O amor-assombração de Leos Carax

“Annette” é a dor, o mal ou os males do mundo congregados no fundo de um poço tão fundo que talvez só Carax pudesse imaginá-lo. E afinal fazemos o quê com isto? O que se faz com o trauma. Um dia de cada vez. E a resposta há-de vir.



Expiação ou provocação. Se Leos Carax pode tudo - para isso nos vem pelo menos tentando educar -, com ele nunca se sabe. Desde “Boy Meets Girl”, a sua meteórica primeira longa-metragem, já de 1984, com o omnipresente Denis Lavant, dele havíamos visto apenas outros quatro filmes. O último, “Holy Motors”, estreou-se em Cannes já em 2012, atravessado pela desavisada e prematura morte da sua mulher, a actriz russa Yekaterina Golubeva, aos 44 anos, juntando em torno de Lavant, de novo, limusinas, Eva Mendes, a bela em oposição ao monstro, e Kylie Minogue.

“Annette” descreveu-o Carax, antes da estreia como filme de abertura da edição a decorrer do festival de Cannes, como “um musical de fantasia com alguma comédia, amor e sexo, um monstro, uma criança e alguns cadáveres”. Parece simples - ou quase. Os olhos estavam todos postos no aguardadíssimo “Annette”. No que daria um musical, uma ópera rock, pelo enfant terrible do cinema francês, protagonizado por Adam Driver e Marion Cotillard? Ele no papel de um comediante, ela no de cantora lírica, casal “contra-intuitivo”, essa palavra exacta hão-de cantar, quando há ainda luz e dia e esperança e um campo aberto e mãos dadas?

Em algo de que só Carax seria capaz. No final fica a pergunta: terá alguma vez ido tão longe o agente provocador por excelência do cinema francês? Talvez os três dias que se passaram desde que “Annette” foi pela primeira vez visto sejam demasiado curtos para certezas.

Voltemos então atrás. Expiação ou provocação, a dúvida não é só plausível; instala-se, corrói numa história sobre o amor que não se consegue gerir. O amor de que um dia se foge e que noutro dia, o que parece o certo, se aceita, mas que há-de sufocar, à noite - de ameaçar matar. O subconsciente tem destas coisas. O trauma também. Pode nem ter sido Carax a escrever esta história, da autoria de Ron e Russell Mael, os irmãos que fazem os Sparks, duo de pop rock americano de que o cineasta se assume fã há muito, muito tempo, e que assina o argumento - “Annette” é um musical, ainda não nos esquecemos. Um musical que Carax leva tão longe no conceito e que, ao mesmo tempo, traz tão perto da vida, em montanha-russa emocional quase psicadélica. Desta vez coloca-se no lugar do realizador apenas. Mas entre metáforas e paralelismos com a história da perda da sua mulher em circunstâncias que nunca foram esclarecidas (falou-se numa depressão, especulou-se sobre a possibilidade de suicídio), o desconcerto da forma desta sua sexta longa-metragem contamina o conteúdo (a mensagem?) no que poderá ser um dos mais perturbadoramente ousados gestos cinematográficos em anos.

A abjecção pela farsa levada ao extremo - e levada ainda mais a dor da perda. Pior: a culpa da perda, a assombração que regressa a cada noite, a cada vez que Annette, a criança, criança-marioneta, decide cantar. Encarna a mãe, que regressa ela própria ora fantasma ora zombie-sereia vinda das profundezas do mar em que se perdeu. A dor, o mal ou os males do mundo congregados no fundo de um poço tão fundo que talvez só Carax pudesse imaginá-lo. E afinal fazemos o quê com isto? O que se faz com o trauma. Um dia de cada vez. E a resposta há-de vir.

Ler mais