O que fazer com este preto-e-branco

É o lugar do desconforto, onde os fantasmas moram. O lugar onde precisamos de passar um tempo - um bom tempo ainda.



Lourenço Marques, 1965, e isto não é ficção. É o documentário que, distracção da censura pelas então colónias, Faria de Almeida foi capaz de rodar e completar num gesto tão simples e tão provocatório quanto contar o que era, na Lourenço Marques de 1965, um dia de domingo. “Catembe”, chamou-lhe, e o problema foi que o domingo que retratava não era um apenas. Ao domingo dos “brancos”, Faria de Almeida juntou o domingo dos “pretos”. Após uma denúncia, chegou-lhe de Lisboa um telegrama com uma lista de cenas a cortar. Eram mais de 100, não havia como. Faria de Almeida desistiu do filme e “Catembe” será hoje um título para a maioria desconhecido.

Como são os primeiros registos de imagem em movimento feitos por portugueses em África com que Ariel de Bigault, cineasta francesa com uma forte ligação afectiva a Portugal, inicia “Fantasmas do Império”. Que histórias sobre fantasmas, o melhor será começar a contá-las pelo princípio, não venham eles atraiçoar-nos. E desses primeiros registos etnográficos, quase expedicionais, ainda dos anos 1920, parte este filme numa linha que, mais ou menos cronológica, acompanhará a crescente agressividade do cinema-propaganda do Estado Novo.

Dessas imagens a preto-e-branco ainda, sempre imagens sobre “pretos” e sobre “brancos”, e atravessando a guerra até chegar aos dias de hoje numa tentativa de contar a história do cinema colonial português. Virão “Chaimite” (1953), de Jorge Brum do Canto, “Acto dos Feitos da Guiné”, filme em que, já em 1980, Fernando Matos Silva percorria a história do colonialismo português, “Não, ou a Vã Glória de Mandar “(1990), de Manoel de Oliveira, “A Costa dos Murmúrios” (2004), de Margarida Cardoso, e depois os filmes de um tempo que já é outro, feito por uma nova geração de realizadores que, como Miguel Gomes (“Tabu”), Ivo M. Ferreira (“Cartas da Guerra”) ou Hugo Vieira da Silva (“Posto Avançado do Progresso”), voltaram a olhar para África. Poderia ter-lhes juntado ainda os filmes mais recentes de Filipa César e Carlos Conceição. Ficou-se por “Posto Avançado do Progresso”, filme-marco em que a câmara é definitivamente colocada num outro lugar - o lugar do outro.

“Fantasmas do Império” não precisaria de mais do que isto para levantar questões, muitas, para ser um filme obrigatório. Mas Ariel de Bigault foi mais longe: fez o cinema português confrontar-se com as imagens que produziu não só no período colonial, mas também no pós, em que os seus resquícios se perpetuam. São Orlando Sérgio e Ângelo Torres, actores angolano e são-tomense, que nos conduzem e que nos interpelam - a nós, espectadores, e, na conversa que dá o fio condutor ao filme, os autores das obras que percorrem. É o lugar do desconforto, o lugar onde os fantasmas moram. O lugar onde precisamos de passar um tempo - um bom tempo ainda.

Fantasmas do Império. De Ariel de Bigault. Com João Botelho, Margarida Cardoso, Ivo M. Ferreira, Ângelo Torres, Fernando Matos Silva, Orlando Sérgio, Maria do Carmo Piçarra, José Manuel Costa e Hugo Vieira da Silva

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos, Susana Bessa e Ricardo Ramos Gonçalves

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