Se o fantasma de João de Sá Panasco vagueasse por Lisboa

Em “Tarantode no Espaço Urbano Desmemoriado”, vídeo-performance que o Festival Alkantara transmite online em directo este sábado, Irineu Destourelles veste a pele de Tarantode. Imaginou a personagem como o fantasma do escravo feito cavaleiro da Ordem de Santiago da Espada, num percurso entre jardins por uma Lisboa “desmemoriada”.



Em crioulo de Cabo Verde, diz-se tarantode como quem diz despassarado. Pelo menos em Santo Antão, a ilha onde em 1974 nasceu Irineu Destourelles, artista visual que, respondendo a um convite do Festival Alkantara, a decorrer até 28 de Novembro em várias salas de Lisboa, se aventura pela performance num espectáculo de sessão única. Uma vídeo-performance em streaming, transmitida em tempo real das ruas de Lisboa, na qual o próprio assume o papel de Tarantode. Personagem ficcionada, mas não tanto. Construiu-a afinal a partir de uma figura histórica, do que imaginou que seria a alma penada de uma figura histórica vagueando pelas ruas de uma Lisboa “desmemoriada” do período colonial: João de Sá Panasco. Nascido no Congo, trazido escravo para Lisboa ainda criança, oferecido a dada altura por D. João de Meneses, camareiro-mor do infante que viria a ser rei: D. João III.

Sobre João de Sá Panasco escreveram já vários historiadores, mas não só. Da sua vida, são vários os episódios que da tradição oral passaram aos chamados anedotários, livros em que eram registados acontecimentos invulgares ou por algum motivo notáveis. Inteligente e mordaz, rapidamente fez com que se notassem os seus dotes de trovador. Informador do rei, era pela nobreza mais conservadora tido como arrivista. Era afinal um escravo trazido do Congo que de bobo passou a cavaleiro - depois da batalha de Tunes em que, em 1535, combateu ao lado do Imperador Carlos V, foi admitido na prestigiosa Ordem de Santiago da Espada, que poucos anos depois se tornaria vedada à nobreza, que em boa parte o desdenhava.

Com a sua existência histórica, Irineu Destourelles cruzou-se há um punhado de anos, quando se gerou uma discussão em colunas de opinião de jornais sobre a autenticidade de uma pintura flamenga do século XVI, de autor desconhecido, que integra a colecção Berardo. Intitulada “Chafariz d’el Rey”, por retratar o quotidiano de Lisboa com a zona onde hoje se situa o palacete com o mesmo nome como pano de fundo, a pintura, que terá sido produzida entre 1570 e 1580, reproduz a figura de um cavaleiro negro (o tom de pele no mesmo preto do tradicional manto dos cavaleiros de Santiago da Espada), que será João de Sá Panasco. Mas não é o único.

“Acho que é impossível fazer-se hoje a leitura da intenção do pintor. É muito difícil saber se não haverá ali coisas que ele exagerou, se fez uma colagem ou não”, diz o artista ao NOVO numa conversa via Skype entre Lisboa e Edimburgo, onde vive. “Mas surgem de facto naquela pintura imensos negros de classes sociais diferentes e em moldes muito diferentes de interacção com o branco. O cavaleiro que parece ocupar a hierarquia social mais elevada naquele quadro, bêbados, um homem negro calçado a dançar com uma mulher branca descalça. E, claro, também esta questão muito interessante de como é que o negro e o preto são construídos em Portugal.” Se, no século XVI, o termo “negro” servia “tudo”, com o influxo de escravos que chegavam a Portugal “começou a adoptar-se o ‘preto’ para fazer a distinção”, diz o artista ao NOVO no artigo que pode ser lido na íntegra na edição em papel, nas bancas a 19 de Novembro. E o ‘preto” acaba por se tornar pejorativo”.

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