O poema contínuo de Jorge Molder

Quando em 1972 se licenciou em Filosofia na Faculdade de Letras da “Clássica”, já a fotografia ocupava um papel central na sua vida. Mais de quatro décadas depois, o NOVO conversou com o artista que esta sexta-feira é distinguido com o Prémio Alumni 2021 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



Se o fim da década de 1960 prenunciava uma possível abertura do regime político português, em 1972 já a chamada Primavera Marcelista se tinha tornado um profundo Inverno de opressão e ares de revolta. Nesse mesmo ano, Jorge Molder licenciava-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, num tempo ainda assim mapeado por boas recordações.

A primeira e “mais importante de todas”, do tempo que passou na “Clássica”, refere-se àquela que ainda hoje o acompanha. “Foi lá que conheci a minha mulher. Conhecemo-nos no primeiro ano e casámos no segundo”. Mas o tempo de faculdade não foi apenas feliz por ter conhecido aquela que seria a sua companheira de vida: a escritora e professora Maria Filomena Molder.

Ao contrário dos tempos em que frequentou o Liceu Camões, dos quais apenas recorda com saudades as aulas com o professor e mais tarde amigo João Bénard da Costa, a faculdade permitiu-lhe encontrar pessoas que falavam uma mesma língua de interesses e ter tido professores que numa qualquer conversa sobre aquela época não poderia esquecer.

“Acima de tudo, o professor Lindley Cintra e o Vitorino Nemésio”, este último consagrado também pelas suas míticas aulas. “Tinha-se a sensação nítida de alguém que esteve na noite anterior a ler um livro e sabia tudo. Entrava, colocava a pasta em cima da mesa e começava a falar. A nós bastáva-nos ouvir”.

O tempo de felicidade foi também de aprofundamento no que toca à ligação às artes que já vinha, no entanto, de trás. Nascido em 1947 e criado em Lisboa, desde cedo começou a frequentar salas de cinema e galerias que foram lhe foram despertando interesses. Por essa altura, já lia Conrad e Beckett, autores que entre muitos outros se viriam a revelar fundamentais na dimensão referencial da sua obra. Mas do que sente afinal mais saudades?

“Dos restaurantes. Nessa altura comia-se bem em Lisboa. Percebo que os tempos mudaram, mas não me dou bem com a cozinha contemporânea”, atira com alguma ironia. Já a paixão pela fotografia nascia no mesmo período.

Uma forma de atitude
Embora não goste do termo fotógrafo-filósofo, certo é que num espaço de duas décadas a fotografia e a filosofia lhe ocuparam um tempo considerável da sua vida. Com uma Polaroid SX 70 nas mãos e influenciado por Ana Hatherly e outros artistas associados ao experimentalismo português, Molder não demoraria muito até realizar a sua primeira exposição individual, em 1977.

Chamou-lhe “Vilarinho das Furnas (Uma Encenação), Paisagens com Água, Casas e Um Trailer”, um conjunto de imagens que incidia também sobre uma intervenção artística de Hatherly. Sobre essa altura recorda a importância da Galeria Quadrante e do papel dinamizador do arquitecto e escultor Artur Rosa em puxar por alguns desses novos artistas em formação. “Mais do que ter aprendido com a, b ou c, a Quadrante despertou-me para a atitude geral experimentalista”, sintetiza.

Os anos 80, por sua vez, começam a definir um campo de trabalho mais preciso. Nessa fase inaugura a categoria de auto-representação que, como escreve o curador Delfim Sardo “não se tratava já para Molder de realizar uma pesquisa auto-biográfica, mas de introduzir uma personagem em trânsito”. É o tempo da séries de fotografias que iriam marcar decisivamente o seu percurso.

A forma de um duplo
Já lançadas as bases para uma fotografia totalmente inovadora no campo das artes visuais portuguesas, as séries de imagens, com o próprio Molder a servir de modelo, delineiam aquele que é a dimensão mais catalisadora da sua obra: a duplicidade.

