O mais (e sempre) incontornável De Sica

Haverá um jeito, uma forma, na vida que dá sempre voltas, tantas que deste prólogo “Ladrões de Bicicletas” seguirá para uma odisseia à procura, pelas ruas de Roma, de uma bicicleta roubada.



Ken Loach, o colosso contemporâneo do realismo social britânico, costuma dizer que um filme lhe mudou a vida. Um filme de 1948 que se inicia com uma multidão de homens que se amontoa às portas do que seria o equivalente a um centro de emprego oficial na Itália dos anos que se seguiram à II Guerra Mundial. Pobre, destruída, faminta, desacreditada de que um futuro pudesse vir a ser ainda possível. Pelo menos estes homens, como os homens que terão tido vidas como as destes, regressados de uma guerra a um país que na sua ausência tinha desaparecido. Mas aqui estão deles, devolvidos na pirâmide social à classe operária, força de trabalho num lugar em que ele não existe.

Ali regressam mais outra e outra vez, e tantas que quando o seu nome é anunciado Antonio Ricci já não espera, não desespera, deambula apenas por um lugar próximo. Percebe-se que esperou dois anos por aquele dia, percebe-se que achou que já não chegaria - fadada está para lhe correr mal a vida, não tivesse acabado de empenhar a bicicleta exigida pelo trabalho que lhe cai do céu para comprar comida. Haverá um jeito, uma forma, na vida que dá sempre voltas, tantas que deste prólogo “Ladrões de Bicicletas” seguirá para uma odisseia à procura, pelas ruas de Roma, de uma bicicleta roubada.

Sobre Antonio, mais sobre Lamberto Maggiorani, que o interpreta, importa ainda dizer que era ele próprio um desses homens. Mecânico que aqui De Sica fez actor. Como a criança que interpreta o seu filho no desespero para recuperar a bicicleta - um rapaz das ruas de Roma, como havia nesse tempo tantos outros. “Era necessário que este operário fosse ao mesmo tempo tão perfeito, anónimo e objectivo como a sua bicicleta”, justificaria o cineasta que com este filme aclamadíssimo logo à época ajudou (juntamente com “Roma, Cidade Aberta” sobretudo, rodado por Rossellini entre 1944 e 1945) a enformar um novo movimento cinematográfico, produto ele próprio daqueles anos - o neorrealismo italiano, que permanece como um dos mais influentes na história do cinema.

Em várias listas apontado ainda hoje como o melhor filme de sempre. “Ladrões de Bicicletas”, está de regresso às salas, trazido pela Leopardo Filmes ao Medeia Nimas, em Lisboa, como ponto de partida para um ciclo dedicado aos grandes mestres do cinema italiano. A estreia da cópia digital restaurada em 4k (num trabalho conjunto da Cinemateca de Bolonha, da Compass Film e do Istituto Luce Cinecittà) vem acompanhada de um outro Sica, “O Milagre de Milão”, estreado dois anos depois . A 1 de Julho chega, neste conjunto de estreias de cópias digitais restauradas em alta definição a vez de Valerio Zurlini, com dois filmes, de 1961 e 1972: “A Rapariga da Mala”, e “Outono Escaldante”. Mas metres italianos há, bem se sabe, outros. E este é só um início, vamos ainda na primeira parte.

Ladrões de Bicicletas. De Vittorio De Sica, com Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell e Elena Altieri

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos, Susana Bessa e Ricardo Ramos Gonçalves

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