O fim da coboiada

Lil Nas X esteve quase para ser uma one-hit wonder, mas o epíteto não lhe caiu bem. A estrela de “Old Town Road”, um rapper negro e homossexual, recusou desaparecer do mapa e encontrou residência no topo das tabelas - isto enquanto firma um novo e luminoso cânone queer.



Já não há cobra pitão, vestido de carne crua ou Miley Cyrus que valham à MTV. Os Video Music Awards (VMA), outrora a liturgia do mainstream onde o poder audiovisual era hóstia e sobremesa, têm-se esvaído num curioso nada. Mesmo quando a realização e a produção se excedem, como na edição pandémica de 2020, sobra uma pergunta: de que vale o rigor à música pop se não consegue provocar-nos? (Frio...)

Há uma semana, a MTV lembrou-se de si própria, de quando a Music Television fazia jorrar litros de tinta no dia seguinte. Doja Cat, rapper especializada em marimbar-se, apresentou a gala; mesmo vestida de minhoca, é difícil ultrapassar a barreira entre o TikTok e a cultura pop que chega a todas as massas. Sem a velha guarda presente, o canal apostou as fichas em performers promissoras, como Chlöe ou Normani - estudiosas de Beyoncé e Janet Jackson -, que um dia hão-de render momentos lendários. (Morno...)

Madonna abriu a cerimónia, não em jeito de passagem de testemunho, mas em autotributo, lembrando-nos de que dificilmente alguém a igualará na arte da controvérsia e do teledisco - como conspirado, censurado e mitificado nos anos 80. Mas não há razão para que, munido de orçamento e coragem, um novato não possa desafiar o título. (Quente!) É a deixa de Lil Nas X, o cowboy que nos trouxe a canção do Verão de 2019, “Old Town Road”. Agora desmata a sua própria estrada, iluminada pela glória queer que sempre escasseou - de forma assumida - na música popular. “Montero” o seu novo álbum em destaque na edição em papel do NOVO.

$!O fim da coboiada
Ler mais
PUB