Retalhos das sextas-feiras de um conservador vanguardista

Miguel Esteves Cardoso recorda a aventura n’“O Independente” no livro “Independente Demente”.



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A aventura começou quando dois homens com um destino em comum coincidiram certo dia na Buchholz, espaço lisboeta onde só quem por lá trabalhava podia saber “o lugar enigmático de cada livro”, como recorda Paulo Portas, muitos anos depois de se tornar director-adjunto (mais tarde, director) do jornal “sempre surpreendente e frequentemente luminoso” de onde saiu para ser deputado, líder partidário, ministro (mais tarde, vice-primeiro-ministro). “Devíamos era fazer um jornal novo”, foi a frase dita por Miguel Esteves Cardoso que deu origem a O Independente, que a partir de 20 de Maio de 1988 provocou insónias à classe política nas noites de sexta-feira. E agitou a ocidental escrita lusitana.

Primeiro entre ímpares no arranque do semanário, desaparecido em 2016, Miguel Esteves Cardoso teve, em boa hora, reunidos em livro pela Bertrand retalhos da inspiração de quem, no prefácio de “Independente Demente”, o “parceiro no crime” rotulou de “mistura excêntrica - no sentido magnífico da palavra - entre um conservador e um vanguardista”.

Em “A aventura dos jornais”, publicado na primeira edição do semanário, Miguel Esteves Cardoso revela que “metade do que se escreve em Portugal” se presta a prémios literários e teses de mestrado. “Só não dá é para perceber”, advertia então, prevendo que o problema se resolveria quando os compatriotas percebessem que, “no fundo, no fundo, não há mal nenhum em comunicar”,

Ninguém poderá acusá-lo de não o ter feito. Nas mais de 300 páginas de “Independente Demente” lêem-se convicções profundas e avulsas. A título de exemplo, “ser censurado tem qualquer coisa de viril”, “Portugal xenófobo é como um cigano que, num comboio, se recusa a sentar-se ao lado de um monhé” ou o actual “quanto mais baixa a votação do CDS, mais legítima”.

Também não há falta de textos a cruzar a fronteira do snobismo. “Cada vez me convenço mais de que os portugueses descuram a sua higiene pessoal de propósito para alienar o concidadão”, defendia, sobre os problemas dos transportes públicos. Ou, após uma sondagem à popularidade dos directores dos (muitos) semanários no final dos anos 80: “Quanto aos 45,9% de leitores de O Independente que não gostam de mim, pois tenho muita pena e lamento profundamente. Reste-vos a consolação de que eu também não gosto de vocês.”

Hoje, quase septuagenário, comparando-se à Karen Blixen de “África Minha”, recorda esse tempo com saudade: “Mesmo quando não sabíamos o que estávamos a fazer, sabíamos que estávamos a fazer um jornal.”

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