O novo refrão de um ídolo esquecido

João Couto namorou a televisão portuguesa até vencer o “Ídolos”, assinou pela Universal e estreou-se em disco. Desiludido, desligou-se da grande máquina - mas continua a formigar com anseios e melodias talhadas para a rádio, ingredientes do bolinho que é o seu novo álbum, “Boa Sorte”. O que aconteceu para ainda não termos o seu nome na ponta da língua? Pop de culto: que raio de paradoxo é este?



De guitarra ao ombro, João Couto deixou a casa dos pais em Vila Nova de Gaia e rumou a Lisboa. Uma ferramenta de inteligência artificial poderia autocompletar este enredo: “assim começa a história de um músico em botão, que almejou o êxito na grande cidade e nunca retrocedeu”. Mas estaria errada. Mais tarde, voltaria à base. Para o artista da antiga freguesia de Perosinho, essa foi apenas mais uma sexta-feira - o passado dia 1 de Outubro - entre 26 anos investidos em candidaturas ao (pequeno) grande púlpito da pop nacional.

Trazia na algibeira “Boa Sorte”, álbum que acaba de editar, para apresentar no horário nobre da TVI. Brindou Cristina Ferreira com a faixa-título - mas nenhum amuleto evitaria os fantasmas do arquivo. Apercebeu-se, de chofre, que não era a sua primeira vez a pisar o estúdio da Venda do Pinheiro: já o fizera em “Uma Canção para Ti”, concurso de jovens rouxinóis no qual se inscreveu aos 13 anos. “Pensavas que não íamos buscar isto?”, alegrava-se Cristina Ferreira, deliciada com as imagens do miúdo num blazer rosado a entoar Tony de Matos, provavelmente no seu pico hormonal.

Para o artista, em videochamada com o NOVO, para um artigo que pode ser lido na íntegra na edição em papel de 8 de Outubro, a partir de Perosinho, o constrangimento rende frutos. “Querem falar do programa onde fui quando era miúdo? Tudo bem. Já agora, esta é a minha música nova.” Uma linha de ataque que rima com João Couto, um artista a trabalhar sem grandes recursos, em regime independente. Antes da TV, já havia integrado bandas de garagem e cantado em festas; volvido pouco tempo, estava a partilhar versões suas dos Beatles no YouTube. “O ‘Uma Canção para Ti’ foi uma desculpa para ver como funcionava a televisão. Se me sentisse afugentado por aquele mundo, já naquela idade, seria um bom indicativo para me afastar. Aconteceu o oposto.”

Um anti-ídolo por e-mail

O impulso de João Couto, aos 13 anos: mais do que vedeta pop, queria ser “músico e produtor”. Sete anos depois, já noutro concurso, o discurso era mais simples. Porque queria ele, em 2015, ser o próximo ídolo de Portugal? “Quero partilhar a minha voz”, anunciava, antes de cantar Miguel Araújo. Apesar da luz verde, o júri identificou um erro de casting - a imagem de um moço penteadinho, brando e afável, de gola alta - e prescreveu-lhe uma mudança de atitude. Nas galas, João amplificou o sorriso e atirou-se a temas de Arctic Monkeys e Madonna com ferocidade, perícia e calma, até ganhar a sexta edição do “Ídolos”.

Quando o vemos hoje a namoriscar a câmara, é fácil reconstruir a história televisiva do músico, de maneirismos a microcoreografias (já sem melismas à Mariah). Era este o seu sonho? “Conto-te, muito honestamente, o que aconteceu [nesse programa]: não vi o anúncio na televisão nem fui a correr ligar para o número”, aclara. Recebeu um e-mail. As tais covers no YouTube, assim como outras demos de Couto, foram parar a um olheiro da Fremantle Media. “Escreveram-me a pedir executantes para um programa por definir.”

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