Não se trata de um artista que encara a objectiva de uma máquina com o intuito de se auto retratar, mas antes da criação de personagens, a partir da utilização do seu próprio corpo. “A Paula Rego fala das imagens como campo narrativo em que se conta uma história. Isso é extremamente importante nas obras que crio”.

Molder é decisivo até na utilização do termo imagem em vez de fotografia. São pensadas dentro de uma lógica singular de trabalho, assevera. “Seguem uma linha de encontro específico com alguns objectos que me vão aparecendo e depois tem a ver com a forma de aproximação. Não é normal fotografar uma coisa que me impressione unicamente sob ponto de vista visual, mas por encontrar com essa coisa alguma proximidade. Por isso, essas imagens podem ser mais referenciais ou podem ser mais cúmplice e afectivas.”

O corpo, o trabalho entre a luz e os objectos, bem como um conjunto de elementos textuais com referências a várias obras da literatura asseguram um campo de múltiplas possibilidades, mas que diz, não nascem de um instante, por oposição à ideia de Henri Cartier-Bresson. “Respeito-o muito como grande fotografo e artista que foi, mas no meu trabalho não faz sentido. Sou um firme crente do acaso.”

O que faz então Jorge Molder? Os ambientes escuros, o fato e gravata com que tantas vezes se faz representar parece dar lugar a um universo noir, que ainda assim não tem época, nem tempo definido.

Parte de referências que lhe são essenciais, mas realça como há muitos outros aspectos que definem as suas imagens. “Há muitas coisas que fazem parte do meu dia a dia, conversas, gestos que ficam. O meu processo de aproximação às coisas tem flutuações.”

Tempo e nostalgia
Mais de quatro décadas depois das suas primeiras exposição, Jorge Molder sente que embora o processo de trabalho se mantenha idêntico, anda a percorrer caminhos da floresta que não levam a lado nenhum - o que não é necessariamente algo mau. “Tenho vontade de regressar a certas coisas que fui deixando para trás,, mas o seu trabalho não é da nostalgia, embora essa dimensão seja uma presença inevitável. Por mais que não queira, está muitas vezes presente.”

Nas séries de retratos, onde já retratou a figura de palhaço, agente secreto ou ilusionista, está assente uma ideia de performatividade indissociável mas não intencional, que revela igualmente uma passagem do tempo com a qual ainda não sabe bem como lidar.“

Quando se faz isto [de criar imagens em modelo de retrato] várias vezes acontece uma coisa que é o esgarçar do tempo, que desvenda algo que por mais que queiramos não pode ser combatido. Mas essa descoberta não tem um carácter de estupefacção. Vamos sempre descobrindo que já está tudo combinado. É a historia de um corpo em que vai sempre criando idade.”

Aos 74 anos, Molder é o único português a ter uma obra na Colecção de Arte da Unesco, foi artista convidado na Bienal de São Paulo de 1994 e representou Portugal na Bienal de Veneza, em 1999. Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, foi galardoado, em 2006, com o Prémio da AICA (Associação Internacional dos Críticos de Arte) e, em 2010, com o Grande Prémio EDP/Arte. Aprecia o valor que lhe é dado que diz ser “reconhecimento da revelação e do sucesso dessa revelação”.

O Prémio Alumni que irá receber esta sexta-feira, diz, acarreta “uma generosidade especial”, pela capacidade de aceitar o que tenho de igual e o que tenho de diferente e de continuar um homem daquela casa, mesmo já o não sendo”.

Quanto à fotografia, explica, trata-se de um fluxo ininterrupto. “Tem os seus momentos em que a procura é maior do que o encontro e, portanto, não é uma sequência permanente. Vai se mantendo. Não está concluída ou pelo menos gostava que não estivesse”.

É um poema contínuo, feito de imagens que hoje estão nas colecções de alguns dos principais museus europeus, mas também nas ruas e locais públicos das cidades portuguesas. Questionado sobre como se sente ao passar nas ruas pelas suas próprias imagens, diz não ter qualquer opinião. Talvez, no fundo, seja motivo para continuar? “Enquanto puder vou tentar encontrar, sempre em busca do melhor acaso.”

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