bonita. “É como um carrossel”, disse, pois eu adorava carrosséis. E nessas conversas, que guardo com todo o carinho, ele disse-me que também podia haver o estado de emergência, mas acrescentou: “Não te preocupes, filha, que isso nunca vai acontecer, porque é só se houver uma guerra.” Nunca mais pensei nisso, porque o meu avô morreu quando eu tinha uns oito anos, e naquele momento, quando ouvi o estado de emergência decretado, veio-me aquela memória e foi muito assustador. Depois relaxei, mas é engraçado para onde as memórias nos levam.

Quis ser atriz desde os 15 anos. Foi uma epifania ou um processo?

Foi uma constatação. Estava a ter aulas de piano, não tinha jeito para o solfejo e, por isso, não queria ter aquelas aulas. [risos] Eu sou da Azambuja e, na altura, não havia nada para os miúdos fazerem lá. Lembro-me de falar com a professora de piano e, por coincidência, ela tinha uma amiga, chamada Sílvia, que dava aulas de teatro. E eu via muitos filmes dos videoclubes - contava-se pelos dedos das mãos as vezes que vinha a Lisboa, às salas de cinema. A professora de piano disse-me que podia falar com a amiga para organizar uma peça e foi tudo muito rápido e muito artesanal, com o que tínhamos à mão. Acabei por ficar com o papel.

Qual era o papel?

Era a “Farsa de Inês Pereira” e eu era a Inês. Senti uma enorme liberdade quando estava em cima do palco e isso foi muito transformador. Pensei: quero fazer isto ou, pelo menos, experimentar mais vezes. Continuei a ver muitos filmes e fiz a ligação entre aquela sensação e o que a Vivien Leigh sentia a fazer “E Tudo o Vento Levou”, que eu vi 30 vezes. Depois fui procurar aulas de teatro com uma companhia que até hoje funciona no Ribatejo, que é a Inestética. Correu bem, convidaram-me para um espectáculo e para fazer um intercâmbio com eles e, no intervalo disso tudo, houve o anúncio de um casting nacional para uma coisa que não sabia o que era e que viria a ser o “Jardins Proibidos”. Fiz, com outras cinco mil miúdas, e fui escolhida.

O mais extraordinário foi descobrir que tinha sido escolhida para a telenovela quando estava a fazer uma residência artística na Finlândia?

Foi incrível. [risos]

Não deve haver muitas famílias que deixassem uma miúda de 17 anos fazer uma residência artística na Finlândia.

Digo sempre que foi o ano mais incrível da minha vida, porque todas as coisas que eram muito improváveis aconteceram. Estava a fazer as aulas com a Inestética, convidaram-me para essa residência e os meus pais disseram que sim. Quando lá estava, na Finlândia, eles mandaram-me um telemóvel para se fosse preciso ligar e eu não andava com ele. Ficava no quarto e não lhe ligava nenhuma. No final de um dia de ensaios chamaram-me porque os meus pais, que tinham o número fixo de onde eu estava, deixaram o recado de que tinham de falar comigo com urgência. Achei estranho, porque não são nada alarmistas, e a minha mãe disse-me que tinham ligado a dizer que eu ia fazer um papel e que tinha de vir para Lisboa. “Mas é um dia?”, perguntei. “Não. É um papel. São vários meses, temos de assinar um contrato, tens de falar com as pessoas. Dei-lhes o teu número de telemóvel, e estão a tentar falar contigo e tu não atendes...” Talvez tenha sido a única vez da minha vida em que desde que recebi a notícia, ao final do dia, até à manhã seguinte, não dormi um segundo. Lembro-me perfeitamente do tecto do quarto, que era muito bonito. No outro dia achei por bem ligar o telemóvel e telefonaram. Tudo isso é muito inesquecível.

Profissionalizar-se numa telenovela pode ser uma boa escola ou um triturador de formações?

