Soltura pós-pandémica

Um filme da pandemia incontornavelmente, terminado em tempo recorde para ser levado à competição da Berlinale deste ano pela altura em que a chegada da covid-19 à Europa acabava de fazer um ano, e de onde saiu com um Urso de Ouro.



Sem introdução, ainda que com aviso. É olhar para o título - “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” - e ao mesmo tempo é como se título algum bastasse para nos advertir sobre o que nos espera logo no arranque da mais recente longa-metragem de ficção do realizador romeno. Um filme da pandemia incontornavelmente, terminado em tempo recorde para ser levado à competição da Berlinale deste ano pela altura em que a chegada da covid-19 à Europa acabava de fazer um ano, e de onde saiu com um Urso de Ouro.

Mas voltemos ao ponto de partida: três minutos completos e ininterruptos de uma sex tape do mais gráfico que se imagina. O porno sobre o qual bem nos avisou, que apenas mais tarde descobriremos acidental. Ao fim dos três longos minutos iniciais, um separador cor-de-rosa era tudo aquilo de que precisávamos e não sabíamos. Respiramos de alívio. “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental - um sketch para um filme popular.” E agora a introdução para o que virá depois (além do que já vimos): “Ninguém entende que o mundo se está a afundar no oceano do Tempo, que está tão profundamente infestado com esses enormes crocodilos chamados decrepitude e morte.”

Corte para uma cena da protagonista num mercado e é como se o filme voltasse a começar aqui - sentimento a que regressaremos por outras vezes ao longo da mais de hora e meia que se segue. Queixa-se o vendedor: “Estou farto do ‘nunca te esqueceremos’.”- Que arrogante. “Então o quê?” - Que tal ‘vamos tentar nunca te esquecer?” As máscaras dão o contexto ao diálogo: estamos em pandemia.

Os protagonistas são uma professora de História com o seu marido, que publica o vídeo feito pelo próprio num site pornográfico sem imaginar que rapidamente chegaria aos colegas de trabalho da mulher - e aos pais dos seus alunos. O resto será o julgamento público a que será submetida numa história que a partir de uma sex tape se vai tornando crítica anti-machista, anti-consumista, anti-fascista. Ou então não. Importa estudar ao menos as hipóteses. Chegados ao fim, Radu Jude oferece-nos três finais. Somos nós a escolher o que queremos.

Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental. De Radu Jude, com Katia Pascariu, Claudia Ieremia, Olimpia Malai

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos e Ricardo Ramos Gonçalves

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