Se o bode canta, então há tragédia

Para visitar na Casa da Cultura da Comporta está o primeiro acto de “O Canto do Bode”, exposição que em duas partes se prolonga por todo o Verão a juntar três galerias brasileiras e 36 artistas,entre os quais Julião Sarmento, Robert Mapplethorpe e Cildo Meireles.



Estamos quase lá. O chamamento vem como mantra para o caminho que falta ainda percorrer, sem ignorar o que se fez até aqui. É um néon da dupla Manata Laudares, que à Comporta veio dar do outro lado do Atlântico. É mesmo o Brasil que ao segundo Verão de pandemia se reúne aqui, na Casa da Cultura da Comporta, numa exposição colaborativa entre a Fortes D’Aloia & Gabriel, a Luisa Strina e a Sé, três galerias brasileiras. Consigo, trouxeram 32 dos artistas que representam. Convidaram outros quatro, entre os quais os portugueses Jorge Queiroz e Leonor Antunes. A João Maria Gusmão (em nome próprio com a última exposição em dupla com Pedro Paiva, “Terçolho”, acabada de inaugurar em Serralves) entregaram a cenografia do espaço - um antigo cinema, do qual se conserva ainda a plateia original.

Estamos nas costas do palco que João Maria Gusmão criou como dispositivo central de “O Canto do Bode”. Exposição em dois actos, com o título a levar à letra o princípio da tragédia grega, nascida nas festas em honra de Dionísio, o deus a que os romanos chamariam Baco, nas quais se sacrificava o bode acusado de comer as folhas das videiras. “Tragoedia”, de “tragos” (bode) mais “oidé” (canto). Aqui, numa celebração da “tradição brasileira de sacralização do profano e profanação do sagrado”.

É apenas um primeiro acto, inaugurado no final de Junho. A colaboração entre três galerias numa geografia fora do eixo habitual surge como forma de experimentação de novos modelos, ao fim de mais de um ano de uma pandemia que levou ao cancelamento de praticamente todas as feiras de arte.

O segundo, para o qual estão reservadas obras de outros tantos artistas, incluindo de Robert Mapplethorpe e de Julião Sarmento, inicia-se no dia 29. Por ora, e até 25 de Julho, daquele néon o olhar há-de seguir pela escultura revestida a croché a que Ernesto Neto chamou “Umbigo Ventre, Fruto Arte” a brotar de uma parede, pelo regresso à tradição do retrato com duas obras do tempo da pandemia, duas mulheres negras trazidas por Panmela Castro, até à pintura sobre tecido de Sheroanawe Hakihiiwe, artista ianomâmi que continua a viver e trabalhar na Amazónia venezuelana. Maria Ana Pimenta, directora internacional da Fortes D’Aloia & Gabriel, galeria sediada no Rio e em São Paulo que se faz representar na Europa a partir de Lisboa, detém-se diante dessa obra sem título, integrante da série “Urihi Theri” (2020): “Isto há uns anos não seria possível.”

E sabemos que não. Olhemos para o que guardava, afinal, o palco montado na zona central por João Maria Gusmão, para as obras que nele coabitam e se cruzam, contaminam, num diálogo entre tempos. E que questionam, cada uma por si, no seu tempo, “momentos políticos infames na história brasileira”.

De Daniel Fagus Kairoz, o que seria uma bandeira indígena do Brasil, em vermelho-sangue, ouro e azul (pigmentos do urucu, indigo e folha de ouro), estrelas não mais desenhadas, feitas de cortes na tela, a que chamou “O Brasil é Minha Encruzilhada (Mil Povos)”. Na zona central, duas esculturas em madeira de Abderson Borba (“Word”, em que um dedo aponta para um objecto indefinido, e a sugestiva “The Weeping White Man”), produzidas no ano passado e enquadrando, ao fundo, uma das nunca numeradas garrafas de Coca-Cola que Cildo Meireles infiltrou no circuito comercial em 1970. “Intersecções em circuitos ideológicos: Projecto Coca-Cola”, chamou ao gesto de gravar mensagens em garrafas sem que os produtores ou distribuidores se apercebessem. “Which is the place of the work of art?”, questiona-nos nesta, cedida pelo artista para a exposição e que está, como as restantes obras, à venda.

Era o tempo da ditadura militar. Deste de agora, em diálogo com o homem branco que chora de Borba, a garrafa de Cildo Meireles e aquela bandeira de Kairoz, mesmo em frente mora a literal “Presidente Selvagem”, de João Loureiro, a partir de duas caixas de papelão. Obra de 2019, como só podia. Que, se o bode canta, é porque há por aí tragédia.

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