É engraçado tocar nesse ponto. Fazendo novelas, filmes ou teatro, trabalho é trabalho e talento é talento. Conquanto perceba que o ritmo pode ser alucinante, as novelas abriram a porta a muita gente. Quando comecei no grupo de teatro, a ideia de ser actriz foi algo que eu disse em casa, mas era uma coisa muito distante. Lembro-me de pensar que, se calhar, conseguiria ir para o Conservatório - e acabei por ir -, mas depois ficava a pensar no que podia fazer. As companhias de teatro não eram tantas como hoje e, embora houvesse algumas, era um circuito que desconhecia completamente. Havia alguns filmes, mas também num circuito bastante fechado. A televisão veio democratizar bastante isso, no sentido em que se abriram audições e castings. Aquilo que fiz era uma open call e apareceram cinco mil pessoas. Isto tem um lado muito democrático que tem de ser salvaguardado. Evidentemente que trabalhar ao ritmo das novelas tem um lado de endurance - utilizo propositadamente essa palavra -, mas também se aprende cenicamente e no que diz respeito à inteligência emocional. E tem a ver com o registo, pois uma cena numa novela não é uma cena num filme. Aquilo é uma máquina e, como todas as máquinas, tem muitos perigos. Talvez possa triturar vocações, mas o mercado da televisão, pelo menos para a minha geração, abriu muitíssimas portas e ensinou muito. Não sei como teria sido o meu percurso se não tivesse sido escolhida naquele casting.

Decerto que à medida que se avança na carreira ganha-se muita coisa na construção de personagem. Consegue apontar alguma que se perca por ser mais experiente?

Na verdade, o que se perde é o ser-se novidade. Chegar a um set e ninguém ter expectativas ou ideias preconcebidas sobre o que vamos fazer é uma enorme liberdade. É um território livre de preconceitos, criativamente muito rico e de uma enorme humanidade. E quando olham para nós com essa abertura, sem preconceito, só curiosidade, a nossa resposta reflecte isso. É um bocadinho como a paixão. O amor é extraordinário, de uma enorme profundidade e complexidade, e é o que perdura, mas quem não sente saudades daqueles dois meses de pura descoberta e borboletas no estômago? Mas sabemos que a seguir virá outra actriz, que nunca ninguém tinha visto, e será ela a novidade. E ganhamos outras ferramentas, como pessoas e como artistas, que irão enriquecer os próximos trabalhos. E voltamos a apaixonar-nos pelos projectos e pelas pessoas, já com a bagagem toda que a vida nos dá. Em relação ao olhar que os outros têm sobre nós, nem sempre é assim tão simples libertarmo-nos dos rótulos que nos vão pondo e são precisas oportunidades para isso. Sinto, às vezes, o regresso a esse lugar de ser novidade quando trabalho com equipas estrangeiras, em que ninguém me conhece. A questão da internacionalização não é só sobre chegar a novos mercados, mas também sobre ter novos pontos de vista sobre o nosso trabalho, o que pode ser muito libertador.

Hoje seria capaz de fazer uma peregrinação entre Vila Flor e Fátima, como fez para preparar o filme de João Canijo?

Claro que sim. Foi um processo muito duro. Não só pela peregrinação, mas pela natureza do filme também. “Fátima” foi todo na estrada, numa rodagem muito longa. Levou uns dois meses e meio.

Foi uma rodagem com bolhas nos pés?

Sim. Todo o processo foi muito duro e o que o João procurava tinha a ver com esse lado muito cru. Na primeira e única vez, fui a pé desde Vila Flor...

São muitos quilómetros...

Íamos com pessoas que estavam, de facto, a fazer a peregrinação, e essa experiência humana é inesquecível. Chega uma altura em que se entra num estado de cansaço muito grande, cada vez se dorme menos e os músculos vão ficando pior. Há uma espécie de alucinação. O corpo entra em falência e a cabeça também vai para um sítio desconhecido.

É católica?

A minha família é. O Tchekhov dizia uma coisa de que gosto muito: ter fé é um talento. Tem de se nascer com ele. Tenho a certeza de que sou uma pessoa de fé no ser humano e nas nossas capacidades. Mas não sou praticante do catolicismo.

Ser-lhe-ia impossível fazer um papel como o desse filme não tendo qualquer fé, ou seria apenas um desafio maior?

Nem sequer seria um desafio maior. Isto é sempre a questão de nos pormos na pele de uma pessoa, e os ângulos que iria buscar, se calhar, até seriam muito mais inesperados. Aliás, em relação aos papéis, como tento fazer em relação ao resto da vida - mas, nos papéis, creio que consigo sempre com mais eficácia -, não tenho de toda a questão de impor um julgamento. Já fiz papéis muito desafiantes por serem situações-limite. Tenho a humildade de perceber que faria qualquer coisa se as circunstâncias me levassem a isso. Ter a humildade de me pôr lá para os papéis é das coisas mais interessantes na profissão.

Além da humildade, é dever de um actor ser mais exigente consigo mesmo do que qualquer realizador, encenador, argumentista, colega ou elemento da equipa técnica possam ser?

