Sempre à espera de Beckett

Na semana em que pela primeira vez em Portugal se reúnem os textos dramáticos de Samuel Beckett num só livro, o NOVO traça o perfil de um dos mais importantes autores do século XX, através dos olhares de Luís Miguel Cintra, José Maria Vieira Mendes, David Pereira Bastos e Steven Matthews, presidente da Beckett International Foundation. Enigmático e desconcertante, Nobel da Literatura em 1969, o autor de “À Espera de Godot” mantém, 115 anos depois do seu nascimento, uma influência notável junto das novas gerações de dramaturgos e encenadores.



Em “À Espera de Godot”, Vladimir diz para Estragon: “O que é que nós estamos aqui a fazer, eis a questão. E felizmente temos o privilégio de, por acaso, saber a resposta. É verdade, no meio desta imensa confusão apenas uma coisa é clara. Estamos à espera de que o Godot venha.” Quando em 1953, a peça de Samuel Beckett é pela primeira vez encenada em Paris, no Théâtre de Babylone, a reacção do público e da crítica foi de perplexidade e espanto: chegados ao fim, de Godot, personagem que dá o título à peça e de quem Beckett pôs toda a plateia à espera, nem sinal.

Em palco, duas personagens, Estragon e Vladimir, deambulam e falam entre si, enquanto esperam por um indivíduo de nome Godot. Nada mais se passa, como nada acontece duas vezes. Estamos no limbo da ambiguidade que caracteriza na perfeição a obra dramática do autor irlandês nascido no princípio do século XX. Prenunciava-se já aí o que o tempo veio a confirmar: uma verdadeira revolução teatral que ainda hoje ecoa pelos palcos de todo o mundo.

Prova disso mesmo é o livro que esta semana chega às livrarias, reunindo pela primeira vez em Portugal o conjunto da obra teatral de Samuel Beckett num único volume. “Teatro Completo” (Edições 70) inclui todas as suas peças de teatro, mesmo as que escreveu para rádio e televisão e um argumento para “Film”, uma curta-metragem de 1965 co-realizada com Alan Schneider, que tinha Buster Keaton no papel principal.

É o objecto que faltava aos leitores portugueses, que agora encontram reunidos os textos do autor distinguido com o Nobel da Literatura de 1969 em traduções de Francisco Frazão, Jorge Silva Melo, José Maria Vieira Mendes, Luís Miguel Cintra, Margarida Vale de Gato, Miguel Esteves Cardoso, Pedro Marques, Rui Lage e Vasco Gato.

Mas, afinal, o que faz de Beckett um autor tão marcante no panorama teatral? Conhecido pelo seu minimalismo, a depuração da linguagem materializada quase sempre em forma de diálogos, monólogos e didascálias precisas, foi criador de um dispositivo que deixa pouca margem aos actores e encenadores para saírem da sua partitura.

Verdadeiro compositor teatral, sobre o qual o NOVO se debruça num artigo publicado na íntegra na sua edição em papel de 22 de Outubro, mais de três décadas depois do seu desaparecimento as suas peças continuam a propor um olhar singular sobre o mundo e não deixaram ainda de inquietar o espectador.

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