No território da averiguação visual

“Vaca Preta”, segundo livro do autor português Marcos Foz, é mais do que com um mero livro de leitura descomplicada e inteligível. Aqui navegamos pela poesia, pela prosa poética e até pelo registo ensaístico, colocando o leitor numa situação de indecidibilidade.

Estamos na época por excelência em que os livros são vistos como objectos supérfluos, imprimidos ao ritmo da banalidade. Circunscritos a um mercado afogado nas necessidades comerciais de fazer olho ao pastiche dos títulos gordos, de quando em vez, nessa prolongada eutanásia editorial, encontramos raros e singulares exemplos de quem rema contra a maré.

É aqui que encontramos “Vaca Preta”, segundo livro do autor português Marcos Foz, editado pela Bestiário e co-editado pela Snob. Mais do que com um mero livro de leitura descomplicada e inteligível, somos confrontados com um muro de virtudes literárias, musculado tanto pela qualidade gráfica como por aquilo que as suas 136 páginas (mais um encartado de 16) nos apresentam.

Ainda antes de iniciarmos a sua leitura, é através de um QR code que somos transportados para um universo que funciona como preâmbulo do que se segue. “O documento que agora nos apresenta para avaliação levanta algumas dúvidas quanto à sua pertinência no panorama geral das coisas.”

Depois disso navegamos pela poesia, pela prosa poética e até pelo registo ensaístico que nos coloca fora de pé, como leitores-interrogadores que deambulam num território de “averiguação visual”. Talvez a pista que nos é dada pelo verso de António Franco Alexandre seja não apenas importante como necessária para uma leitura deste objecto: “Julgavas, então, que a poesia era um discurso de palavras em sentido?”

O leitor que por aqui se aventura será colocado numa situação de indecidibilidade. Irá encontrar fios narrativos que perde logo a seguir, fragmentos deambulatórios de dois narradores que atravessam dias e noites nesse ritmo incessante, por vezes onírico, da cidade. E a sua leitura deixará marcas. Afinal, não é todos os dias que nos confrontamos com uma leitura abísmica que consegue embasbacar-nos.

Vaca Preta, de Marcos Foz (ed. Bestiário, co-edição com a Snob).

*As escolhas semanais de Cláudia Sobral, Pedro João Santos, Susana Bessa e Ricardo Ramos Gonçalves

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