Sentados à mesa de Paulo Rocha

Estreou-se no Verão passado em Locarno, no mesmo festival em que em 1964 Paulo Rocha se fez notar com “Os Verdes Anos”. A partir dos lugares onde viveu e filmou, Samuel Barbosa, seu colaborador na fase mais tardia, traz-nos “A Távola de Rocha”. Um regresso ao nome do Novo Cinema português, acabado de chegar às salas neste ano em que se completa uma década sobre o seu desaparecimento.



Estava acabado de sair da escola de cinema quando, depois de um estágio com Regina Guimarães e Saguenail, foi dar a um filme de Paulo Rocha. “Vanitas”, estreado em 2004 com Isabel Ruth, actriz de sempre do cineasta então já com 70 anos, como protagonista. Às funções de assistente de produção, somava-se a de transportar o realizador. Um dia, numa dessas viagens, Paulo Rocha volta-se para ele, Samuel Barbosa: “Quer saber como é que eu penso num filme?” Ter-lhe-á dito então que se punha a olhar para uma janela. “Começo a pensar em como é que aquela janela existe, qual é o tipo de arquitectura, a imaginar quem é que pode lá viver, quais são as suas angústias e como é que se pode criar aí um assunto que seja suficientemente importante e que tenha intriga para se fazer desenvolver ao longo de um filme.”

Para que um filme surja, é naturalmente necessário mais do que isso, diz Samuel Barbosa ao NOVO num artigo para ler na íntegra na edição em papel desta semana. “Mas, na concepção dele, esse estímulo poderia ser suficiente.” É possível que essa ideia o tenha acompanhado desde o início.Recuemos a “Os Verdes Anos”, o seu filme de estreia, em 1964 melhor primeira obra no Festival de Cinema de Locarno. Lembremo-nos do que diz Afonso, narrador e tio do jovem sapateiro de 19 anos que, acabado de chegar a Lisboa, em passeios iluminados pela banda sonora de Carlos Paredes, se há-de apaixonar por Ilda (Isabel Ruth quando tinha pouco mais de 20 anos): “À noite ponho-me a olhar para os prédios do bairro da Ilda... ponho-me a pensar naquelas pessoas...” E por aí as define logo a seguir: “Gente que paga mais para dormir do que para comer.”

O bairro é o de Alvalade quando depois dele havia campo, carroças e construções precárias; os prédios a que se referia, aqueles em que se instalara a família do realizador quando se mudou do Porto para Lisboa - e lembra Jorge, o seu irmão, como foi esse mesmo apartamento, “junto à Vá-Vá”, a pastelaria, que serviu de décor para a casa dos patrões de Ilda. Era um primeiro filme, afinal, esse que contava já com produção de António da Cunha Telles, e os recursos eram escassos. Mas nessas palavras de Afonso colocava-se assim Paulo Rocha. E por esse que o cineasta lhe descreveu como um princípio de um filme começa, como se não houvesse outro início possível, “A Távola de Rocha”, com que Samuel Barbosa se estreou no papel de realizador, também ele em Locarno: diante de uma janela.

Estamos no Japão, onde Paulo Rocha viveu por uma década, perseguindo a sua obsessão por Wenceslau de Moraes, que daria “A Ilha dos Amores” (1982), e ainda um documentário a que chamou “A Ilha de Moraes” (1984). No Japão, encontra-se com alguns dos que conviveram de perto com ele, regressa às conversas mantidas por correspondência com o realizador num regresso ao país, já no tempo dos emails, quando em Portugal continuava o trabalho de preparação daquele que ficaria como o seu último filme, no qual foi já assistente de realização: “Se Eu Fosse Ladrão... Roubava”.

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