“O que ficará de nós quando já cá não estivermos?”

Adolfo Luxúria Cabral, vocalista dos Mão Morta, é o autor do livro “O Crespos”. José Carlos Costa encarregou-se da ilustração.



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Ao longo da obra ilustrada pelo traço de José Carlos Costa, Adolfo Luxúria Canibal, fundador, vocalista e letrista dos Mão Morta, convida o leitor a partilhar a mesa de café com Crespos, uma personagem que nos conduz a uma reflexão sobre a invisibilidade e a solidão na sociedade contemporânea.

Ao longo de 34 anos, seis meses e sete dias, Crespos sentou-se na mesma cadeira, à mesma mesa de café da Brasileira. E era a partir dali que observava e absorvia as histórias de gerações que, alheias à sua presença, confessavam dramas e problemas e partilhavam confidências.

Crespos era de tal forma um habitué que conhecidos e desconhecidos não temiam partilhar os segredos mais misteriosos perto de si. E Crespos, em silêncio, escutava e arquivava na sua memória. Podia, sobretudo nos tempos revolucionários, ter usado essas informações, mas nunca o fez. Guardou-as para si.

Crespos é, na verdade, uma metáfora que Luxúria Canibal, pseudónimo de Adolfo Morais de Macedo, usa para fazer o retrato de um homem que, durante décadas, observou tudo e todos, conheceu centenas de histórias, foi alvo de intriga, mas não passava de um desconhecido solitário. E é ainda uma metáfora que nos leva a pensar, tal como sugere o autor, no que “ficará de nós quando já cá não estivermos”.

É quase inevitável que, ao longo da obra, o leitor pare para pensar se, no café que costuma frequentar, há também um Crespos – aquela pessoa que reconhecemos, que cumprimentamos, mas sobre quem pouco ou nada sabemos.

A retórica continua e o leitor descobre então o desfecho que o autor idealizou para Crespos nesta história. Ali, naquela mesa de café, algo surpreendente acontece e os habituais frequentadores da Brasileira só nesse momento percebem a imensidão de histórias que Crespos documentou e guardou durante décadas. E é aqui que o leitor teme já ter feito confidências na presença de desconhecidos. Estariam eles atentos à conversa?

Depois de ler este livro com a chancela da Porto Editora, o dia-a-dia do leitor não será certamente o mesmo. Passará agora a prestar mais atenção ao Crespos da sua rua – chamemos-lhe assim – e sentirá necessidade de trocar algumas palavras na tentativa de lhe dizer que não é invisível para a sociedade. Sentir-se-á também mais receoso da próxima vez que abordar um problema ou segredo em público.

Toda esta narrativa é acompanhada pela ilustração detalhada de José Carlos Costa, que ajuda o leitor a mergulhar no quotidiano de Crespos. Esta não é, aliás, a primeira vez que o ilustrador trabalha com o vocalista dos Mão Morta. José Carlos Costa já ilustrou capas e contracapas de álbuns da banda de rock bracarense.

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