Quando Virginie Despentes se pôs num filme

Mais de 20 anos depois, o slasher que marcou a estreia da escritora francesa Virginie Despentes no cinema permanece muito longe do consenso. Talvez nunca tenha querido lá chegar. Numa sessão de meia-noite, “Baise-Moi” é hoje exibido no Motelx, a decorrer até dia 13 em Lisboa, como parte do ciclo temático que olha para o cinema de terror no feminino.



No início, uma violação. Chamaram-lhe “filme-choque”. À sua autora, Virginie Despentes, que se fazia realizadora ao fim de sete anos de publicado o seu primeiro livro, o mesmo que adaptava então ela própria ao cinema em co-realização com a actriz pornográfica Coralie Trinh Thi, chamou-se já entretanto “a Zola do rock’n’roll”. É sobre rock’n’roll, na verdade, a trilogia que publicou entre 2015 e 2020 (em Portugal editada pela Elsinore), “Vernon Subutex”, que no início deste ano nos chegou em formato de série televisiva pela plataforma de streaming Filmin.

É Despentes a firmar-se como figura incontornável depois do choque - aquele primeiro choque com que foi recebida quando em 1993 decidiu escrever o seu primeiro livro, “Baise-Moi”, que continua por editar em Portugal. Mas é também Despentes na sua versão para as massas. Em “Vernon Subutex”, a história é a de um antigo proprietário de uma loja de discos caído em desgraça, feito sem-abrigo, o improvável protagonista masculino e ele próprio vítima - do capitalismo, da sociedade do espectáculo, vítima dos tempos que não voltarão ao que já foram.

A história de “Baise-Moi” é outra. É Virginie Despentes pelos territórios da violação, da prostituição, da pornografia, temas predilectos desde que pela primeira vez se apresentou ao mundo. Ela que disse um dia nunca ter acreditado na escrita como forma de cura, mas ter mudado de ideias assim que publicou “Teoria King Kong”, livro de 2006 que a Portugal demorou dez anos a chegar mas que chegou, pela Orfeu Negro, numa edição entretanto esgotada. É um curto ensaio em que, por vários capítulos, percorre esses temas naquele que ficará como o seu tratado feminista. Por vezes na primeira pessoa, como quando conta a história da violação de que foi vítima em adolescente e que acabou por marcar o que seria toda a sua produção artística, ou a de como naturalmente deu início a uma curta carreira na prostituição. Este texto pode ser lido na íntegra na edição em papel do NOVO de 10 de Setembro.

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