Não consigo deixar de ser muito exigente comigo e de me pôr nas coisas com tudo o que tenho, independentemente de poder fazer coisas melhores e piores. Isto não é uma fórmula, mas os nossos grandes directores somos sempre nós próprios. Evidentemente que a exigência que temos para connosco só funciona se houver uma equipa. Nós sabemos quando estamos a ir ao limite e a questão é sermos bem guiados e termos um incrível sentido de escuta. Se estiver a ouvir os outros e o que se passa à minha volta, essa exigência espalha-se e transforma o texto, que é papel, numa obra com vida. Por isso há encenações tão boas e outras que não são nada, sendo as mesmas palavras.

Em 2009 fez uma espécie de Romeu e Julieta no mundo do futebol, o “Star Crossed”, filmado no Porto e falado em inglês. Uma das motivações para entrar nesse projecto foi a internacionalização da sua carreira?

Não pensei nisso. Chamaram-me para um casting, fui passando fases e, a certa altura, estava a falar com o realizador e o produtor, que eram ingleses, e houve uma grande empatia. Foi muito importante para mim, enquanto experiência de actriz, devido à questão de representar noutra língua. E conheci pessoas como o Wayne Duvall, que tinha o papel equivalente ao do frade. Ficou meu amigo e veio a Lisboa ter comigo na semana passada. Foi muito importante a nível humano. Só pensei na questão da internacionalização depois.

Hoje pensa mais nessas questões?

Os mercados também estão todos mais abertos. Para ser completamente justa, a minha questão não é fazer mais projectos internacionais ou não, é ter mais mercado de trabalho. Se houver mais possibilidades e se houver mais trabalho, isso é bom. Quero ter mais escolha e mais oportunidades. Para mim, a internacionalização tem sempre a ver com isto. Não é, de todo, achar que o que se faz lá fora é muito melhor. Algumas coisas são muito melhores e outras são muito piores.

Sendo assumidamente uma artista com activismo social e cultural [além de ter fundado a companhia Teatro do Vão em 2012, juntamente com Daniel Gorjão e Sara Garrinhas, que dentro em breve vai voltar ao São Luiz com um novo projecto, é voluntária da Associação Corações com Coroa], aceita que haja colegas que se borrifem para isso, que queiram apenas fazer o seu trabalho e ganhar o seu dinheiro?

Claro. Respeito a escolha de cada um, até porque não sabemos nada da vida das pessoas. Mesmo fazer isso publicamente é uma escolha consciente que eu fiz.

Quando começou a ser importante para si ter essa participação?

É uma coisa que foi acontecendo. Talvez tenha a ver com as pessoas que conheci e com o ter percebido que podia ter uma voz mais activa. Depois autonomizei-me e percebi que, através da minha voz, podia chegar a muitos sítios. Que se tenho alguma visibilidade e se há questões de que é importante falar, posso também fazê-lo. É um contributo que posso dar ao mundo. E hoje, que tenho uma filha, interessa-me pensar que estou a trabalhar activamente para, daqui a 20 ou 30 anos, ela viver num mundo mais justo, onde já não haja a discussão das igualdades e tudo o mais, pois estão estabelecidas, e onde estejamos a discutir outras coisas. Quando a minha filha nasceu tive a certeza de que isto é um trabalho para continuar e que, se tenho hipótese de ser mais ouvida do que algumas pessoas, então, porque não usar isso?

Daqui a alguns anos, quando a sua filha começar a descobrir a sua obra, o mais estranho será ver a mãe a apresentar o “Curto Circuito” da SIC Radical?

O que ela se vai divertir... [risos] Falam-me muitas vezes do “Curto Circuito”, que já foi há muito tempo. Foi uma fase muito divertida e foi tudo muito inesperado. Tinha acabado de começar a ser actriz e estava a descobrir tudo quando fui com uma amiga que ia fazer um casting para o programa, que eu nunca tinha visto. Perguntaram-me se queria fazer também e, como na altura passava o dia a ouvir música alternativa, quando me disseram para improvisar comecei a falar da PJ Harvey, que eu adoro.

Portanto, foi algo que lhe saiu de forma natural...

Mas foi muito surpreendente ficar a fazer o programa. Aprendi muito e estive em contacto com pessoas extraordinárias. Apresentei com o Rui Unas, o Bruno Nogueira, o Fernando Alvim, o Pedro Ribeiro, o Diogo Beja, com muita gente. E foi uma fase de grande descoberta.

(Agradecimentos a Ana Pessoa e Costa)

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